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O Dia da Educação e a história de Maria Laura Leite Lopes
No Dia Mundial da Educação*, 28 de abril, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) relembra a trajetória de uma professora que dedicou a vida a transformar a Matemática, disciplina temida por muitos estudantes, numa Ciência acessível a todos. Seu nome? Maria Laura Mouzinho Leite Lopes (1917/2013), a primeira doutora em Matemática da história do país.
A transformação de Maria Laura em uma especialista na disciplina não ocorreu por acaso. O motivo do apego aos números foi explicado pela cientista em entrevista à revista Ciência Hoje **, em 2012. Ela era ainda uma criança e vivia em Timbaúba dos Mocós, na Zona da Mata de Pernambuco, e apresentava dificuldades com números e outros símbolos matemáticos. "Eu não era boa em matemática no primário, errava muito nas contas. Cálculos não eram o meu forte!" lembrou Maria Laura.
Foi aí que entrou em sua vida a figura de um professor que a ajudou a compreender a Matemática como algo divertido e não ameaçador. Seu nome? Luís de Barros Freire. Era, segundo ela, um humanista e também professor de Física. Freire a fez enxergar a Matemática como algo divertido, que podia fazer parte do seu cotidiano. Desta maneira, Maria Laura concebeu uma ideia que a acompanharia por toda a vida: um bom professor de Matemática é um caminho importante para quebrar o estigma de dificuldade que cerca a disciplina. E, desta forma, a menina que não era afeita aos números, em 1949 receberia o título de primeira doutora em Matemática do Brasil.
Mas a chegada ao doutorado não foi um caminho fácil. Ao contrário, a professora deparou-se com barreiras como o machismo e a misoginia até para a aceitação de sua tese de doutorado, sob o título "Espaços Projetivos Reticulado de seus subespaços". Maria Laura foi acusada por um dos professores da banca de plagiar um matemático americano. Isso a obrigou a lutar para provar a legitimidade do trabalho. E conseguiu.
Profissional, lecionou matemática para alunos do Colégio Estadual André Maurois e, como era chefe do Departamento de Matemática da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFI), em 1968 foi incorporada ao recém-criado Instituto de Matemática da UFRJ, como professora-titular.
Exílio
Casada com o físico José Leite Lopes, visto pela ditadura militar como um profissional crítico ao modelo autoritário vigente no país desde 1964, ela passou também a ser vista com desconfiança pelos dirigentes simpatizantes do governo militar. Assim, em dezembro de 1969, com a decretação do Ato Institucional no5 (AI-5), Maria Laura e seu marido foram diretamente informados de que estariam impedidos de lecionar. Quatro meses depois, eles tiveram cassados os direitos legais e foram aposentados compulsoriamente. Em busca de sobrevivência, se exilaram com a filha Angela, ainda adolescente. Mudaram para os Estados Unidos e de lá para Estrasburgo, na França. José tinha promessa de trabalho, mas Maria Laura enfrentaria um longo período sem emprego. Mas algum tempo depois, reconhecida sua capacidade profissional, teve a oportunidade de trabalhar no Instituto de Pesquisa para o Ensino de Matemática (IREM, na sigla em francês), onde aprofundou seu interesse pela educação matemática.
Ao retornar ao Brasil, em 1974, já separada de Leite Lopes, teve dificuldades em conseguir trabalho. “Mas tive a ajuda de muita gente”, disse, na mesma entrevista à Ciência Hoje. Uma amiga conseguiu empregá-la no cargo de coordenadora de matemática de um colégio no bairro das Laranjeiras, experiência que considerou "gratificante por ter permitido observar o aprendizado das crianças desde muito pequenas". Naquela época, reuniu pessoas interessadas no estudo das mudanças pelas quais o ensino da matemática passava e ajudou a fundar, em 1976, o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Matemática (Gepem), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do qual foi presidente por oito anos.
Ainda naquele ano, organizou o 1º Seminário Nacional de Educação Matemática. Como presidente da entidade, idealizou, em convênio com a Universidade Santa Úrsula (USU), o primeiro curso de Pós-graduação Lato Sensu de Educação Matemática do Brasil, que inspiraria, em 1982, a criação do Mestrado em Educação Matemática da mesma Universidade.
Projeto Fundão
Finalmente beneficiada pela Anistia, em 1979 pode retomar seu trabalho. Assim, foi reintegrada ao Instituto de Matemática da UFRJ. Em 1983, junto a profissionais de outras áreas da universidade, criou o Projeto Fundão, com o objetivo de apoiar e melhorar a formação de professores de matemática e ciências dos Ensinos Médio e Fundamental. Serviu de inspiração para o projeto a sua vivência pessoal, ainda na infância em Pernambuco, quando o professor Freire fez nascer seu amor pela disciplina. Focado em reunir professores universitários de diversas disciplinas em prol da melhoria do ensino básico, o Projeto Fundão se mantém até hoje.
Em 2008, por ocasião do 25º aniversário do Projeto Fundão, os amigos homenagearam Maria Laura com uma placa comemorativa, onde constava uma frase do escritor alemão Johann W. Goethe: “Seja qual for o seu sonho, comece. Ousadia tem genialidade, poder e magia”.
Acervo no MAST
O acervo de Maria Laura Mouzinho Leite Lopes está sob a guarda do MAST, onde está disponível para pesquisa. São documentos textuais, iconográficos, correspondências, relatórios, fotografias e materiais sobre a atuação de Maria Laura no ensino e pesquisa da matemática e documentos impressos.
* O Dia Mundial da Educação é comemorado no dia 28 de abril e foi instituído no ano 2000, durante o Fórum Mundial de Educação em Dakar, Senegal. A data reforça o compromisso de mais de 160 países, incluindo o Brasil, com a melhoria do ensino, universalização da educação básica e combate ao analfabetismo.
** Link da reportagem de Maria Laura na Revista Ciência Hoje: https://www.academia.edu/19368044/Uma_realista_esperan%C3%A7osa_Perfil_da_matem%C3%A1tica_Maria_Laura_Leite_Lopes