Educação Financeira e Proteção da Pessoa Idosa
Por Maria Adriana Campêlo
O envelhecimento populacional tem sido um dos fenômenos demográficos mais expressivos da atualidade, tanto no cenário global quanto no contexto brasileiro. No Brasil, dados revelam que entre 2012 e 2024, a população com 60 anos ou mais cresceu de maneira expressiva, passando de 22 milhões para 34,1 milhões de pessoas, enquanto os dados do Censo 2022 também apontaram aumento do índice de envelhecimento da população¹. Vivemos mais, permanecemos economicamente ativos por mais tempo²e acompanhamos um mundo que tem se modernizado e se transformado rapidamente, trazendo avanços e oportunidades, mas também novos riscos e desafios. Nesse cenário, discutir educação financeira para pessoas idosas, especialmente investidores, implica compreender que o tema ultrapassa a dimensão financeira, envolvendo também aspectos ligados à inclusão e à proteção social para a preservação da autonomia.
De acordo com relatório Vulnerabilidade de Investidores Seniores da Organização Internacional das Comissões de Valores Mobiliários (IOSCO)3, o envelhecimento populacional vem acompanhado de desafios importantes para a proteção do investidor, especialmente porque alterações cognitivas, isolamento social e baixo nível de letramento financeiro podem aumentar a vulnerabilidade diante de golpes e decisões financeiras inadequadas.
No entanto, é importante evitar interpretações simplistas. Vulnerabilidade não significa incapacidade. Envelhecer, enquanto processo natural, não elimina autonomia, experiência ou capacidade de decisão4. Pelo contrário: muitos investidores idosos possuem repertório acumulado e experiência prática. O ponto central não está na idade em si, mas nas condições em que as decisões são tomadas e na ausência de atenção às especificidades de determinados grupos, como as pessoas idosas.
Assim como ocorre em outros contextos de consumo, decisões financeiras não são tomadas de forma puramente racional e isolada. Elas são influenciadas por fatores sociais, emocionais, cognitivos e ambientais. E, quando falamos de pessoas idosas, essas influências podem se intensificar em contextos de solidão, de declínio cognitivo, excesso de informação, pressão comercial ou dificuldade de adaptação a novas tecnologias.
O relatório da IOSCO destaca, por exemplo, que investidores idosos estão mais expostos a investimentos inadequados (Suitability), fraudes financeiras, produtos complexos e práticas comerciais enganosas. Além disso, esse ponto é especialmente relevante em um contexto de crescente digitalização da vida cotidiana. Hoje, decisões financeiras frequentemente ocorrem por meio de aplicativos e plataformas online, sendo influenciadas por interações virtuais e redes sociais, ambientes que exigem dos usuários familiaridade tecnológica, capacidade de identificar riscos e análise crítica das informações disponíveis. Para muitas pessoas idosas, essa transformação ocorreu de forma acelerada. Mas, o problema não é somente aprender a utilizar novas ferramentas, serviços e produtos financeiros digitais, muitas vezes desenhados para um perfil médio de usuário jovem e digitalmente fluente5, mas também compreender dinâmicas digitais marcadas por publicidade disfarçada, linguagem técnica, pressão emocional e excesso de estímulos.
No que se refere diretamente a golpes e fraudes financeiras, a modernização também transformou a forma como essas práticas se apresentam. Atualmente, elas raramente surgem como ameaças evidentes, assumindo frequentemente a aparência de oportunidade, cuidado ou urgência. Promessas de rentabilidade elevada, investimentos exclusivos, pressão para decisões rápidas e discursos excessivamente otimistas ou envolventes permanecem entre as principais estratégias de manipulação. Além disso, tais práticas frequentemente exploram emoções e necessidades humanas básicas, como confiança, medo e pertencimento social6.
Entre pessoas idosas, essas estratégias podem adquirir contornos ainda mais sensíveis em razão de fatores sociais e emocionais frequentemente presentes no envelhecimento, como isolamento social, solidão, busca por interação social e necessidade de vínculos de confiança7. Em muitos casos, golpistas constroem aproximações graduais por meio de conversas constantes, demonstrações aparentes de cuidado e estabelecimento de vínculos afetivos ou de confiança antes mesmo de introduzir propostas financeiras. O relatório da IOSCO aponta, inclusive, que fraudadores frequentemente tentam isolar potenciais vítimas de familiares, amigos ou profissionais confiáveis para dificultar questionamentos e aumentar a influência sobre a decisão financeira.
