Memória das Mulheres na Ditadura é tema de palestra no MAST

O segundo Encontro com a História do ano recebeu a professora Carolina Queiroz

Publicado em 09/06/2026 13:33Modificado em 10/06/2026 14:07
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Na foto, Luciana Vieira e Carolina Queiroz
Na foto, Luciana Vieira e Carolina Queiroz

No dia 27 de maio, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) promoveu o segundo Encontro com a História do ano. Na ocasião, o público conheceu o estudo de caso da química e feminista brasileira Lucía Tosi, apresentado pela professora e pesquisadora Carolina Queiroz, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A mediação do encontro foi feita por Luciana Vieira, da Coordenação de História da Ciência e Tecnologia do MAST. Carolina ministrou a palestra “Entre Marias e Clarisses: memória e narrativas sobre mulheres intelectuais durante a ditadura militar”, trazendo para o centro do debate mulheres que tiveram suas vidas pessoais e científicas afetadas pelo regime militar brasileiro. 

"As mulheres cientistas diante do cenário da ditadura elas passam por uma dupla vulnerabilidade. Tanto pela vulnerabilidade de gênero, que era algo que elas já enfrentavam, no processo da atividade acadêmica delas, quanto também por dissidência política. (...) Demissões e perseguições atingiram severamente pesquisadoras que costumavam ocupar posições menos estáveis e eram as primeiras vítimas dos cortes de bolsas. E é interessante pensar como o nome dessas mulheres que foram diretamente atingidas pela Ditadura Militar nem sempre aparecem nos documentos oficiais", afirmou Carolina, logo no início de sua fala. 

A pesquisadora, que é química e doutora em Filosofia e História das Ciências pela UFRB, trouxe dados da Comissão Nacional da Verdade de 2014, que apontam que mais de mil docentes e pesquisadores foram afastados de suas funções por motivos políticos à época da ditadura militar no Brasil. O que repercutiu diretamente na produção científica brasileira, na cooperação internacional e na formação de quadros acadêmicos, com atrasos em áreas estratégicas, como as ciências naturais, humanas e aplicadas. 

"A ditadura brasileira, ela afetou profundamente o sistema universitário. Houve práticas de vigilância, censura, cassação de professores, intervenções em departamentos, cortes de bolsas de pesquisa, criminalização de atividades estudantis e sindicais. Já temos uma literatura ampla que vai analisar esses casos dentro de algumas instituições e como essas instituições são afetadas pela repressão”, lembrou Carolina. 

E as mulheres nessa história?

Ao abordar o exílio das cientistas, Carolina refletiu sobre as lacunas historiográficas das produções dessas profissionais, questionando suas origens. Nesse sentido, a professora buscou traçar o percurso de Lucía Tosi durante o exílio. Explorando, principalmente, seu período na França, com base em um levantamento da memória da cientista por meio da história oral na construção de narrativas, Carolina tentou não só preencher uma lacuna na história da ciência brasileira, como buscou entender quem foi a cientista e a pessoa Lucía Tosi, exilada junto de seu companheiro, o economista Celso Furtado, em razão da ditadura. Para a pesquisadora, entender e recuperar a memória de mulheres como Lucía, passa, muitas vezes, por questionar metodologias de pesquisa tidas como consagradas. 

"Existe a necessidade de se pensar moldes que academicamente foram colocados, foram impostos, por uma historiografia muito centrada nesse objeto escrito, o que vale inclusive não só para historiar mulheres, mas para escrever a história de qualquer sujeito. Mas no caso das mulheres é repensar de fato o que a gente vai ter como proposta, o que a gente vai examinar para construir essa história”, concluiu Carolina. 

A íntegra da palestra está disponível no Youtube do MAST.

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