20 de julho: E o homem pisou na lua
Por que feito realizado há 57 anos continua desacreditado?

Em 1969, o homem pisou o solo lunar e de lá retirou material sólido: 382 kg de amostras, incluindo rochas lunares, poeira e amostras de solo. Trouxe tudo para a Terra e até hoje este material é objeto de estudo. Além disso, o trio formado por Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin fez fotografias, vídeos e produziu documentos diversos sobre a experiência, que reuniu mais de 600 profissionais diretamente ligados ao projeto Apolo. Mas, 57 anos depois do marco histórico, resumido na célebre frase de Neil Armstrong - "Este é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade" -, a ciência aeroespacial se vê obrigada a conviver com o negacionismo.

Segundo pesquisa do instituto Datafolha publicada em março último, 33% dos brasileiros não acreditam que o homem de fato tenha estado, pisado e recolhido material lunar. Nossa entrevista, portanto, tem como missão ouvir argumentos que ajudem a reverter o ceticismo pontual dos brasileiros neste tema. Para isso, a Comunicação do MAST conversou com a tecnologista da Agência Espacial Brasileira (AEB), Priscilla Sousa-Silva.
Formada em Física pela Universidade Federal de Pernambuco e Doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia Aeronáutica e Mecânica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Priscilla realizou seu pós-doutorado na Universidade de Barcelona e o estágio de pesquisa na Universidade de Glasglow (Escócia, Reino Unido). É uma entusiasta da presença feminina no mundo das Ciências.
Comunicação do MAST - Qual seu sentimento, como tecnologista da Agência Espacial Brasil (AEB), ao descobrir a existência de tantos céticos no Brasil, conforme revela o Datafolha, no que diz respeito à primeira viagem do homem à lua, um evento que vai completar 57 anos? Estamos falando de 1/3 da população.
Priscilla Sousa-Silva (AEB) - Ao longo da história humana, diversos marcos que romperam paradigmas foram questionados e vistos com desconfiança por parte da população. Isso ocorreu, por exemplo, com os primeiros vôos controlados, que desafiaram a percepção de que o ser humano não seria capaz de voar. O mesmo ocorre com a ida do homem à Lua, mesmo que este tenha sido um dos eventos mais bem documentados da história. Em parte, essas dúvidas podem ser reforçadas pelo distanciamento desse tema do cotidiano das pessoas, o que pode gerar questionamentos e interpretações equivocadas.
Comunicação do MAST - Temas como "Astronomia", "Viagem Espacial", "Galáxia" e "Planetas" estão distantes do cotidiano das pessoas. Isso pode contribuir para o negacionismo em torno deles?
Priscilla Sousa-Silva (AEB) - Embora à primeira vista esses temas possam parecer distantes do cotidiano das pessoas, muitas tecnologias utilizadas no dia a dia, como GPS, comunicações via satélite, previsão do tempo e monitoramento ambiental, dependem de conhecimentos astronômicos e de infraestrutura espacial. Quando essa relação não é percebida pelas pessoas, pode haver espaço para dúvidas e interpretações equivocadas. Justamente por isso, a divulgação científica, o fortalecimento da educação e o diálogo contínuo com a sociedade são fundamentais para ampliar o acesso à informação qualificada e promover a compreensão sobre os avanços da ciência espacial.
Comunicação do MAST - Recentemente, algumas teorias até bizarras, como a Terra Plana, ganharam adesões em alguns setores. Que argumento irrefutável podemos utilizar para reestabelecer a verdade?
Priscilla Sousa-Silva (AEB) - Há muitas evidências científicas, observacionais e tecnológicas que comprovam que a Terra possui forma aproximadamente esférica. Por exemplo, o funcionamento dos satélites e dos serviços possibilitados por eles como o GPS, a televisão e a internet via satélite e a previsão do tempo funcionam com base em modelos que consideram a curvatura do planeta. Além disso, qualquer pessoa pode observar evidências da curvatura do planeta no dia a dia. Entre elas podemos citar o fato de navios desaparecerem gradualmente no horizonte e a diferença de fusos horários entre países. Temos, ainda, as imagens obtidas continuamente por satélites e missões espaciais, produzidas por diferentes nações ao longo de décadas, que confirmam que a Terra não é plana.
Comunicação do MAST - A Missão Artemis, ocorrida no primeiro semestre deste ano, representou a retomada da exploração lunar. Quais poderão ser os próximos passos na pesquisa astronômica?
Priscilla Sousa-Silva (AEB) - A Missão Artemis inaugura uma nova fase da exploração lunar, com foco na presença humana sustentável e na ampliação das capacidades tecnológicas. Os próximos passos da iniciativa incluem o envio de astronautas à superfície da Lua, a implantação de infraestruturas de apoio e o desenvolvimento de sistemas que permitam estadias mais longas. Nesse contexto, destaca-se a importância da cooperação internacional, que é um dos pilares do programa. Iniciativas como os Acordos Artemis reforçam princípios de uso pacífico do espaço, transparência e colaboração entre as nações, ampliando a participação global na exploração lunar. O Brasil integra esse esforço por meio da adesão aos acordos, o que abre oportunidades para cooperação científica, desenvolvimento tecnológico e inserção da indústria nacional em missões de maior complexidade.
