20 de outubro, comemora-se o Dia do Arquivista
Em homenagem aos profissionais da área, a equipe de Comunicação do MAST conversou com Alessandro Wagner Silva, responsável pelo Lapel

Dia 20 de outubro é comemorado o Dia do Arquivista. Nesta data, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), instituição que recebe e disponibiliza para pesquisa 71 acervos, fala sobre a preservação e manutenção destes documentos históricos, sob a guarda da Coordenação de Documentação e Arquivo da História da Ciência (CODAR). A Comunicação do MAST conversou com um dos seus mais antigos servidores: Alessandro Wagner Alves da Silva. Mestre em Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia (PPACT) e responsável pelo Laboratório de Conservação e Restauração de papel (LAPEL), do MAST, Alessandro trabalhou na restauração de documentos históricos como o Catálogo Manuscrito da Biblioteca Real (que pertenceu à Imperatriz Maria Leopoldina) e o Desembargo do Paço, entre outros. Acompanhe na entrevista um pouco do trabalho no LAPEL.
Comunicação - O que é o acervo arquivístico do MAST e onde ele fica exposto?
Alessandro Wagner Alves Silva - O acervo arquivístico do MAST é de responsabilidade do Arquivo de História da Ciência (AHC), um setor da Coordenação de Documentação e Arquivo (CODAR). Seu propósito é reunir, organizar, preservar e proporcionar acesso aos acervos arquivísticos produzidos e recebidos pela instituição no decorrer de suas atividades de pesquisa e divulgação científica. Este setor abrange arquivos pessoais de cientistas, engenheiros, tecnologistas e gestores, cujas trajetórias profissionais estiveram vinculadas ao ensino, institucionalização ou produção de ciência e tecnologia, assim como de instituições científicas brasileiras. A expansão do acervo segue a política de aquisição e descarte, que guia a incorporação de novos arquivos e coleções.
Comunicação - Como é feita a separação destes acervos?
Alessandro Wagner Alves Silva - O AHC conta com espaços distintos para o armazenamento do seu acervo (Quarentena, Arquivo Permanente, Documentos Especiais e Iconografia), salas onde a documentação histórica e científica estão preservadas com temperatura e umidade controladas. Esses novos espaços possuem um sistema de climatização (CLP - Controlador Lógico Programável) e de monitoramento dos ambientes (Conclima). E mais recentemente foi instalado o sistema de detecção e combate de incêndios que é utilizado o gás FM-200 (Heptafluorpropano). Além de todas essas tecnologias para a preservação dos acervos, existe, externamente, um sistema de captação de águas pluviais que foi desenvolvido para evitar o acúmulo de águas subterrâneas e, consequentemente, a infiltração de água por capilaridade nas paredes do prédio Ronaldo Mourão, além de um sistema de controle de cupins de subsolo com o uso de iscas de Hexaflumuron (inseticida).
Comunicação - Quantos arquivos fazem parte do acervo arquivístico do MAST?
Alessandro Wagner Alves Silva - Atualmente, o Arquivo de História da Ciência possui 71 acervos com um total de 5.327 caixas. Existem mais 4 acervos que foram aprovados pela CADE (Comissão de Aquisição e descarte), que ainda não foram recolhidos.
Comunicação - Qual é o setor do MAST responsável pela preservação do acervo?
Alessandro Wagner Alves Silva - É o Laboratório de Conservação e Restauração de Documentos (Lapel). O Lapel tem por finalidade garantir a utilização segura e a conservação adequada dos documentos em suporte papel sob a guarda do MAST. Realizamos o diagnóstico técnico do estado em que se encontram os documentos, executando também as consequentes atividades de higienização, recuperação, acondicionamento e, quando necessário, a restauração desses materiais. O Lapel faz, ainda, estudos técnico-científicos para aperfeiçoar e atualizar os procedimentos aplicados no tratamento dos documentos, sendo responsável também pelas orientações e normativas de armazenagem, exposição, manuseio e segurança tanto dos acervos arquivísticos, quanto dos bibliográficos. Em resumo, o Laboratório faz o diagnóstico e conservação de documentos; orientação e supervisão da conservação de documentos; estudo sobre tintas ferrogálicas em parceria com o Instituto Nacional de Tecnologia; monitoramento da umidade e temperatura nas áreas de guarda de acervos da Coordenação de Documentação e Arquivo; elaboração de diretrizes voltadas para políticas de segurança e preservação direcionadas para Arquivos, Bibliotecas e Museus, em parceria com outras instituições.
Comunicação - Quando um material é doado ao museu, quais são as etapas existentes até que os arquivos estejam prontos para serem guardados pela instituição?
Alessandro Wagner Alves Silva - O primeiro movimento quando um acervo está em processo de doação é o diagnóstico dessa documentação que é realizado pelo LAPEL, em seguida esse material é transferido para uma quarentena (espaço com temperatura e umidade controladas), onde será observado se existe algum tipo de problema como infestação de insetos (brocas, cupins, traças, etc.) ou infectados por fungos. Caso exista alguma contaminação, esses documentos deverão ser tratados para que posteriormente possam ser inseridos nas salas de guarda da documentação permanente. Caso o documento não possua algum tipo de problema, ele é repassado para o arquivo para ser feito a identificação de cada documento e o seu inventário. Por fim, essa documentação é acondicionada em papéis especiais e colocados em caixas de guarda, serviço este realizado pelo LAPEL.
Comunicação - Existe diferença entre o tratamento dado a um documento em papel ou a uma fotografia ou um mapa, por exemplo? Se sim, poderia citar algumas dessas diferenças?
Alessandro Wagner Alves Silva - Os processos de higienização e acondicionamento de um documento em suporte papel, fotografia ou mapa, são semelhantes, a diferença será no tipo de equipamentos, papéis e invólucros que serão utilizados para o seu acondicionamento, sem contar que acervos em suportes papel, fotográficos e mapas ficam separados em salas com temperatura e umidade diferentes.
