MAST na 78ª Reunião da SBPC
Lançamento de minidoc, mesa-redonda e viagem astronômica

No segundo dia da 78ª reunião SBPC, realizada este ano na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) levou entretenimento, cultura e educação científica ao público. No estande do museu, os presentes encontraram a exposição "O Céu, a Terra e os Instrumentos Científicos: Universo em Perspectiva". Houve também a mesa-redonda com o tema "Museus, territórios, e culturas em disputa", com a coordenação de Priscila Faulhaber, e o lançamento de um minidocumentário que resgatou a trajetória do médico, nutrólogo, geógrafo e cientista social, Josué de Castro. A 78ª Reunião da SBPC vai até o dia 1º de agosto.
Josué de Castro
Estiveram presentes ao lançamento do minidocumentário, realizado no auditório da ExpoT&C, o diretor do MAST, Marcio Rangel, o padre Júlio Lancellotti, o neto do homenageado, Ricardo Castro, e a produtora e irmã do músico Chico Science, Goretti França, e ainda, de forma virtual, o pró-reitor da UFRJ, Fernando Peregrino.

O filme introduziu o tema "Fome" num encontro de cientistas, pesquisadores e inovações tecnológicas. O diretor Marcio Rangel explicou a razão: "Ciência apartada da nossa realidade social é uma ciência sem motivo".
O padre Júlio Lancellotti, que tem forte presença social em São Paulo, onde distribui alimentos à população de rua, destacou que os pesquisadores precisam se preparar para a chegada do El Niño. O fenômeno climático, disse ele, pode trazer graves problemas principalmente quanto à qualidade da água:
- Nas grandes cidades não há bebedouros públicos. Como os mais pobres vão suportar o aumento do calor se eles não têm acesso a um alimento ainda mais imprescindível que a comida? Sem água não se vive três dias - lembrou.

Lancellotti lembrou que nem mesmo as igrejas disponibilizam água ou locais climatizados para garantir a sobrevivência dos mais vulneráveis:
- Escolas, universidades, igrejas, não têm lugares adequados para abrigar aqueles que não dispõem de meios de sobreviver a esta tragédia ambiental que se anuncia, lembrou o padre. E destacou:
- Sem água não há vida!
O diretor do MAST, Marcio Rangel, lembrou que há unidades de pesquisas se debruçando sobre o drama da seca, mas os recursos são rotineiramente retirados do orçamento dos órgãos públicos.
Sobre o minidocumentário, Marcio Rangel lembrou que ele atende a uma função institucional do MAST, de resgatar e preservar o trabalho de cientistas esquecidos pela história: "Conexão Memória é um projeto que instituímos em 2024 e que já homenageou, entre outros, a primeira engenheira preta do Brasil, Enedina Alves Marques, e o intelectual negro Pretextato dos Passos Silva, que criou uma escola para meninos pretos em pleno Brasil colonial", contou Marcio.

