Oficinas, trilha, jogo e sessão de filmes conectam visitantes do Museu Goeldi com a cultura indígena
Eventos estão na programação dos três últimos dias da Semana dos Povos Indígenas, que foi aberta na terça-feira e tem como tema "Saberes que se entrelaçam: ciência, território e memória indígena". Atividades estão acontecendo no Parque Zoobotânico do MPEG.


Agência Museu Goeldi – “É a primeira vez que escuto o nome de algumas árvores e vejo as formas, os frutos, as raízes. Eu tinha curiosidade de ver o pau-brasil, por exemplo, porque marcou o século XVI, deu nome ao Brasil e hoje está sendo extinto, infelizmente. Foi uma grande oportunidade”, disse Jhemely Sousa, estudante. Ela integrou o grupo de mais de 30 alunos e professores que fez a “Trilha Etnobotânica” e se divertiu com o “Ancestralidade em jogo”, duas das atividades oferecidas pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), nesta Semana dos Povos Indígenas, que acontece no Parque Zoobotânico (PZB). Incentivando a reconexão das pessoas com a floresta, essa mesma programação se repetirá neste sábado, a partir das 9h. Um dia antes, haverá oficinas, e, no domingo, a exibição do filme "Mitos Indígenas em Travessia".

A trilha e o jogo foram aprovados pelo grupo de educadores e estudantes do município Augusto Corrêa, que fica a mais de 200 km de Belém-PA, onde estão localizadas duas bases do MPEG, instituição de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Jeferson Bastos, assim como Jhemely, estuda na Escola André Alves e participa do Clube dos Protetores do Mangue – iniciativa do projeto Mangues da Amazônia, mantida pelo Instituto Peabiru, pela Associação Sarambuí e pela Universidade Federal do Pará (UFPA), financiada pela Petrobras. Durante o jogo de cartas, Jeferson expressou seu contentamento com a recepção no PZB: “É uma experiência nova. Nunca vivemos. É legal e interessante a forma como vocês fazem essa dinâmica com a gente”, disse.
A professora Gláucia Sousa, uma das responsáveis pelo grupo, explicou que os adolescentes, que estão na faixa etária entre 13 e 18 anos, são estudantes do ensino fundamental e do médio, oriundos de comunidades extrativistas do município Augusto Corrêa. “O objetivo é levá-los a conhecer outros espaços de educação não formal, em que eles podem saber mais sobre a fauna, sobre a flora, sobre a história das nossas origens. Então, o principal objetivo é proporcionar esse conhecimento mesmo”, disse.
Nove árvores e duas línguas
A trilha foi mediada pela integrante do Serviço de Educação (Seedu), Rayssa Borges Cardoso, que recebeu o grupo na entrada do Parque. Ela guiou os visitantes aos nove pontos onde estão espécies botânicas relacionadas a mitos, usos e conhecimentos indígenas, como a seringueira, o açaizeiro, a paxiúba, a sumaúma, o pau-brasil, o guaraná, a cuieira, a vitória-régia e o buriti. A cada parada, a mediadora explicava as características da planta, citava algum conhecimento medicinal, um valor alimentício e uma lenda indígena ligada à planta. Os estudantes e professores participavam fazendo comentários, demonstrando dúvidas e curiosidades e fazendo registros fotográficos.
Logo após, os estudantes foram direcionados a um espaço montado no parque e divididos em três grupos para jogar o jogo Ancestralidade, sob a orientação de Ronaldo Farias, mediador educativo do Seedu, e de Bruno Pimenta e Samuel Santos, bolsistas do projeto Documentação e Revitalização de Línguas Indígenas, orientado pela pesquisadora Vilacy Galúcio. De acordo com Ronaldo, coautor do jogo, a inspiração e o conteúdo vieram dos Dicionários Multimídias do MPEG.
Composto por 87 cartas, o jogo explora palavras indígenas nas línguas puruborá e sakurabiat, do tronco Tupi, faladas por povos indígenas que habitam em Rondônia, no norte da Amazônia. O propósito é descobrir o significado das palavras (cartas com nomes de animais, alimentos, pessoas e outros) e criar histórias relacionadas a elas (cartas de ação, com desafios), gerando conhecimento sobre a cultura indígena.