Comunicação - O que pode danificar os acervos?
Alessandro Wagner Alves Silva - A ação humana é um dos principais agentes de danos ao patrimônio público, aliado a um local e acondicionamento inadequado para a guarda desses materiais. A falta de cuidado e o abandono são os principais fatores para a perda de qualquer tipo de acervo. A preservação do patrimônio cultural é um desafio que temos observado ao longo das últimas décadas. Principalmente pela perda de diversos acervos, ocasionados principalmente por sinistros, como o incêndio que em 2018 destruiu grande parte das coleções do Museu Nacional. Casos de furto de coleções e vandalismo em monumentos históricos no Rio de Janeiro tornam-se mais comuns, sem mencionar os desastres naturais mais recentes causados pelas mudanças climáticas, onde uma enchente, sem precedentes, em 2024, danificou acervos de arquivos, bibliotecas e museus na cidade de Porto Alegre no Rio Grande do Sul.
Comunicação - Como é feita a conservação dos arquivos? De que infraestrutura o museu dispõe para manter os materiais preservados de fatores como umidade, fungos, insetos etc.?
Alessandro Wagner Alves Silva - No MAST temos dois tipos diferente de acervos, o acervo arquivístico (documentos em papel, fotografias, diapositivos, negativos de vidro, acetato, plantas e mapas), e o acervo museológico (Instrumentos científicos que podem ser compostos por metal, madeira, plástico, vidro e material tridimensional). Cada um desses acervos possui uma temperatura e umidade distintas para a sua preservação. A conservação de bens culturais busca prevenir ou retardar a deterioração e o dano dos objetos por meio de ações preventivas e/ou tratamento de sua estrutura, com o objetivo de mantê-los o mais próximo possível de um estado imutável. A conservação pode se manifestar de duas maneiras: por meio de ações preventivas, incluindo o controle climático por condicionamento mecânico do ar, e por meio de cuidados no acondicionamento do acervo.
Comunicação - Como é feita a manutenção da conservação dos arquivos? Existe algum sistema em especial para esse controle?
Alessandro Wagner Alves Silva - Atualmente temos dois sistemas de controle da temperatura e umidade das áreas de Guarda, o sistema da CLP (Controlador Lógico Programável) que define os parâmetros de temperatura, umidade, ponto de orvalho e vazão de ar para cada ambiente de guarda. Cada sala de guarda do museu está equipada com desumidificadores de ar, que também estão interligados ao CLP. Esses dispositivos têm a função de monitorar e controlar a umidade nos ambientes. Quando a umidade atinge níveis fora dos valores pré-estabelecidos, ajustados para cada área específica, os desumidificadores entram em ação para restabelecer o equilíbrio desejado, garantindo que os parâmetros ambientais permaneçam estáveis e eficientes para a preservação dos acervos.
O controle de temperatura e umidade varia conforme o tipo de acervo de cada sala. No Acervo Textual Permanente, por exemplo, a temperatura ideal é mantida anualmente em 22°C, com umidade relativa de 62%, com uma variação de aproximadamente ±1%. O outro sistema foi instalado em 2023 pelo climatologista Dr. Antonio Oliveira, o Conclima. Diferente da CLP, o sistema não faz a gestão do ambiente, mas realiza o diagnóstico e relatórios de temperatura e umidade das áreas de guarda dos acervos arquivísticos, museológicos, nas reservas técnicas do prédio sede do Museu e na Biblioteca Henrique Morize.
Comunicação - O MAST também presta consultoria para outras instituições sobre conservação, certo? Pode citar algumas dessas instituições? Além disso, qual é a principal orientação dada quando se fala em preservação de arquivos?
Alessandro Wagner Alves Silva - Sim, o Museu de Astronomia presta consultoria para outras instituições públicas, tanto para outras unidades do nosso próprio Ministério (MCTI) ou para órgãos de outros Ministérios da União. Além disso, podem ser feitas parcerias e acordos para tratamentos de acervos e visitas técnicas. Já foram realizados acordos de pesquisa com o Museu Imperial de Petrópolis (MIMP) e INT (Instituto Nacional de Tecnologia), para a análise de fungos que foram encontrados na carruagem do Imperador Pedro II, cujo a pesquisa resultou no texto “A Berlinda de Aparato do Imperador D. Pedro II” (veículo mais importante do Segundo Reinado): identificação de fungos em partes selecionadas e sua relação com biodeterioração e aerobiologia. Trabalho esse que foi conduzido por Teresa Lutterbach (INT (aposentada)) e Antonio Augusto da Costa (MAST/LAPEL (exonerado a pedido)). Recentemente foi realizada uma parceria entre o MAST e o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) para o tratamento de conservação, restauração e digitalização de seis plantas do radiotelescópio de Atibaia. O material digitalizado foi repassado para o INPE. Foi feita plotagem dessas plantas, os documentos originais ficaram em comodato no Museu de Astronomia e preservados no acervo Iconográfico do AHC. Esse trabalho de restauração foi feito pelo LAPEL, a digitalização realizada no Arquivo Nacional. A união das imagens digitalizadas ficou sob a responsabilidade da servidora Lucimeri Guimarães, do setor de digitalização do Arquivo de História da Ciência.
Comunicação - Como o acervo arquivístico pode ser consultado pelo público?
Alessandro Wagner Alves Silva - Para que esse acesso seja possível, o consulente deve agendar a pesquisa com o Arquivo de História da Ciência ou se possível se cadastrar e ter acesso na base Zenith, onde boa parte dessa documentação já se encontra digitalizada e o acesso pode ser feito pela internet.







