Pesquisadores de quatro etnias abrem Semana dos Povos Indígenas no Museu Goeldi

Evento, que integra a programação do MPEG para o “Abril Indígena”, começa nesta terça-feira e se estende até o domingo. Serão seis dias de celebração da ciência produzida de forma colaborativa entre a instituição e os povos tradicionais, com mesa-redonda, webinário, trilha etnobotânica, jogo ancestral, oficina de bordado e exibição de filmes.

Publicado em 14/04/2026 08:55Modificado há 5 dias
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Mulher jovem usando óculos e com adornos indígenas, sorrindo e segurando um microfone
Manoela Karipuna, pesquisadora indígena, está entre os convidados da mesa-redonda de abertura da Semana (Woltaire Masaki/MPEG)

Agência Museu Goeldi – Tikuna, Karipuna, Munduruku e Arapium. Pesquisadores dessas quatro etnias abrem a Semana dos Povos Indígenas, nesta terça-feira (14/04), com uma mesa-redonda, no auditório do Centro de Exposições Eduardo Galvão, no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).  "Saberes que se entrelaçam: ciência, território e memória indígena" é o tema do conjunto de eventos – promovido pela instituição científica localizada na Amazônia paraense, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) – que se estende até o domingo, 19 de abril, dia da celebração da diversidade dos povos indígenas do Brasil. Durante seis dias, ainda haverá webinário, oficina de bordado (clique AQUI para se inscrever) e de xilogravura, trilhas, sessões do jogo Ancestralidade, exibição de filmes, entre outras atividades.

Ana Manoela Primo dos Santos Soares, uma das quatro pessoas indígenas que estão na mesa-redonda de abertura da programação, lembra que o Museu sempre fez parte de sua vida, porque a mãe (Suzana Karipuna) é técnica na instituição, desde o início da década de 1990. Então, ela cresceu nesses bastidores até ocupar seu espaço como pesquisadora, falando da história do seu povo. Antropóloga, além de suas pesquisas com mulheres da aldeia Santa Isabel, na terra indígena Uaçá, no Oiapoque, Amapá, Manoela Karipuna realiza estudos sobre os objetos do ritual do Turé que estão na coleção etnográfica salvaguardada no MPEG e atua como curadora da exposição “Arretxiê: um tesouro da costa amazônica”, em cartaz no Parque Zoobotânico.

Luta pelo protagonismo indígena
A pesquisadora destaca a importância da Semana dos Povos Indígenas que traz pesquisadores integrantes de povos diversos para contar suas próprias memórias sobre a ciência que vêm fazendo dentro dos seus territórios. Ela também destaca que, por causa das políticas públicas de ações afirmativas, pessoas indígenas estão podendo levar suas ciências para os espaços das universidades públicas e das instituições científicas, a exemplo do MPEG.

“O Museu Goeldi sempre atuou de maneira colaborativa com os povos indígenas, mas, por muito tempo, nós permanecemos sendo as pessoas que foram somente pesquisadas (por não estar nos espaços das instituições). E hoje, por meio do movimento indígena, que já vem de uma longa data, desde os anos 80, travando batalhas para que ocupemos outros espaços, estamos entrando nas graduações e nas pós-graduações e fazendo pesquisas que acontecem a partir dos nossos territórios e são levadas para os espaços acadêmicos como o Museu Goeldi”, avaliou a antropóloga indígena.

Manoela Karipuna se juntará, na primeira mesa-redonda do evento, a Mariana Neves Cruz Mello, Mariana Tikuna, integrante do povo Tikuna, geógrafa, escritora, doutora em ecologia aquática e pesca, doutoranda em Antropologia e educadora popular; o biólogo Emiliano do Nascimento Cabá,  do povo Munduruku, bombeiro militar, atuando em resgate de fauna e na fotografia; e a Veraneize dos Anjos Alves, Vera Arapium, do povo Arapium, mestra em diversidade sociocultural, vinculada ao Programa de Pós-graduação em Diversidade Sociocultural do MPEG, com pesquisas junto aos povos indígenas do Baixo Tapajós com ênfase na educação escolar indígena, no preconceito linguístico e na língua geral (Nheengatu). A mediação será feita pela pesquisadora do MPEG Ana Vilacy Galúcio.

