Academia, Efeito Tesoura, Maternidade e novos desafios
Neste 8 de julho, Dia Nacional da Ciência e da(o) Pesquisadora(o) Científica(o), relembramos o papel das mulheres na ciência

A entrada da mulher na cena científica, que no Brasil remete ao século passado com os pioneirismos de Eulália, Alice, Enedina, Maria Laura, Nise e Gioconda, entre outras, segue enfrentando desafios: elas são 33% dos pesquisadores no século XXI, mas a maioria ainda abandona a atividade por absoluta incompatibilidade entre vida pessoal, maternal, conjugal e profissional.
Enfrentamento e superação, códigos que nos remetem a um passado em que precisaram vencer o machismo e a misoginia, são obstáculos cristalizados “me senti culpada ao engravidar!”, diz uma cientista.
A barreira ressurge em Dèjá vu ao longo de semestres, anos e séculos de Academia. A Comunicação do MAST, neste Dia Nacional da Ciência e da(o) Pesquisadora(o) Científica(o), vai ouvir a voz da pesquisadora Fernanda Staniscuaski. Bióloga e professora, há dez anos Fernanda ajudou a fundar a Parent In Sciense. A entidade, agraciada com o Prêmio Nature para Mulheres Inspiradoras na Ciência (Nature Inspiring Women in Science Award) de 2021, ajuda a pensar e consolidar a trajetória de mulheres no ambiente científico. Mãe de três filhos, a gaúcha Fernanda Straniscuaski sabe de cor o que a maioria dos homens ignora: na academia, muitas vezes a maternidade tem servido de bússola não para orientar, mas para desgovernar sonhos, histórias e projetos científicos.
Comunicação do MAST - Trilhar o caminho acadêmico, científico, é um projeto que exige anos de preparação e estudo. Quando você optou por ele?
Fernanda Staniscuaski - Desde a adolescência, eu já sabia que queria ser cientista. Não lembro de uma cena única ou de uma pessoa específica que tenha definido isso para mim, mas lembro muito bem do encantamento que eu tinha pela ciência. Eu estava no ensino médio quando foi anunciada a clonagem da ovelha Dolly, nos anos 1990, e aquilo me marcou muito. Eu comprava livros sobre o assunto, guardava recortes de jornais e revistas sobre descobertas científicas e tinha fascínio por genética. Depois, durante a graduação em Ciências Biológicas, fui encontrando meu caminho dentro da universidade e da pesquisa. Fiz doutorado, pós-doutorado e me tornei professora da UFRGS. Minha formação é na área de biologia molecular e biotecnologia, mas a maternidade acabou me levando a olhar também para a própria ciência como objeto de pesquisa. Foi a partir da minha experiência como mãe cientista que surgiu o Parent in Science.
Comunicação do MAST - Por que unir maternidade e trabalho científico tem se revelado tão difícil?
Fernanda Staniscuaski - O conflito entre maternidade e carreira científica não é “natural”. Ele é produzido por estruturas institucionais que ainda tratam o cuidado como algo externo à vida acadêmica. A carreira na academia e na ciência foi organizada em torno de um modelo de trabalhador sem responsabilidades de cuidado. A carreira científica exige disponibilidade constante, mobilidade, presença em eventos, prazos rígidos, competição por financiamento e uma ideia muito forte de produtividade linear. A maternidade rompe essa linearidade. O problema central não é a existência dos filhos. O problema é que as instituições seguem funcionando como se o cuidado não existisse. A criança adoece, a escola fecha, a creche não dá conta, a licença termina antes de a rotina estar minimamente reorganizada. Mesmo assim, a avaliação do currículo continua comparando trajetórias muito diferentes como se elas partissem das mesmas condições.
Comunicação do MAST - Ouvi relatos de mulheres nas academias que soaram traumatizantes por serem discriminatórios e impostos por outra mulher. A Sororidade é elemento raro no mundo científico?
Fernanda Staniscuaski - Mulheres também reproduzem estruturas discriminatórias. Isso acontece na ciência, como acontece em outros espaços de trabalho. Mas reduzir o problema à falta de sororidade pode desviar a atenção do ponto principal, que é a forma como as instituições foram construídas. A carreira acadêmica é altamente competitiva. Há poucos recursos, poucas vagas, muita pressão por produtividade e uma cultura de avaliação que premia quem consegue funcionar como se não tivesse corpo, família ou responsabilidades fora do trabalho. Nesse ambiente, muitas mulheres aprendem que, para sobreviver, precisam se adaptar às regras existentes. Algumas passam a cobrar das outras a mesma adaptação. Isso não justifica comportamentos discriminatórios, mas ajuda a entender que o problema não se resolve apenas pedindo mais empatia entre mulheres. Precisamos mudar critérios, processos de avaliação, formas de distribuição de poder e políticas institucionais. A solidariedade importa, mas ela não substitui estrutura.