O diretor do MAST acrescentou não haver, ainda, entre os 80 acervos preservados pelo MAST, nenhum relacionado a um cientista preto: "Mas estamos na busca", disse.
Fernando Peregrino, que participou em vídeo do lançamento, disse estar alinhado a economistas de todo o mundo na defesa da taxação de grandes fortunas. Desta forma, acredita, o dinheiro hoje concentrado nas mãos de poucos "trilionários" poderá aplacar a fome de 1 bilhão de famintos em todo o mundo - segundo dados da ONU.
Goretti França, irmã do cantor pernambucano Chico Science, morto há 30 anos, lembrou que o responsável pelo movimento" Manguebeat" nos anos 90 conheceu, já adulto, o trabalho de Josué de Castro. E, a partir daí, apaixonado pela causa, fez músicas e shows para manter viva a lembrança do geógrafo. Pernambucana como o homenageado, Goretti acrescentou: "viemos dos mesmos manguezais".
Indicado por duas vezes ao prêmio Nobel, Josué de Castro foi banido do país e exilado durante a Ditadura Civil-Militar de 1964 no Ato Institucional 01 (AI 1). Ao seu lado estavam outros importantes nomes do campo progressista como João Goulart, Brizola, Celso Furtado, Rubem Paiva e Darcy Ribeiro. Graças à sua atuação na ONU, foi criada a Agência de Combate à Fome das Nações Unidas, a FAO.
Josué morreu no exílio em 1973.
Assista abaixo ao minidocumentário completo de Josué de Castro
Ricardo Castro, neto de Josué, escreveu um texto sobre o avô após a exibição do mini documentário na SBPC.
Republicamos abaixo o texto:
Josué de Castro não morreu: a emoção de manter acesa uma chama de esperança
Por Ricardo Castro
"Nos últimos meses, tenho vivido a alegria e a responsabilidade de aproximar o pensamento de meu avô das novas gerações, das instituições científicas e dos desafios tecnológicos do nosso tempo. Há heranças que não cabem em um sobrenome. Elas se transformam em responsabilidade, compromisso e, sobretudo, em uma convocação.
Nos últimos meses, tenho experimentado uma emoção difícil de traduzir em palavras: a de participar, de maneira cada vez mais próxima, do esforço para levar o pensamento e a obra de meu avô, Josué de Castro, ao maior número possível de pessoas.
Não se trata apenas de preservar a memória de alguém que pertence à história de minha família. Trata-se de contribuir para que um dos mais importantes intelectuais brasileiros do século XX volte a ocupar o lugar que merece no debate público, nas universidades, nas políticas sociais e, especialmente, na formação das novas gerações.
Em um período de aproximadamente três meses, integrei-me ao Instituto Fome Zero, a convite de José Graziano da Silva; aproximei-me das extraordinárias gestoras do Instituto de Nutrição Josué de Castro, da UFRJ; e tive a honra de conversar com a direção da Fundação Joaquim Nabuco sobre caminhos para ampliar o acesso ao vasto acervo deixado por meu avô, composto por dezenas de milhares de documentos, fotografias, manuscritos, correspondências e outros registros.

