Museu Goeldi, Embaixada da Suíça, Governo do Pará e Instituto Peabiru reforçam cooperação para a Amazônia

Em evento desta sexta-feira, instituições renovam parceria para restauro da "Casa Goeldi" e definem seu uso. Em alusão ao Abril Indígena, o MPEG publica portaria reconhecendo seus espaços institucionais como território de relevante valor sociocultural relacionado aos povos originários.

Publicado em 24/04/2026 14:17Modificado há 5 dias
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Gestores de instituições parceiras do Museu Goeldi estão ao lado do diretor do MPEG que segura documento assinado para firmar apoio ao restauro da Casa Goeldi
Da esquerda para a direita: Bruno Chagas, Nilson Gabas Júnior, Hanspeter Mock e João Meirelles após assinar renovação de parceria (Woltaire Masaki/MPEG)

Agência Museu Goeldi — Em evento nesta sexta-feira (24/04), o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), a Embaixada da Suíça no Brasil, o Governo do Pará e o Instituto Peabiru reforçaram a cooperação institucional com foco no fomento à ciência, à tecnologia, à inovação, à educação e à cultura na Amazônia. Representantes das instituições renovaram a parceria para a continuidade de tratativas e esforços para a restauração e uso da "Casa Goeldi", que faz parte do conjunto de prédios históricos pertencentes ao Parque Zoobotânico (PZB). Também no encontro, o diretor da instituição de pesquisa mais antiga da Amazônia assinou portaria que designa simbolicamente os espaços institucionais do MPEG como “terra indígena” para fins de interesses socioculturais dos povos tradicionais.

Os entendimentos foram firmados pelo diretor do Museu Goeldi (instituição de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI), Nilson Gabas Júnior; pelo  embaixador da Suíça no Brasil, Hanspeter Mock; pelo coordenador de Relações Internacionais da Representação do Governo do Pará em Brasília (DF), Unaldo Vieira de Souza; e pelo secretário de Cultura do Pará, Bruno Chagas. Antes do evento – que aconteceu no auditório do Centro de Exposições Eduardo Galvão, no PZB, localizado no bairro de São Brás, em Belém – eles realizaram uma reunião de trabalho que teve como um dos assuntos as comemorações dos 160 anos do Museu Goeldi, previstas para outubro.

Nilson Gabas Júnior deu as boas-vindas à mesa e ao público que assistiu ao evento. Ele relembrou a participação do Museu Goeldi na COP30, quando sediou mais de 200 eventos em suas duas bases na capital – o Parque e o Campus de Pesquisa, já no esteio da parceria firmada com as instituições representadas ali, especialmente à Embaixada Suíça que teve um envolvimento direto nessa programação. Gabas falou sobre a importância do PZB, que é completamente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e ressaltou o cuidado do Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Dphac), em nível estadual, introduzindo a necessidade de conservação e reestruturação dos seus prédios históricos, entre os quais a casa onde morou Emílio Goeldi, naturalista que dá nome à instituição.   

Cooperação e captação de recursos

O diretor do Museu disse que a instituição conseguiu um recurso junto à Finep para reforma dos prédios do PZB (que deve ocorrer este ano), mas que não inclui a Casa Goeldi. Por isso, fez a provocação ao embaixador Hanspeter Mock, dando início à cooperação para captação de recursos para essa restauração. “Graças ao aceite da Embaixada, nós (representantes das instituições) nos envolvemos nessa iniciativa e com esse apoio estamos conseguindo levantar recursos, inicialmente para o projeto arquitetônico e planejamento da reforma. Pretendemos que o imóvel tenha um uso compartilhado e voltado às necessidades e às demandas das comunidades tradicionais, sobretudo as indígenas, que promova a identidade, o bem-estar, o desenvolvimento e a manifestação cultural”, disse.

O embaixador da Suíça no Brasil, Hanspeter Mock, agradeceu a oportunidade do encontro e mencionou a alegria de voltar ao Museu Goeldi, onde esteve durante a COP30, entre outras agendas. “É um prazer especial tomar a palavra neste dia de celebração, porque demonstra a força e a continuidade das relações entre a Suíça e o Brasil, mais particularmente entre a Suíça e o Estado do Pará. E esses laços não são recentes, pelo contrário, se baseiam em uma cooperação sólida e duradoura, orientada para o futuro, e fundada em valores compartilhados, especialmente nas áreas da ciência, da cultura e da sustentabilidade”, salientou, relembrando a assinatura do Memorando de Entendimento, pela embaixada, o Museu Goeldi e o Instituto Peabiru em 2024, renovada nesta sexta-feira.

Ele mencionou a conclusão do termo de fomento, no último mês de março, que permitiu o repasse de recursos do governo do Estado para o projeto. “Todos esses instrumentos refletem uma vontade compartilhada de construir parcerias duradoras e eficazes à serviço da sociedade. Hoje temos a oportunidade de dar nova vida a esse espaço histórico, fazendo dele um local de encontros, de trocas e de produção de pesquisas sobre os saberes tradicionais e científicos da região amazônica, levando esses saberes tradicionais a desenvolver um marco avançado no progresso da ciência moderna”, acrescentou o embaixador, que celebrou ainda o legado do naturalista Emílio Goeldi na Amazônia.