Comunicação do MAST - Os assédios estão presentes nas relações de trabalho e não são uma particularidade do Brasil. Eles são de ordem moral, sexual, profissional. Você conhece ou experimentou casos nestes campos? Poderia narrar?
Fernanda Staniscuaski - Conheço muitos relatos, especialmente no contexto acadêmico. O assédio moral e o assédio profissional aparecem de várias formas. Às vezes é uma desqualificação explícita. Às vezes é a exclusão de oportunidades. Às vezes é a cobrança de disponibilidade absoluta, mesmo quando a pessoa está gestante, puérpera, cuidando de uma criança pequena ou tentando permanecer na universidade em condições muito adversas. No caso da maternidade, há também formas específicas de violência institucional. Uma pesquisadora deixa de ser chamada para projetos porque “agora tem filhos”. Uma estudante é tratada como menos comprometida porque engravidou. Uma docente volta da licença maternidade e encontra seu laboratório, suas orientações ou suas possibilidades de financiamento fragilizadas. Muitas vezes isso não aparece como assédio reconhecido pelas pessoas, mas produz efeitos muito concretos na carreira. O que o Parent in Science tem feito é transformar esses relatos em evidência. Quando muitas mulheres contam histórias parecidas, em instituições diferentes e em áreas diferentes, deixa de ser uma questão individual. Passa a ser um padrão.
Comunicação do MAST - A maternidade naturalmente exige a figura paterna? Sabemos que, na divisão de tarefas familiares, a parte mais vulnerável é a da mulher. Você enxerga no horizonte uma maneira de contemplar os dois papéis e equilibrar estas responsabilidades além de casa, mas no trabalho também?
Fernanda Staniscuaski - Existem muitas configurações familiares. Há mães solo, famílias homoafetivas, redes de cuidado formadas por avós, tias, amigas e outras pessoas. Mas, quando há um pai, é fundamental que ele seja co-responsável pelo cuidado. O cuidado ainda é tratado como responsabilidade feminina. Isso aparece dentro das casas e também nas instituições. As políticas precisam reconhecer a parentalidade de forma mais ampla, mas sem apagar a desigualdade concreta vivida pelas mães. Licenças parentais mais equilibradas, possibilidade de flexibilização de prazos, creches, apoio à permanência estudantil, critérios de avaliação que considerem períodos de cuidado e mudança na cultura institucional são medidas importantes.
Comunicação do MAST - Efeito Tesoura e Efeito Matilda. Fale sobre eles e cite exemplos.
Fernanda Staniscuaski - O efeito tesoura descreve a redução progressiva da presença de mulheres à medida que a carreira científica avança. Em muitas áreas, as mulheres estão presentes em grande número na graduação e na pós-graduação, mas essa presença diminui nos cargos mais altos, nas posições de liderança, nas bolsas de maior prestígio, nas academias científicas e nos espaços de decisão. A imagem da tesoura vem justamente desse cruzamento entre trajetórias. A participação das mulheres cai ao longo da carreira enquanto a dos homens aumenta. Esse processo não reflete capacidade ou comprometimento. Ele está relacionado a estereótipos de gênero, assédio, menor acesso a redes de poder, divisão desigual do cuidado e maternidade. A maternidade não explica tudo, mas pesa muito. Se uma mulher tem queda de produção após a chegada dos filhos, perde oportunidades, reduz viagens, assume mais cuidado cotidiano e passa a ter menos tempo para escrever artigos, projetos e relatórios, ela começa a competir em desvantagem em sistemas que avaliam produtividade sem considerar contexto.
Comunicação do MAST - Conhecemos casos em que um casal de pesquisadores decide em conjunto que um irá gerar o filho e outro irá à luta para garantir o sustento e o crescimento. Esta equação, quando concebida, e de tão frustrada, ainda pode ser considerada genuína?
Fernanda Staniscuaski - Um casal pode, sim, fazer acordos genuínos sobre cuidado, trabalho e carreira. Mas esses acordos não acontecem no vazio. Eles acontecem dentro de uma sociedade que já atribui às mulheres a maior parte do cuidado e que costuma ler a maternidade como menor disponibilidade profissional. Muitas vezes, aquilo que parece uma escolha privada já vem moldado por desigualdades anteriores. A mulher engravida, amamenta, fica mais tempo afastada, é mais cobrada como cuidadora e passa a ser vista como menos disponível. O homem, em muitos contextos, segue sendo visto como mais comprometido com a carreira ou até como mais responsável depois que se torna pai. Então, eu perguntaria quais alternativas reais estavam disponíveis para aquele casal. Se uma carreira cresce porque a outra foi silenciosamente comprimida, existe uma desigualdade que precisa ser nomeada. Isso não significa negar a agência das famílias, mas reconhecer que escolhas familiares são atravessadas por estruturas sociais e institucionais.
