A Observação do Céu na História das Grandes Navegações

O dia 22 de abril marca a data ‘oficial’ da chegada dos colonizadores ao nosso atual território, guiados pela estrela Acrux

Publicado em 20/04/2021 14:14Modificado em 31/10/2022 13:10
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Hoje se comemora os 521 anos da chegada de Pedro Álvares Cabral nas terras da América do Sul, dando início a colonização brasileira. O Dr. Vladimir Jearim Peña Suárez , astrofísico, colaborador do MAST e Prof. do Instituto de Física da UFRJ, aproveita esta data para relembrar a relevância das constelações na história das grandes navegações portuguesas, sem esquecer de que, nos territórios conquistados, seus habitantes já observavam as estrelas há séculos.

Fotografia: Daniel Mello, astrônomo do Observatorio do Valongo - UFRJ

A Descoberta do Cruzeiro do Sul Pelas Expedições Portuguesas

O dia 22 de abril de 1.500 é a “data oficial” da chegada dos portugueses ao atual Brasil. Também é o dia em que se inicia um violento período para os moradores ancestrais e o momento estelar da fantasia colonialista portuguesa. O navegador Vasco da Gama tinha contornado a África pela primeira vez para chegar até a Índia (entre 1497 e 1498).

Já o escritor Luís Vaz de Camões publicou em sua obra 'Os Lusíadas’ (1572), trecho onde descreve epicamente esta façanha. Na estrofe 14 do Canto V , o autor refere-se à “ Nova Estrela ” já descoberta:

" Já descoberto tínhamos diante,

Lá no novo Hemisfério, nova estrela,

Não vista de outra gente, que ignorante

Alguns tempos esteve incerta dela.

Vimos a parte menos rutilante,

E, por falta de estrelas, menos bela,

Do Pólo fixo, onde inda se não sabe

Que outra terra comece, ou mar acabe .”
(Os Lusíadas - Luís Vaz de Camões)

Tal estrela era Acrux , localizada no extremo inferior da constelação do Cruzeiro do Sul, cuja descoberta para o “Mundo Europeu” se atribui aos navegantes portugueses. A constelação sempre aponta para o Pólo Sul, o que fez dela uma referência fundamental para as expedições lideradas por navegantes como Bartolomeu Dias e Pedro Álvares Cabral .

O Pólo Sul se encontra a uma distância de, mais ou menos, 4,5 vezes o comprimento da constelação. Diz-se até que ela poderia ser considerada um “bom relógio”, pois completa uma volta ao redor do Pólo em aproximadamente 24 horas. Quando observamos essa região com telescópios, encontramos objetos como o aglomerado estelar aberto NGC 4755, chamado de “Caixinha de Jóias”, localizado a 6.440 anos-luz do Sol e composto por umas 100 estrelas jovens massivas, entre elas uma supergigante vermelha. Outro objeto é a Nebulosa do Saco de Carvão, uma nuvem de poeira que bloqueia a visibilidade de estrelas brilhantes da Via Lactea.

Entretanto, os objetos no Céu do Sul sempre foram conhecidos pelos habitantes ancestrais do hemisfério. Os povos da Austrália identificavam o Cruzeiro com a figura da Raia Marinha. No Império Inca era conhecida como a “ Chakana ”, um objeto mítico.

Hoje, queremos lembrar a relevância desta constelação na história das grandes navegações portuguesas, sem esquecer de que nos territórios em questão seus habitantes já observavam e nomeavam essas estrelas havia séculos.

Vladimir Jearim Peña Suárez

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