Também no primeiro dia, a partir das 15h, acontece o “Webinário Educação indígena: lutas, conquistas e desafios”, que será transmitido pelo canal do Museu Goeldi no Youtube. Foram convidados: Irleuza Souza Robertino, artesã, educadora e pesquisadora; Waldely Rodrigues Fernandes, professor, poeta e escritor; Jairo Saw Munduruku, cacique da Aldeia Sawre Aboy, linguista, tradutor e pesquisador da medicina tradicional. A mediação será de Lúcia Santana, pesquisadora da Coordenação de Museologia do MPEG.

Pesquisa colaborativa no DNA do Museu
O diretor do MPEG, Nilson Gabas Júnior, destacou a relação de colaboração que vem sendo mantida entre os povos tradicionais e a instituição de pesquisa, desde a sua fundação, há quase 160 anos. Para ele, essa relação vem sendo reforçada e estreitada nos últimos anos.

“Desde que o Museu Goeldi foi concebido, há o reconhecimento das comunidades tradicionais. Os conhecimentos das comunidades indígenas são importantes e têm um entrelaçamento muito forte com o conhecimento científico tradicional. Está no DNA do Museu Goeldi reconhecer e manter parcerias profundas e profícuas com os povos tradicionais. Então, nada mais justo do que, por meio desse reconhecimento, termos uma programação ampla, de interação, de integração, de valorização, de reconhecimento das comunidades indígenas, neste mês”, ressaltou.

Para todos os públicos
Já o coordenador de Museologia (Comus/MPEG), Emanoel de Oliveira Junior, destacou que a programação conta com vários momentos, entre os quais a mesa-redonda da abertura, webinário, visitas guiadas a exposição “Ahetxiê: um tesouro da costa amazônica” (com a pesquisadora Manoela Karipuna e, sua mãe, Suzana Karipuna, ambas curadoras) Na manhã do dia 16, no Parque Zoobotânico, a pesquisadora, ao lado de sua mãe, , trilha, jogo, oficina de argilogravura e de bordado (uma peça será bordada coletivamente para ser apresentada na Semana Nacional de Museus, no mês de maio, passando, posteriormente, a integrar a exposição Diversidades Amazônicas) e exibição de audiovisuais.

“O ponto alto dessa programação é o domingo, dia 19. Fechamos a semana com a exibição de uma série de animações voltada ao público infantil, que trata sobre povos indígenas e suas relações com o território, com a cultura e com a ciência. De uma forma geral, teremos uma programação de seis dias, que aproxima, culturalmente, pessoas de diversas idades e de diversas origens. Então, é uma oportunidade de reflexão sobre a longa permanência dos povos nesta região e o que essas comunidades estão produzindo no mundo atual”, disse.

Exposição Brasil: Terra indígena
Além da exposição “Ahetxiê”, no Aquário Jacques Huber, os visitantes do Parque Zoobotânico poderão aproveitar os últimos dias da exposição “Brasil: Terra Indígena”, em cartaz no mezanino do Centro de Exposições Eduardo Galvão. A mostra reúne mais de 2 mil peças, como cestarias, cerâmicas e indumentárias de povos indígenas de todos os estados do país e do Distrito Federal.

Produzida pelo Instituto Cultural Vale, por meio do Centro Cultural Vale Maranhão, em parceria com o Museu Goeldi, com patrocínio da Vale e realização do Ministério da Cultura via Lei de Incentivo à Cultura, a exposição evidencia o protagonismo indígena na relação sustentável com a terra e na formação essencial da identidade brasileira e pode ser visitada até a próxima quinta-feira (30/04). Já a exposição “Diversidades Amazônicas”, no térreo, ficará fechada esta semana para manutenção.