Comunicação do MAST - O que falta para os homens enxergarem este problema? Em geral, quando se depara com esta diferença estrutural, o homem faz cara de espanto. Você acha que falta a mulher gritar mais alto, mais reportagens sobre o tema…
Fernanda Staniscuaski - Eu acho que já houve muito grito. Mulheres falam sobre isso há décadas. O que faltou, durante muito tempo, foi escuta verdadeira, em nível institucional. Também faltavam dados, e foi por isso que o Parent in Science apostou tanto na produção de evidências. Quando uma mulher relata uma dificuldade, muitas vezes isso é tratado como um caso individual. Quando centenas ou milhares de mulheres descrevem padrões semelhantes, em diferentes áreas e instituições, a questão deixa de poder ser ignorada.
Comunicação do MAST - A gente sabe que mulheres pretas, como Enedina Alves Marques (a primeira a cursar engenharia), enfrentaram e ainda enfrentam preconceito racial até os dias de hoje. Se Enedina tivesse sido mãe, ela teria alcançado o sucesso profissional tal e qual alcançou?
Fernanda Staniscuaski - Não há como responder com certeza a uma pergunta sobre uma trajetória histórica específica. Mas a pergunta é importante porque nos obriga a olhar para a ciência de forma interseccional. Uma mulher negra na engenharia, no Brasil do século XX, já enfrentava barreiras enormes de raça, gênero e classe. Se a maternidade estivesse colocada nessa trajetória, provavelmente acrescentaria outra camada de dificuldade. Isso não significa dizer que ela não teria conseguido. Mulheres negras sempre construíram caminhos de excelência em contextos profundamente adversos, provavelmente pagando um preço pessoal muito alto. Mas seria ingênuo tratar a maternidade como neutra em uma trajetória já atravessada por racismo e sexismo.
Comunicação do MAST - Você acha que os efeitos Tesoura e Matilda mereceriam uma lei que protegesse a mulher ou acredita numa tomada de consciência dos homens?
Fernanda Staniscuaski - No caso da ciência, tomada de consciência é importante, mas tem limites. Desigualdades estruturais não costumam ser resolvidas apenas com boa vontade. Precisamos de políticas institucionais e, em alguns casos, de legislação. A inclusão da licença maternidade no Currículo Lattes, por exemplo, foi uma mudança concreta. Ela permite que períodos de licença sejam visíveis na trajetória acadêmica e ajuda a contextualizar a produção científica. Também tivemos avanços recentes na legislação brasileira para impedir critérios discriminatórios contra estudantes e pesquisadores em razão de gestação, parto, nascimento de filho, adoção ou guarda judicial em processos de seleção e renovação de bolsas. Essas mudanças não resolvem tudo, mas criam parâmetros. A ciência gosta de se apresentar como meritocrática, porém o mérito só pode ser avaliado de forma justa quando as condições de produção também são consideradas. Sem regra, a correção das desigualdades fica dependente da sensibilidade de cada avaliador, de cada edital, de cada instituição. Isso é muito pouco.
Comunicação do MAST - A dor causada a uma mulher que alcança a maternidade, dentro de um ambiente acadêmico, parece virar tatuagem tal a angústia das narradoras. Há remédio?
Fernanda Staniscuaski - Eu entendo a imagem, porque muitos relatos são mesmo marcados por dor, frustração e sensação de injustiça. Mas eu tentaria deslocar um pouco a pergunta. O que muitas mães cientistas vivem não é apenas uma dor individual. É uma experiência produzida por instituições que ainda não reconhecem o cuidado como parte legítima da vida acadêmica. Durante muito tempo, as mulheres foram orientadas a resolver isso sozinhas. Produzir de madrugada, levar filhos para reuniões fora do horário, abrir mão de descanso, aceitar menos oportunidades, aceitar menos reconhecimento. Isso não é solução. É adaptação a um sistema que não oferece suporte suficiente. O caminho passa por medidas concretas. Licença reconhecida, prazos ampliados, editais que considerem maternidade, creches, apoio financeiro para mães estudantes, critérios de avaliação mais justos, acolhimento real no retorno da licença e canais efetivos para enfrentar discriminação. Também há uma dimensão simbólica importante. Muitas mulheres carregam por anos a sensação de que falharam. Quando conseguimos mostrar que essas experiências têm nome, dados e dimensão coletiva, alguma coisa muda. A dor não desaparece automaticamente, mas deixa de ser vivida como culpa individual. Isso já é parte da reparação.