Parcerias duradouras

Coordenador de Relações Institucionais da Representação do Governo do Pará em Brasília, o diplomata Unaldo Vieira de Souza relembrou a história da migração suíça no Brasil e afirmou que as duas nações seguem construindo produtivas relações diplomáticas, sendo a parceria para a restauração da Casa Goeldi um exemplo. “O Brasil é o principal parceiro econômico da Suíça na América Latina e a Suíça é o sétimo maior investidor direto no Brasil, com mais de 600 empresas instaladas no país”, disse ele, saudando o futuro das parcerias. “Os paraenses, os amazônidas, os brasileiros e os suíços irmanaram-se em fazer o bem para a humanidade. Que essa celebração simbolize a cooperação permanente e frutífera, no domínio da ciência e na defesa perene do humanismo”, acrescentou.

Presidente do Instituto Peabiru, João Meirelles está à frente da captação de recursos para o projeto da Casa Goeldi. Ele relembrou alguns marcos dos vinte anos de parceria com o MPEG, como a restauração do aquário Jacques Huber, no Parque Zoobotânico, e mencionou a importância da iniciativa privada, no Brasil e na Suíça, nos recursos já arrecadados para o projeto. João explicou que será necessário atrair novos investidores, sendo a Lei Rouanet um dos instrumentos que deverão ser mobilizados em parceria com o Instituto Pedra. “Somos um facilitador, um executor, um gestor, até para que o poder público possa trabalhar em cogestão com instituições sem fins lucrativos em projetos como esse da Casa Goeldi. Isso facilita para que o Estado se dedique a outras agendas prioritárias”.

O secretário de Estado da Cultura, Bruno Chagas, encerrou as falas representando o governo do Pará, que disponibilizou R$ 1 milhão para a restauração da Casa Goeldi. “A declaração de que a Casa Goeldi será um espaço a serviço das comunidades tradicionais é importantíssima. Para nós, governo do Estado, as iniciativas voltadas para a preservação da nossa cultura são uma prioridade. Estou muito satisfeito com essa parceria. Estamos, mais uma vez, renovando a nossa disposição em continuar apoiando este projeto com tudo o que foi necessário”, afirmou o secretário, que falou em nome da governadora Hana Tuma.

Portaria: “Museu Goeldi Terra Indígena”

Desde 2023, o Parque Zoobotânico é considerado território indígena, a partir de uma declaração simbólica institucional, durante evento de abertura da 17ª Primavera dos Museus. No entanto, a partir de agora, essa declaração se torna oficial e extensiva a toda a instituição, incluindo suas três bases (o Parque e o Campus, em Belém; e a Estação Científica, em Caxiuanã). A partir da Portaria 503/2026, publicada neste mês de abril, o Museu Goeldi recebeu a designação institucional simbólica de "Terra Indígena".  O reconhecimento tem fins exclusivamente memoriais, educativos, museológicos, científicos, culturais e comunicacionais. 

De acordo com o documento, a declaração abrange espaços físicos, expositivos, educativos, de pesquisa, de memória, de comunicação e de visitação vinculados ao Museu, incluindo suas bases e unidades institucionais; materiais editoriais, peças de comunicação, campanhas institucionais, exposições, programações educativas, interpretações internas, ambientes digitais e demais meios de expressão institucional do Museu. 

A portaria também destaca que a expressão “terra indígena” é simbólica, sem vinculação e efeito jurídico e constitucional, não se confundido com qualquer afetação real, destinação, demarcação, homologação ou registro territorial que envolva alteração de posse de imóvel público, sendo uma forma de “fortalecer, no âmbito institucional, práticas de respeito à diversidade étnica, cultural e epistêmica da Amazônia”, entre outros fins. 

Compromissos firmados

Durante o evento, foram assinados dois documentos. No primeiro, os representantes das quatro instituições parceiras renovam, por meio de um aditivo a um memorando de entendimento firmado em junho de 2024, as intenções de colaboração em ações conjuntas, em levantamento de fundos e outras iniciativas voltadas à ciência, à cultura e à tecnologia em prol da Amazônia. Esse novo documento tem vigência de dois anos. 

O segundo momento foi a assinatura pelo diretor do Museu Goeldi, Nilson Gabas Júnior, da declaração institucional de uso e ocupação prevista da Casa Goeldi. No documento, o prédio, depois de reformado, será destinado à instalação e operação de um espaço de uso institucional e cultural qualificado, apto a abrigar atividades, como: recepção de visitantes, pesquisadores, comunidades, convidados e parceiros; reuniões institucionais, encontros técnicos e agendas de representação; palestras, conferências, rodas de conversa, pequenos eventos e ações de difusão científica e cultural; iniciativas de educação patrimonial, interpretação do patrimônio e valorização da memória institucional; além de atividades expositivas, curatoriais, educativas e protocolares. 

Texto: Andréa Batista e Carla Serqueira














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Ciência e Tecnologia
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