Ana Maria Nacinovic

Em memória de Ana Maria Nacinovic
Filha de Anadyr de Carvalho Nacinovic e Mário Henrique Nacinovic, Ana Maria Nacinovic nasceu no Rio de Janeiro em 1947. Após a separação dos pais, cresceu sob os cuidados de sua mãe. Aluna do Colégio São Paulo, dirigido por freiras em Ipanema, na zona Sul do Rio de Janeiro, Ana Maria estudou piano e desde cedo demonstrou especial sensibilidade para as artes.
Aos dezessete anos se casou com o capitão do Exército Carlos Augusto Albernaz Corrêa, que vinha de uma família de altas patentes militares e passou a persegui-la após o fim do curto e conturbado relacionamento. Em 1968, já separada de Albernaz Corrêa, Ana Maria retomou seus estudos e ingressou na Escola Nacional de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na época a escola ficava situada na Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro, de onde seria removida em 1975.
Foi durante o período de maior intensidade da repressão no Brasil após o Ato Institucional n.5 e já sob o governo do general Emílio Garrastazú Médici que Ana Maria se juntou à Ação Libertadora Nacional (ALN), principal organização da esquerda armada. Fruto de uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e liderada por Carlos Marighella, a ALN se tornou alvo privilegiado da repressão após os sequestros do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969, e do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em 1970, em troca da libertação de presos políticos.
Na documentação policial reunida pela Comissão Estadual da Verdade de São Paulo Rubens Paiva, o nome de Ana Maria começa a ser citado entre os militantes ligados ao sequestro do embaixador alemão, do qual não particjpou. No Arquivo Nacional, os primeiros registros localizados sobre ela datam de 1971 e seu nome desde então passa a figurar nas listas dos serviços de informação como “Ana Maria Nacinovic Corrêa”.
Embora tenha deixado de usar o sobrenome do ex-marido logo após a separação, ela nunca conseguiu retirar oficialmente o sobrenome de casada. Ana Maria Nacinovic foi assassinada cinco anos antes da legalização do divórcio em dezembro de 1977 (Lei nº 6.515).
Ana Maria passou a viver na clandestinidade entre o Rio e São Paulo, em companhia do também militante Carlos Eugênio Paz. Foi em São Paulo que ambos foram reconhecidos no mês de abril de 1971 conforme relata o documento a seguir, disponível no fundo do Serviço Nacional de Informações.
Em setembro do mesmo ano, Ana Maria sobreviveu a uma emboscada armada pelo DOI-CODI/SP contra militantes da ALN na rua João Moura, em São Paulo. Nessa operação morreram Antônio Sérgio de Matos, Manuel José Mendes Nunes e Eduardo Antônio da Fonseca. No final do mesmo mês, a Comunidade de Informações do I Exército já tinha notícias de que Ana Maria estava na cidade de Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, em companhia dos militantes Iuri Xavier Pereira e Norma Sá Pereira.
Seu rosto passou a aparecer nos cartazes de “terroristas procurados” afixados em aeroportos, rodoviárias e outros espaços públicos, nos quais era classificada pelas autoridades como “subversiva perigosa”. Nos documentos dos órgãos de repressão, sua identidade é associada a uma série de codinomes, como Betty, Leda, Márcia, Loira, além de Josefina Damas Mendonça, Maria da Graça Souza Raro, Sônia Maria Sampaio Além, Maria Teresa Teixeira, entre outros.


Na manhã de 14 de junho de 1972, Ana Maria estava entre os quatro militantes localizados pelas forças de segurança em São Paulo após uma ação da ALN, um assalto na avenida Indianópolis, dois dias antes. Segundo a versão oficial, divulgada nos principais jornais em 15 de junho, os agentes de segurança teriam montado um cerco ao restaurante Varella, no bairro da Mooca e os militantes teriam reagido a bala, morrendo no tiroteio. Antônio Carlos Bicalho Lana conseguiu fugir, apesar de gravemente ferido. Ana Maria Nacinovic, Iuri Xavier Pereira e Marcos Nonato da Fonseca não sobreviveram ao cerco, conhecido mais tarde como Massacre da Mooca.

As evidências, porém, contradizem a versão oficial de morte em tiroteio. Testemunhos e documentos indicam que os militantes foram capturados com vida e levados ao DOI-CODI do II Exército, onde foram torturados e executados. Francisco de Andrade, preso na época no mesmo local, declarou à Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva ter visto, no pátio da OBAN, os três corpos de Iuri, Ana Maria e Marcos, mortos e vestidos. As fichas de identificação de Ana Maria e de Iuri Xavier produzidas no próprio DOI-CODI registram como data de entrada naquele órgão o dia 14 de junho de 1972, corroborando esse testemunho.

