Apaixonados por ciências e tecnologias ‘visitam o Museu’ na 78ª SBPC
Milhares de pessoas de todas as idades e com vários interesses passaram pelo evento científico realizado na UFF, em Niterói. O MPEG esteve representado em dois estandes e em mesas-redondas com a participação de pesquisadoras. Durante uma semana, o público pôde participar da ExpoT&C, do Circo da Ciência e de outras atividades científicas e culturais.

Agência Museu Goeldi – Helena Araújo não parecia afetada pelo barulho e pela movimentação dos visitantes da ExpoT&C, o ambiente mais disputado da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que aconteceu na semana passada, em Niterói-RJ. Enquanto robôs desfilavam entre os estandes da feira, a menina de 11 anos, que é apaixonada por ciências, folheava os livros expostos no estande do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) – vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) –, como se estivesse no silêncio de uma biblioteca. “Eu me sinto muito feliz de poder ter esse acesso, ter esses livros, poder ler e ver o esplendor da natureza”, disse, visivelmente encantada com a publicação sobre orquídeas nativas da Amazônia brasileira.

Por meio do evento, os visitantes tiveram acesso a conhecimentos produzidos no Museu, localizado em Belém-PA, a cerca de 3 mil quilômetros de distância, na região amazônica. A mãe de Helena relatou que a filha tinha muita curiosidade sobre as orquídeas e que os livros didáticos já não eram suficientes diante da sua sede de conhecimento. “Ela quer os livros científicos. Quando viu este espaço aqui, quis parar”, contou Lorena Araújo. Os livros levados pelo Museu Goeldi à feira representaram sua produção editorial, que tem títulos premiados nacionalmente. Além desse mostruário, a instituição esteve presente no maior evento científico da América Latina com itens representativos de suas 19 coleções científicas e também da coleção didática, que mobilizaram a atenção de pessoas de todas as idades.
O jovem Vinícius Marques estava mais preocupado em saber mais sobre o processo de taxidermia pelo qual os animais passaram antes de integrarem as coleções. Segundo a mãe, ele mantém em seu quarto uma ossada de um gambá e vários outros fragmentos de animais que achou na rua. “Por favor, não ensine isso (taxidermia) a ele. Tenho medo do que vou encontrar no quarto dele”, brincou, sorrindo, a psicanalista Caroline Marques, ao lado do marido, Giovanni Correia, desenvolvedor de softwares. Apesar da brincadeira, os pais demonstravam felicidade de terem um filho que buscava conhecimento aprofundado sobre temas relacionados às ciências e às tecnologias em um evento público.
Museu e unidade de pesquisa há 160 anos

O coordenador de Museologia do MPEG, Emanoel Oliveira, destacou que as atividades da 78ª SBPC são essenciais tanto para a discussão de temas científicos, pois reúne pesquisadores de diversas áreas, quanto para a divulgação e a popularização da ciência produzida. Ele destacou que, nesta edição do evento, o Museu Goeldi reforçou seu papel como museu e instituição de pesquisa mais antiga da Amazônia e também mostrou que atua com inovação. “Apresentamos dois produtos, uma vela repelente à base de aninga e um fertilizante que recria a terra preta arqueológica, produzidos a partir de pesquisas junto às comunidades ribeirinhas e indígenas da Amazônia”, destacou.