Assim, a vulnerabilidade não pode ser atribuída exclusivamente à idade, mas à combinação entre dinâmicas de manipulação emocional, ambientes digitais persuasivos e contextos sociais que ampliam a exposição a práticas abusivas. Esse cenário evidencia que a proteção financeira da pessoa idosa não depende exclusivamente do conhecimento técnico individual, mas da articulação entre educação financeira, redes de apoio, comunicação acessível, transparência informacional, serviços financeiros adaptados e mecanismos institucionais de proteção que favoreçam decisões mais conscientes e seguras. Essa articulação é fundamental para reduzir situações de vulnerabilidade para este público.
Algumas iniciativas internacionais já caminham nessa direção. O Japão, por exemplo, estabeleceu que corretoras devem aguardar ao menos um dia entre a oferta e a aceitação de ordens para investidores idosos, e exige que alguém diferente do vendedor confirme a operação com o cliente, criando espaço para reflexão e reduzindo decisões tomadas sob pressão. Hong Kong implementou medidas semelhantes ao adotar períodos de reflexão antes da realização de investimentos por pessoas idosas2. No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vem empreendendo esforços para identificar fatores de vulnerabilidade dos investidores idosos no mercado de capitais e promover iniciativas educacionais voltadas a esse público.
Todas essas ações reforçam que a proteção financeira não deve ser entendida como limitação ou interdição da autonomia da pessoa idosa. Pelo contrário: proteger significa orientar, criar condições para que decisões sejam tomadas com informação adequada, tempo, compreensão e liberdade. Pois, existe uma diferença importante entre decidir por alguém e criar condições para que alguém possa decidir com autonomia.
A educação financeira, portanto, assume papel central não apenas na transmissão de conhecimentos, mas também no desenvolvimento do pensamento crítico, na identificação de riscos e no fortalecimento da capacidade decisória ao longo da vida. Mais do que ensinar produtos ou conceitos financeiros, trata-se de promover condições para que as pessoas idosas possam exercer sua autonomia com informação, compreensão e segurança. Assim, a educação financeira contextualizada no processo de envelhecimento deve ser compreendida como parte de uma estratégia mais ampla que abrange a proteção, a inclusão e a preservação da autonomia da pessoa idosa.
REFERÊNCIAS
1. Dias, R. (2026). O envelhecimento da população e o despreparo das cidades. Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz - CEE Fiocruz. Disponível em: https://cee.fiocruz.br/o-envelhecimento-da-populacao-e-o-despreparo-das-cidades/
2. Saraiva, A. G. (2025). IBGE mostra que um a cada quatro idosos trabalhava em 2024. Agência de Notícias IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45343-ibge-mostra-que-um-a-cada-quatro-idosos-trabalhava-em-2024
3. Organização Internacional Das Comissões De Valores Mobiliários - IOSCO. (2018). Vulnerabilidade de Investidores Seniores. Tradução da Comissão de Valores Mobiliários. Disponível em: https://www.gov.br/cvm/pt-br/assuntos/noticias/anexos/2018/20180517_C8_Report_on_Senior_Investor_Vulnerability__versao_Portugues.pdf-af0893b3a49149c594cf467be2f6630e
4. Coimbra, A. M. C. (Org.) Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. / organizado por Angela Maria Castilho Coimbra e Ana Paula Abreu Borges. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: EAD/ENSP, 2014. Disponível em: https://materiais.ead.fiocruz.br/qualificacao-profissional/envelhecimento-e-saude-da-pessoa-idosa/materiais/livro_saude_idoso.pdf
5. Financial Conduct Authority - FCA. (2017). Population ageing and financial services. Occasional Paper No. 31. Disponível em: https://chatgpt.com/c/6a05dc69-2ee4-83e9-aba2-a12163570d12
6. Souza, R. & Campelo, M. A. (2025). A psicologia por trás dos golpes: como vieses comportamentais alimentam a engenharia social. Portal do Investidor. Comissão de Valores Mobiliários. Disponível em: https://www.gov.br/investidor/pt-br/penso-logo-invisto/1-4-a-psicologia-por-tras-dos-golpes-como-vieses-comportamentais-alimentam-a-engenharia-social
7. Shao, J., Zhang, Q., Ren, Y., Li, X., & Lin, T. (2019). Why are older adults victims of fraud? Current knowledge and prospects regarding older adults’ vulnerability to fraud. Journal of Elder Abuse & Neglect, 31(3), 225–243. https://doi.org/10.1080/08946566.2019.1625842