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As cartas e a Ciência
Na semana em que se comemora o Dia Nacional dos Correios (08/04), resgatamos uma relação antiga e duradoura: o uso de correspondências na Ciência. As cartas começaram a circular no Brasil ainda no século XVII. Na época, as correspondências eram entregues a um portador, que se encarregava de recolher, levar e, muitas vezes, trazer a resposta. Predominavam as comunicações oficiais, entre autoridades e representantes políticos ou comerciais instalados no Brasil ou Portugal. A primeira missiva escrita em Terras Brasileiras, no século anterior, mereceu destaque histórico: Pero Vaz de Caminha, nove dias após a chegada dos portugueses à costa baiana, enviou à Corte Portuguesa, precisamente à Dom Manuel I, suas impressões sobre o território em que acabara de desembarcar. Era o primeiro dia de maio de 1500.
Mas qual teria sido o ano da virada, que tornou a troca de mensagens um serviço de interesse não apenas institucional ou empresarial, mas popular? Em 1805, por um decreto assinado em 8 de abril pelo príncipe regente de Portugal, Dom João Maria de Bragança, em Lisboa, a prática dos Correios ganharia a versão com a qual convivemos pelos próximos séculos.
O que pouca gente sabe é que a mudança exigiu uma reestruturação urbana profunda: foram criados endereços domiciliares onde as ruas ganharam nomes, principalmente de personalidades da Monarquia, e as casas, números. Desta forma, além de facilitar a entrega de cartas, o governo português pôde aumentar o controle sobre números de correspondências, remetentes, destinatários e conteúdo. A atividade de entrega de correspondências era tão valorizada que era dado aos entregadores, mais tarde chamados "carteiros", o direito de andar armados com sabres, facas ou armas de fogo. A popularização permitiu que as cartas ganhassem um caráter mais informal. Toda sorte de conteúdo passou a ser trocado: notícias do cotidiano familiar, manifestações de saudades, avisos fúnebres, interesses comerciais, profissionais e até mensagens de amor ganharam corações - em forma de letra.
No campo das Ciências não são poucas as referências, dentro e fora do Brasil, em que interesses pessoais, institucionais e até de caráter sanitário foram expostos em cartas. O naturalista Charles Darwin ((1809–1882) trocou um sem número de correspondências com seu colega Fritz Muller (1822-1897) enquanto desenvolvia a Teoria da Evolução e Seleção Natural. O brasileiro Carlos Chagas (1879-1934) trocou cartas com seu aluno Oswaldo Cruz (1872–1917), com quem costumava dissertar sobre temas como vacinas e doenças tropicais. Os médicos baianos Artur Neiva (1880-1943) e Belisário Penna (1868-1939) também constavam no rol dos destinatários.
Carta de Lattes
E se as cartas contavam histórias de amor e saúde, ajudavam também na tomada de decisão sobre o destino profissional. Corria o ano de 1979 quando, através de uma carta, uma estudante de Engenharia procurou um dos mais conhecidos cientistas brasileiros, o físico César Lattes (1924-2005). Ela tinha dúvidas sobre que curso fazer já que estava matriculada em Engenharia, mas seu coração pulsava pela Física. Lattes incentivou a então graduanda Maria de Lourdes Alves Borges a mudar de curso. "Eu admirava Lattes e seu conceito da identificação de Méson Pi*. A carta-resposta que ele me enviou foi decisiva", diz a hoje doutora em Física e filósofa da Universidade Federal de Santa Catarina.

- A carta da física Maria de Lourdes Borges, conhecida como Dudi, está depositada no acervo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Ditadura
Correspondências também serviram de apoio emocional e psicológico aos cientistas brasileiros perseguidos pela ditadura militar (1964-1985). Através delas, os perseguidos manifestavam suas dores e a solidão no exílio aos parentes e amigos. Josué de Castro (1908-1973), em carta enviada à família, antecipou a dor da morte: "Não morremos apenas de problemas cardíacos ou renais. O exílio é uma espécie de morte em vida", disse, na missiva à filha, Anna Maria de Castro. Ainda sobre o exílio, o médico e fisiologista Haity Moussatché (1910-1988) escreveu da Venezuela ao físico José Leite Lopes (1918-2006), que estava à época na França com a então esposa, a matemática Maria Laura Leite Lopes (1917-2013) e a filha Angela, ainda criança:
- "Mas vamos trabalhando numa solidão, em casa, que tem algumas vantagens ainda, mas não sei por quanto tempo. […] fico no mais absoluto silêncio limitando-me, às vezes, a tirar fotografias de pássaros que chegam na varanda", escreveu Haity.**
Amor
E para mostrar que no peito de pesquisadores também batem corações apaixonados, a gente lembra que um dos grandes cientistas da história, Albert Einstein (1879-1955), conquistou Mileva Maric (1875-1948), sua primeira esposa, numa troca de cartas enquanto estudavam física juntos. A paixão uniu o casal em meio ao debate sobre teorias, equações e descobertas científicas. "Quão feliz e orgulhoso serei quando nós dois juntos trouxermos nosso trabalho sobre o movimento relativo a um final vitorioso!", disse Einstein, em carta para Mileva, em março de 1901.***
*O méson pi ou píon é uma partícula subatômica hadrônica, composta por um quark e um antiquark, que atua como mediadora da força nuclear forte, mantendo prótons e nêutrons unidos no núcleo atômico. Descoberto em 1947 com participação crucial do físico brasileiro César Lattes, é o méson mais leve, existindo nas formas positiva, negativa e neutra.
** Fonte: Revista Ciência Hoje (link: https://cienciahoje.org.br/artigo/dores-e-solidao-no-exilio-cartas-de-cientistas-perseguidos-pela-ditadura-militar/)
*** Fonte: Livro “Cartas de Amor”, de Jurgen Renn e Robert Schulmann; Editora Papirus, 1992.