Comunicação do MAST - E numa projeção mais avançada: o homem poderá mesmo um dia morar em outro planeta? O que será necessário para alcançarmos este estágio?
Priscilla Sousa-Silva (AEB) - Trata-se de uma possibilidade de longo prazo, ainda em prospecção. Para que o ser humano possa viver em outro planeta, será necessário avançar significativamente em áreas como sistemas de suporte à vida, proteção contra radiação, produção de alimentos, geração de energia e construção de habitats adaptados a ambientes extremos. Missões à Lua e, futuramente, a Marte são etapas fundamentais nesse processo, pois permitem testar tecnologias e compreender melhor os desafios da permanência fora da Terra.
Comunicação do MAST - O Brasil realizou pesquisas científicas levando alimentos, plantas e sementes para o espaço através de um programa que envolve a AEB. Alguma planta deu frutos?
Priscilla Sousa-Silva (AEB) - O Brasil, por meio da Embrapa, com apoio da AEB e em parceria com instituições internacionais, tem conduzido experimentos com culturas como batata-doce e grão-de-bico em voos suborbitais, no âmbito da iniciativa Space Farming Brazil. Até o momento, esses experimentos têm caráter científico e ainda estão em fase de análise, com foco na germinação, crescimento e estabilidade genética das plantas sob microgravidade e radiação. Não se trata, portanto, de produção completa de alimentos com colheita e frutificação em ambiente espacial, mas de etapas iniciais fundamentais para esse objetivo. Os resultados obtidos até aqui indicam que é possível iniciar o desenvolvimento de plantas no ambiente espacial, contribuindo para o avanço do conhecimento necessário à produção de alimentos no espaço. Outras iniciativas internacionais já realizaram o cultivo de espécies como alface, rabanete, mostarda e tomate no espaço, com resultados importantes para a produção de alimentos em missões de longa duração.
Comunicação do MAST - E alguém arriscou comer um vegetal produzido no espaço (risos)?
Priscilla Sousa-Silva (AEB) - Sim, astronautas já consumiram vegetais cultivados na Estação Espacial Internacional. Um dos casos mais conhecidos é o cultivo e consumo de alface, produzido em ambiente controlado a bordo, após testes que confirmaram sua segurança para ingestão.
Comunicação do MAST - O Brasil já lançou satélites e participa de programas aeroespaciais com outras nações. Fale dessas iniciativas, por favor.
Priscilla Sousa-Silva (AEB) - O Brasil tem uma trajetória consistente e relevante no setor espacial, tendo se tornado uma referência na América Latina, neste setor que é reconhecidamente complexo, intensivo em conhecimento e de alto custo, no qual poucos países detêm capacidades completas. Entre os marcos relevantes da nossa história, podemos destacar os satélites da série CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite), fruto de cooperação internacional com a China, que colocaram o país entre aqueles capazes de operar sistemas de sensoriamento remoto em órbita terrestre baixa. Mais recentemente, o Amazônia-1, primeiro satélite totalmente desenvolvido, integrado e testado no Brasil, representa um avanço significativo na capacidade nacional de domínio tecnológico. Cabe destacar também o avanço no desenvolvimento e operação de pequenos satélites, como nanosatélites e cubesats, que têm ampliado a participação de universidades, centros de pesquisa e da indústria nacional no setor espacial, contribuindo para a formação de recursos humanos e o desenvolvimento de soluções inovadoras em menor escala e com maior agilidade. Já no segmento de acesso ao espaço, o Brasil desenvolve e opera veículos suborbitais, como os foguetes de sondagem, capazes de atingir altitudes da ordem de centenas de quilômetros, essenciais para experimentos em microgravidade e desenvolvimento tecnológico. Também não podemos esquecer a participação do astronauta brasileiro Marcos Pontes em missão à Estação Espacial Internacional evidenciou a inserção do país em iniciativas globais.
Comunicação do MAST - Santos Dumont foi um brasileiro que rompeu barreiras e fez o mundo acreditar que voar era possível. Podemos dizer que a popularização da viagem ao espaço, patrocinada por empresas privadas, como a Space X, seja o segundo capítulo desta história?
Priscilla Sousa-Silva (AEB) - De fato, Santos Dumont representa o pioneirismo e a superação de limites tecnológicos que abriram caminho para a aviação moderna. De maneira análoga, o atual cenário da atividade espacial reflete uma nova etapa de desenvolvimento, porém com características próprias. A participação de empresas privadas, tipicamente ocorre em articulação com os Estados e agências espaciais, por meio de parcerias. A exploração espacial é uma atividade muito complexa, custosa e de risco elevado, que demanda não apenas inovação tecnológica, mas também regulação adequada, coordenação internacional e suporte institucional, de modo a assegurar seu uso pacífico e a geração de benefícios para a sociedade. Os primórdios da exploração espacial foram marcados por missões estatais de grande porte. Hoje em dia, o setor vem incorporando novos atores privados, com maior dinamismo, especialmente em áreas como o desenvolvimento de lançadores e a operação de pequenos satélites, ampliando o acesso ao espaço e diversificando suas aplicações. Nesse sentido, vemos uma evolução complementar do modelo anterior, na qual diferentes atores contribuem para o avanço sustentável das atividades espaciais, mantendo o compromisso com o interesse público e o desenvolvimento científico e tecnológico.