Museu Goeldi prepara exposição sobre as retomadas dos povos indígenas Katxuyana e Kahyana

Concebida e narrada pelos próprios povos, exposição será aberta ao público na próxima quarta-feira (26), no Parque Zoobotânico, com parte dos artefatos e dos objetos sagrados localizados na coleção etnográfica do MPEG.

Publicado em 20/08/2026 16:09Modificado há um dia
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Uma coroa indígena feita com penas fotografada de baixo para cima
Exposição está sendo montada no mezanino do Centro de Exposições Eduardo Galvão, localizado no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi (Woltaire Masaki /MPEG)

O Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém (PA), recebe, a partir de 26 de agosto, a exposição Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros, dedicada aos caminhos das retomadas dos povos indígenas Katxuyana e Kahyana. Concebida e narrada pelos próprios povos, a mostra apresenta uma história marcada, desde a década de 1960, por deslocamentos forçados e pela dispersão de grupos e famílias. Os deslocamentos também ocorreram com muitos de seus pertences, levados para longe de seus territórios e guardados em museus.

Mesmo quando impedidos de permanecer fisicamente em partes de seu território tradicional, os Katxuyana e Kahyana mantiveram seus vínculos com seus lugares, rios, antepassados, conhecimentos e modos próprios de existência, sabendo que esse território nunca esteve vazio. Nele permaneceram sinais e presenças de outros yana, inclusive parentes que permanecem em isolamento, integrantes das famílias que resistiram no território e que sempre fizeram parte de sua história e de sua proteção.

Um artefato plumário dos povos indígenas Katxuyana e Kahyana exposição
Artefato plumário de grande importância para os povos (Woltaire Masaki/MPEG)

Ao longo das últimas décadas, os Katxuyana e Kahyana fortaleceram movimentos de retomada da presença física, política e cosmológica em seus territórios, em um processo de resistência e afirmação territorial que teve, entre seus marcos recentes, a demarcação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, homologada durante a COP 30, em 2025.

Reunindo artefatos, fotografias, objetos sagrados, documentos históricos, registros audiovisuais e relatos próprios, a exposição promove o reencontro entre pessoas, lugares, memórias e patrimônios que seguiram diferentes caminhos ao longo do tempo. Esses reencontros tornam visível a continuidade das relações que os Katxuyana e Kahyana mantêm com seu território e atravessam gerações.

A mostra é realizada pela Associação Indígena Kaxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK), em parceria com o Instituto Iepé, o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Universidade Federal Fluminense (UFF), no âmbito do Ano Cultural Brasil-Reino Unido 2025–26, promovido pelo British Council.

Txama txama: elemento de conexão

No centro da exposição está o txama txama, um artefato plumário de grande importância cosmológica e sociopolítica para os povos Katxuyana e Kahyana, um dispositivo de comunicação e diplomacia entre diferentes mundos, capaz de mediar relações entre humanos e outros seres da Terra.

A iniciativa também propõe uma reflexão sobre o papel dos museus e das coleções etnográficas. Ao promover a reconexão entre comunidades indígenas e artefatos preservados em instituições brasileiras e europeias, o projeto busca transformar museus em espaços de diálogo, colaboração e reparação histórica.

Katxar kum neero afirma que as retomadas são, acima de tudo, movimentos de continuidade. Apesar do exílio, da dispersão e das violências históricas, os povos Katxuyana e Kahyana seguem existindo, recriando relações e fortalecendo seus modos próprios de habitar e cuidar do mundo. A exposição é um convite para conhecermos essa história a partir de quem a viveu, e que continua sendo construída pelas novas gerações.

“Para nós, Katxuyana e Kahyana, essa exposição é uma oportunidade de compartilharmos nossas histórias de resistência e resiliência diante de um processo marcado pela violência e pela tentativa de apagamento de nossas existências”, afirma Angela Kaxuyana, liderança indígena da AIKATUK e uma das principais vozes do movimento de retomada territorial. “O sentimento de pertencimento e a conexão que mantemos com nossos verdadeiros lugares foram fundamentais para que permanecêssemos vivos como yana. A história contada nesta exposição busca conectar as gerações, fortalecer nossa memória e compartilhar a importância dos nossos territórios como garantia de vida, existência e continuidade dos nossos povos”, complementa.

Uma indígena de blusa laranja, brincos coloridos e cabelos pretos pinta um objeto transparente
Angela Kaxuyana prepara detalhes da exposição (Woltaire Masaki/MPEG)

Exposição com acessibilidade

Museóloga e pesquisadora do Museu Goeldi, Lúcia van Velthem ressalta a importância da curadoria compartilhada com os povos indígenas e com o Instituto Iepé e fala sobre as peças que fazem parte da coleção do MPEG. “Na exposição, teremos peças dos Katxuyanas e dos Kahyanas, que são contemporâneas, que eles fazem e utilizam atualmente, e vamos ter peças que pertencem à Coleção Etnográfica do Museu Goeldi, coletadas pelo pesquisador Protásio Frikel na década de 1960”.

Coordenadora substituta de Museologia do MPEG, Karol Gillet salienta que o percurso da exposição foi construído a partir da concepção dos indígenas, com uma proposta de visitação cíclica para conectar o público às histórias de retiradas e de retomadas. “A exposição foi construída após oficinas realizadas nas aldeias. O público conhecerá as histórias de perdas, de lutos, mas também de retomadas”. Ela explica que a exposição possui um projeto de acessibilidade, para atender às pessoas com deficiências (PcDs): “teremos algumas peças táteis, inclusive fotografias, para que as pessoas com deficiências se conectem à exposição, que contará com audiodescrições”, acrescenta.

Texto: Agência Museu Goeldi e Instituto Iepé.

SERVIÇO

SERVIÇO:

Exposição Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros

Visitação pública: de 26 de agosto de 2026 a 30 de abril de 2027 | quarta a domingo, das 9h às 16h

Local: Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi. Centro de Exposições Eduardo Galvão (mezanino). Avenida Magalhães Barata, 376 - São Brás. Belém (PA).

Acesso ao parque: R$ 3, com meia-entrada e gratuidades previstas em leis.

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Educação e Pesquisa
Tags:Pará
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