No estande montado no Circo da Ciência, no pavilhão da SBPC Jovem, os participantes tiveram a oportunidade de saber mais sobre projetos de pesquisa, educação e extensão promovidos pelo Museu, entre os quais a tecnologia social dos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas. Nesse ambiente, as crianças coloriram desenhos da “Turma do Museu”, representada por figuras animais e brincaram com o jogo de cartas ‘Ancestralidade em jogo’, entre outras atividades. “Trouxemos materiais das áreas de botânica e de zoologia e itens da nossa Coleção Didática Emília Snethlage com os quais o público pôde interagir e saber mais sobre a nossa instituição que está há quase 160 anos fazendo pesquisa e história na Amazônia”, disse Mayara Larrys, chefe do Serviço de Educação do MPEG.
As tecnologias sociais também foram o tema do minicurso ministrado por Diana Rodrigues, pesquisadora do Museu Goeldi, que integrou a programação científica da 78ª SBPC. A tecnologista apresentou ao grupo participante o Observatório de Tecnologia Social, desenvolvido pela instituição e falou da premiação de uma delas, os Dicionários de Línguas Indígenas, recebida pela Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, este ano. Na feira, Diana Rodrigues explicou aos visitantes o que são tecnologias sociais: “São processos de desenvolvimento tecnológico coproduzidos com comunidades e grupos sociais para atender a necessidades locais e promover o desenvolvimento social”.




O legado da COP30

A programação científica incluiu dezenas de eventos, conferências e mesas-redondas, entre as quais duas sessões especiais, sendo a primeira “Avaliação da COP30”, que contou com a participação da pesquisadora Ima Vieira (Museu Goeldi/Finep), dividindo a mesa com Ana Toni (diretora-executiva da COP30), e Altaci Corrêa Rubim (pesquisadora indígena vinculada à UnB). O debate foi coordenado por Paulo Artaxo (USP). Pesquisadora na Amazônia, Ima Vieira destacou também que a ciência na região amazônica padece com o baixo financiamento: “Não se sustenta um mapa do caminho global sob uma base científica regional subfinanciada”.
Os painelistas apontaram avanços que foram obtidos durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Belém (PA), principalmente, por ter sido considerada a COP com maior participação dos povos indígenas, e também desafios que ainda persistem e que deverão ser retomados no próximo encontro, na Turquia, em novembro próximo, como o mapa do caminho do combustível fóssil, que, segundo Ana Toni, deveria ter sido formalizado em COPs anteriores para entrar na agenda, como um rito necessário, e que esbarra na dificuldade de se chegar a um acordo já que 80 países não querem se afastar desse tipo de consumo energético.
Em seguida, aconteceu a sessão “O Legado da COP30”, coordenada por Ima Vieira, com a participação de Marlúcia Martins (MPEG), Thelma Krug (IPCC), embaixadora Liliam Beatris Chagas de Moura (Declima/MRE) e Henrique dos Santos Pereira (INPA). Esse último evento foi interrompido devido à ventania que ocorreu no Rio naquela tarde.

Prêmio de divulgação científica
No penúltimo dia do evento, os coordenadores do Laboratório de Comunicação Pública da Ciência na Amazônia, vinculado ao Serviço de Comunicação Social (LabCom/Secos), Tarcízio Macedo e Joice Santos, representaram o Museu Goeldi, recebendo o Prêmio SBPC TikTok de Divulgação Científica, na categoria “Melhor divulgação científica institucional”, destinada a universidades, institutos de pesquisa, coletivos e organizações. Os jornalistas parabenizaram os organizadores pela iniciativa e agradeceram ao público das redes sociais que se engajou na premiação, destacando o compromisso da instituição com a ciência e com a informação de qualidade, no combate à desinformação e ao negacionismo científico.




A próxima SBPC
A 78ª reunião anual foi promovida pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC) e pela Universidade Federal Fluminense (UFF), no Campus de Gragoatá, em Niterói. O evento contou com conferências, mesas-redondas, sessões de pôsteres, atividades culturais, exposições, minicursos e outras programações destinadas a estudantes e professores do ensino básico, técnico e superior, além de pesquisadores, profissionais e do público interessado.
Na solenidade de fechamento, foi anunciado que a próxima reunião será em João Pessoa, na Paraíba, em parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A cidade nordestina é conhecida por ter o ponto mais oriental das américas, “onde o sol nasce primeiro” e está localizada a poucas horas de distância de outras capitais, como Recife (PE), Natal (RN) e Maceió (AL), facilitando a participação de outros públicos.




Texto: Andréa Batista/MPEG
Revisão: Carla Serqueira/MPEG