Digitalizar, organizar e tornar esse patrimônio acessível não significa apenas conservar documentos antigos. Significa permitir que estudantes, pesquisadores, professores e cidadãos de diferentes lugares possam reencontrar idéias que continuam profundamente atuais. A própria Fundação Joaquim Nabuco vem desenvolvendo iniciativas de preservação e digitalização de seus acervos históricos, entendendo o acesso público como parte essencial da proteção da memória brasileira. Mas uma das maiores alegrias desse percurso recente foi receber o acolhimento das ciências exatas e tecnológicas.
A participação na exibição do minidocumentário sobre Josué de Castro durante a 78ª Reunião Anual da SBPC, em um evento promovido pelo MAST, teve para mim um significado muito especial. Estar próximo de cientistas, pesquisadores, educadores e pessoas que admiro profundamente renovou minha esperança.
Mais do que isso, o encontro mostrou que uma parte importante do ecossistema científico e tecnológico começa a compreender que não podemos nos render aos determinismos tecnológicos. A tecnologia não é um destino inevitável, nem possui valor moral por si mesma. Seu sentido depende das escolhas humanas, políticas e sociais que orientam sua criação e sua utilização. Não se trata de opor tecnologia e humanismo. Ao contrário: trata-se de colocar o humanismo no centro do desenvolvimento tecnológico.
Precisamos utilizar a ciência, a inteligência artificial, a biotecnologia, os sistemas de informação, a logística e todas as possibilidades da inovação para ampliar a produção sustentável, reduzir desperdícios e fazer com que alimentos saudáveis cheguem à maior parte da população. A tecnologia não pode servir prioritariamente à expansão de cadeias industriais de produtos ultraprocessados. Ela precisa contribuir para combater a fome, fortalecer a agricultura familiar, melhorar a alimentação e proteger a dignidade humana. Esse diálogo entre ciência, tecnologia e humanismo está profundamente ligado ao pensamento de Josué de Castro.
Meu avô foi o intelectual pernambucano que conquistou o mundo ao demonstrar que a fome não era uma fatalidade natural. Ela não decorria simplesmente da incapacidade de produzir alimentos suficientes para uma população crescente. Era, fundamentalmente, consequência da pobreza, da desigualdade, da dificuldade de acesso aos alimentos e de estruturas políticas e econômicas que permitiam a concentração de recursos nas mãos de poucos. A FAO reconhece justamente essa como uma de suas contribuições centrais: demonstrar que a fome era produzida por decisões humanas e sociais, e não pela natureza.
Josué foi médico, nutrólogo, geógrafo humano, escritor, professor, diplomata, deputado federal, ecologista e ativista internacional contra a fome. Sua trajetória recusava as fronteiras rígidas entre as áreas do conhecimento porque compreendia que a fome também não respeitava essas fronteiras. Ela era, simultaneamente, um problema médico, econômico, geográfico, político, ambiental, social e moral.
Foi presidente independente do Conselho da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, entre 1952 e 1956, e posteriormente representou o Brasil junto aos organismos internacionais das Nações Unidas em Genebra.
Recebeu importantes reconhecimentos internacionais, entre eles o Prêmio Internacional da Paz, concedido pelo Conselho Mundial da Paz, e a distinção de Oficial da Legião de Honra da França. O arquivo oficial do Nobel registra reiteradas indicações de Josué de Castro ao Prêmio Nobel da Paz, apresentadas em diferentes anos e por diferentes personalidades internacionais.
Entretanto, os cargos, as homenagens e as distinções nunca foram mais importantes para ele do que o combate à fome. Josué acreditava que nenhuma cadeira institucional poderia ser maior do que a causa humana que justificava sua ocupação. É essa dimensão de sua vida que mais me comove.
Vivemos um período no qual percebo uma erosão preocupante dos compromissos democráticos e sociais que, durante décadas, buscaram equilibrar desenvolvimento econômico, direitos e proteção social. Em diferentes partes do mundo, vemos a concentração crescente de riquezas, o enfraquecimento das instituições públicas e a tentativa de transformar desigualdades profundas em fatos inevitáveis. Não são inevitáveis!
Eventos como o realizado no MAST e na SBPC fazem com que voltemos a acreditar na capacidade da ciência de construir pontes. Eles nos lembram que pesquisadores das ciências humanas, biológicas e exatas podem trabalhar juntos, desde que exista uma pergunta comum: a serviço de quem colocaremos o conhecimento que produzimos?
O legado de Josué nos ensina que nenhuma inovação poderá ser considerada verdadeiramente avançada enquanto milhões de pessoas continuarem sem acesso regular a uma alimentação adequada.
Também me emociona perceber como as idéias que ele defendeu reapareceram, décadas depois, em políticas públicas concretas. O Programa Fome Zero, concebido e coordenado inicialmente por José Graziano da Silva, combinou ações emergenciais com políticas de renda, fortalecimento da agricultura familiar, participação social e segurança alimentar. A experiência brasileira tornou-se referência internacional e contribuiu para iniciativas de cooperação Sul-Sul em países da América Latina, do Caribe e da África.
Isso significa que Josué de Castro não morreu.
Seu pensamento permaneceu vivo nas políticas públicas, nas universidades, nos pesquisadores, nas instituições comprometidas com o direito à alimentação e em cada pessoa que se recusa a aceitar a fome como normal. A ditadura militar cassou seus direitos políticos, retirou-o da representação diplomática brasileira e o obrigou a viver no exílio. Tentou afastá-lo do país e silenciar sua presença. Mas não conseguiu apagar suas idéias. Hoje, como seu neto, sinto orgulho, emoção e uma enorme responsabilidade ao participar desse movimento de reencontro.
Não pretendo falar em nome de Josué, nem transformar seu pensamento em uma peça imóvel de museu. Quero contribuir para que ele seja lido, debatido, questionado e atualizado diante dos desafios do século XXI.
Caso o pensamento do vovô possa servir como uma chama de esperança para os jovens, para os cientistas, para os formuladores de políticas públicas e para todos aqueles que ainda acreditam na possibilidade de uma sociedade menos desigual, já me sentirei profundamente feliz por participar deste momento. Porque recordar Josué de Castro não é apenas olhar para o passado.
É perguntar, no presente, que futuro desejamos construir.
Meu especial agradecimento ao Pró Reitor da UFRJ Fernando Peregrino, ao diretor do MAST Marcio Rangel, ao estimulo ativista e realista do Padre Julio Lancellotti ao trazer a questão hídrica emergente que está chegando e a Goretti França por produzir um filme tão delicado com a pitada necessária deixada pelas palavras de Chico Science".