Texto: Andréa Batista
Revisão: Carla Serqueira

Programação: Semana dos Povos Indígenas

Data: de 14 a 19 de abril de 2026

Tema: "Saberes que se entrelaçam: ciência, território e memória indígena”

  • 14 de abril (terça-feira) – Mesa-redonda e webinário: Pesquisadores Indígenas e Saberes Compartilhados

9h às 12h: Mesa de conversa com pesquisadores indígenas.
Local:
 Auditório do Parque Zoobotânico (entrada pela Travessa Nove de Janeiro)
Convidados(as):  Mariana Tikuna, Manoela Karipuna, Emiliano Kaba e Vera Arapium. Mediação: Ana Vilacy Galúcio

  • 15h - Webinário Educação indígena: lutas, conquistas e desafios

Local: Canal do Museu Goeldi no Youtube (www.youtube.com/@museugoeldi)
Convidados(as): Irleuza Souza Robertino, artesã, educadora e pesquisadora; Waldely Rodrigues Fernandes, professor, poeta e escritor; Jairo Saw Munduruku, cacique da Aldeia Sawre Aboy, linguista, tradutor e pesquisador da medicina tradicional.
Mediação: Lúcia Santana, pesquisadora do MPEG.

  • 15 de abril (quarta-feira) - Trilha Etnobotânica e jogo Ancestralidade, com mediação

Horários: 9h | 10h30
Local: 
Parque Zoobotânico
Público-alvo: g
eral
Mediadores(as) da trilha: 
Rayssa Borges Cardoso e Luann Gustavo Matta Delgado
Mediadores(as) do jogo: 
Ronaldo dos Santos Farias e Camila Cristina Lobo Palheta

  •  16 de abril (quinta-feira) - Visita Guiada à Exposição Ahetxiê

Horário: 10h às 11h30
Local: 
Espaço expositivo (Aquário Jacques Huber)
Público-alvo: 
Geral
Mediação: 
Ana Manoela Primo dos Santos Soares, Suzana Primo e Maria Ivaneide Assunção

  •  17 de abril (sexta-feira) - Oficina coletiva de bordado e texturas “Saberes da Floresta”

Local: Hall do CEEG
Manhã: 
9h às 12h
Público-alvo: 
a partir de 16 anos
Inscrição via formulário online: https://forms.gle/Z65PaGUgDGadCHGXA
Mediação: 
Tammy Yamada Lamarão @tylstudio
Convidadas: 
Grupo de bordados Entrelinhas

Tarde: 14h às 16h - Oficina de Argilogravura: Arte Rupestre e inclusão

Público-alvo: pessoas com deficiência inscritas através da Associação de Pessoas com deficiência (APPD)
Local de inscrição:
 APPD, endereço: Passagem Alberto Engelhard (Vila Teta), nº 213, São Brás. Telefone: 3249-4849.
Data da inscrição:
 até 14 de abril de 2026 (terça-feira)
Facilitadores:
 Erasmo Borges de Souza Filho, Erêndira Oliveira, Silvinho Costa da Silva, Raimundo Teodorio e Jefferson Paiva.
Consultoria: 
Edithe Pereira, Helena Lima e Caroline Barros.
Parceria: 
Associação de Pessoas com Deficiência (APPD).

  •  18 de abril (sábado) – Trilha Etnobotânica e jogo “Ancestralidade em jogo”, com mediação ao final

Horários: 9h | 10h30 
Local: Parque Zoobotânico
Público-alvo: Geral
Mediadores(as) da trilha: Rayssa Borges Cardoso e Luann Gustavo Matta Delgado
Mediadores(as) do jogo: Ronaldo dos Santos Farias e Camila Cristina Lobo Palheta

  •  19 de abril (domingo) – Dia dos Povos Indígenas

Sessão Audiovisual - Exibição de produção audiovisual sobre povos indígenas e suas relações com território, cultura e ciência.
Exibição:
 "Mitos Indígenas em Travessia" (Zureta Filmes)
Horário: 10h às 12h
Local: Auditório do Parque Zoobotânico
Público-alvo: Geral

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Categorias
Cultura, Artes, História e Esportes
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