A família foi obrigada a receber o caixão lacrado, conforme determinação expressa do delegado Alcides Cintra Bueno Filho do DOPS. O laudo de necrópsia de Ana Maria, assinado pelos médicos Isaac Abramovitc e Abeylardo Orsini ambos posteriormente investigados pelo CRM/SP por suspeita de terem assinado laudos falsos, apresentava contradições relevantes que mais tarde seriam reveladas: o corpo de Ana Maria deu entrada no IML sem roupas, condição incomum para quem teria morrido em tiroteio em via pública; o laudo registrou apenas dois projéteis, enquanto a exumação posterior identificou três; e não fez referência a fraturas e lesões visíveis em fotografias da vítima, sinais de tortura.
Condenada à revelia em 16 de outubro de 1973, mais de um ano após sua morte, a doze anos de prisão, com base no artigo 28 do Decreto-Lei nº 898/1969, Ana Maria Nacinovic nunca chegaria a ser julgada em vida pelo regime que a executou, assim como a maior parte das vítimas da ditadura brasileira .
A mãe de Ana Maria e o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro se recusaram a aceitar a versão oficial sobre sua morte e seguiram investigando e buscando justiça junto ao Estado brasileiro. Em janeiro de 1986, a missa realizada na Igreja Nossa Senhora do Rosário em sua homenagem foi acompanhada de perto e documentada por agentes do Serviço Nacional de Informações, que registrou com suspeição os nomes dos presentes e o histórico do padre que ministrou a cerimônia.
A pedido da mãe de Ana Maria, o sobrenome “Corrêa” não seria usado por familiares e amigos em homenagens póstumas. A permanência compulsória do sobrenome do ex-marido após o fim do traumático relacionamento e o explícito repúdio dela ao sobrenome constitui mais uma forma de violência de gênero.
Em 24 de abril de 1997, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) criada pela Lei 9.140/95, reconhecia oficialmente a responsabilidade do Estado brasileiro por sua morte. A análise pericial dos restos mortais, realizada em janeiro de 1997 pela Equipe Argentina de Antropologia Forense e pelo perito brasileiro Nelson Massini, revelou ainda que o fêmur esquerdo apresentava fratura peri mortem, não mencionada no laudo original entre outras inconsistências.
Seus restos mortais estão sepultados no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro mas o nome de Ana Maria Nacinovic segue vivo. Em sua homenagem, uma creche em São Paulo recebeu seu nome em 1992, e uma rua no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro, também foi batizada em sua memória. Ana Maria Nacinovic dá nome também ao Coletivo de Mulheres da EBA/UFRJ que em 2016 dedicou um número de sua revista acadêmica Desvio à artista e com a temática da arte de resistência produzida de/por/sobre mulheres realizou uma série de encontros no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica no Rio de Janeiro. A Comissão da Memória e Verdade da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro pesquisou e produziu relatório sobre o caso, reunindo registros acadêmicos e artísticos produzidos por ela. A documentação da universidade comprova, por exemplo, que durante sua vida universitária Ana Maria assinava somente Nacinovic.


Em memória de Ana Maria, o poeta Pedro Tierra, dedicou-lhe o poema “Campo de Flores”, abaixo:

A Comissão Nacional da Verdade, em seu Relatório Final publicado em dezembro de 2014, concluiu que Ana Maria foi executada por agentes do Estado em um contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar instaurada em abril de 1964, recomendando a continuidade das investigações e a identificação dos demais responsáveis.
Em solenidade oficial realizada em 8 de dezembro de 2025 no Salão Nobre da Universidade de São Paulo a certidão de óbito retificada de Ana Maria Nacinovic foi uma das 63 certidões entregues às famílias pela CEMDP em consonância com a Resolução nº 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça. Na certidão retificada consta que Ana Maria foi vítima de “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política por regime ditatorial instaurado em 1964”. A entrega das certidões é mais um gesto de reconhecimento do Estado brasileiro e um passo importante para que o crime de desaparecimento forçado possa ser regulamentado como um crime que se perpetua no tempo. Violações graves de direitos humanos são crimes imprescritíveis, inafiançáveis e inanistiáveis. Os documentos públicos auxiliam na comprovação dessa e de muitas outras histórias de vítimas dessas violações.
Ana Maria Nacinovic: presente hoje e sempre!
Fontes:
BRASIL. Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Ana Maria Nacinovic. Brasília, 1997.
BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório Final. (Volume III). Brasília, 2014.
COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”. Relatório e Arquivos. Disponível em: https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/
RIBEIRO, Maria Cláudia Badan. Mulheres na luta armada: protagonismo feminino na ALN (Ação Libertadora Nacional). São Paulo: Alameda, 2020.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. Escola de Belas Artes: Relatório preliminar da Comissão da Memória e Verdade da EBA/UFRJ, 2026. (mimeo.)