A programação foi aberta, na manhã da terça-feira) com uma mesa-redonda mediada pela pesquisadora indígena e curadora da Coleção Linguística do MPEG, Ana Vilacy Galúcio, com a participação dos pesquisadores indígenas Ana Manoela Karipuna, antropóloga, integrante dos Karipuna, pesquisadora e curadora de exposições do Museu Goeldi; Mariana Neves Cruz Mello, Mariana Tikuna, integrante dos Tikuna, geógrafa, escritora, doutora em ecologia aquática e pesca, doutoranda em Antropologia e educadora popular; o biólogo Emiliano do Nascimento Cabá Emiliano Kaba, do povo Munduruku, bombeiro militar, atuando em resgate de fauna e na fotografia; e a Veraneize dos Anjos Alves, Vera Arapiun, dos Arapiuns, mestra em diversidade sociocultural, vinculada ao Programa de Pós-graduação em Diversidade Sociocultural do MPEG.
Também no primeiro dia, a partir das 15h, acontece o “Webinário Educação indígena: lutas, conquistas e desafios”, transmitido pelo canal do Museu Goeldi no Youtube. Os convidados – Irleuza Souza Robertino, artesã, educadora e pesquisadora; Waldely Rodrigues Fernandes, professor, poeta e escritor; Jairo Saw Munduruku, cacique da Aldeia Sawre Aboy, linguista, tradutor e pesquisador da medicina tradicional – participaram de uma conversa mediada pela pesquisadora da Coordenação de Museologia do MPEG, Lúcia Santana.
Na quarta-feira, foi realizada a trilha etnobotânica e o jogo Ancestralidade. Na quinta-feira, Manoela Karipuna, antropóloga; Suzana Karipuna, técnica do Museu; e a pesquisadora Ivaneide Assunção mediaram as visitas à exposição “Arretxiê: um tesouro da costa amazônica”, em cartaz no Parque Zoobotânico.

Brasil Terra indígena
Além da exposição “Ahetxiê”, no Aquário Jacques Huber, os visitantes do Parque Zoobotânico poderão aproveitar os últimos dias da exposição “Brasil: Terra Indígena”, em cartaz no mezanino do Centro de Exposições Eduardo Galvão. A mostra reúne mais de 2 mil peças, como cestarias, cerâmicas e indumentárias de povos indígenas de todos os estados do país e do Distrito Federal. Até agora, a exposição já foi vista por mais de 60 mil pessoas.
Produzida pelo Instituto Cultural Vale, por meio do Centro Cultural Vale Maranhão, em parceria com o Museu Goeldi, com patrocínio da Vale e realização do Ministério da Cultura via Lei de Incentivo à Cultura, a exposição evidencia o protagonismo indígena na relação sustentável com a terra e na formação essencial da identidade brasileira e pode ser visitada até a próxima quinta-feira (30/04). Já a exposição “Diversidades Amazônicas”, no térreo, ficará fechada esta semana para manutenção.
Texto: Andréa Batista
Revisão: Denise Salomão
PROGRAMAÇÃO: Semana dos Povos Indígenas
Data: de 14 a 19 de abril de 2026
Tema: "Saberes que se entrelaçam: ciência, território e memória indígena”
14 de abril (terça-feira) – Mesa-redonda e webinário: Pesquisadores Indígenas e Saberes Compartilhados
9h às 12h: Mesa de conversa com pesquisadores indígenas.
Local: Auditório do Parque Zoobotânico (entrada pela Travessa Nove de Janeiro)
Convidados(as): Mariana Tikuna, Manoela Karipuna, Emiliano Kaba e Vera Arapium. Mediação: Ana Vilacy Galúcio
15h - Webinário Educação indígena: lutas, conquistas e desafios
Local: Youtube
Convidados(as): Irleuza Souza Robertino, artesã, educadora e pesquisadora; Waldely Rodrigues Fernandes, professor, poeta e escritor; Jairo Saw Munduruku, cacique da Aldeia Sawre Aboy, linguista, tradutor e pesquisador da medicina tradicional.
Mediação: Lúcia Santana, pesquisadora do MPEG.
15 de abril (quarta-feira) - Trilha Etnobotânica e jogo Ancestralidade, com mediação
Horários: 9h | 10h30
Local: Parque Zoobotânico
Público-alvo: Geral
Mediadores(as) da trilha: Rayssa Borges Cardoso e Luann Gustavo Matta Delgado
Mediadores(as) do jogo: Ronaldo dos Santos Farias e Camila Cristina Lobo Palheta
16 de abril (quinta-feira) - Visita Guiada à Exposição Ahetxiê
Horário: 10h às 11h30
Local: Espaço expositivo (Aquário Jacques Huber)
Público-alvo: Geral
Mediação: Ana Manoela Primo dos Santos Soares, Suzana Primo e Maria Ivaneide Assunção
17 de abril (sexta-feira) - Oficina coletiva de bordado e texturas “Saberes da Floresta”
Local: Hall do Centro de Exposições Eduardo Galvão – Parque Zoobotânico
Manhã: 9h às 12h
Público-alvo: a partir de 16 anos
Inscrição via formulário online: https://forms.gle/Z65PaGUgDGadCHGXA
Mediação: Tammy Yamada Lamarão @tylstudio
Convidadas: Grupo de bordados Entrelinhas
Tarde: 14h às 16h
Oficina de Argilogravura: Arte Rupestre e inclusão
Público-alvo: pessoas com deficiência inscritas através da Associação de Pessoas com deficiência (APPD)
Local de inscrição: APPD, endereço: Passagem Alberto Engelhard (Vila Teta), nº 213, São Brás. Telefone: 3249-4849.
Data da inscrição: até 14 de abril de 2026 (terça-feira)
Facilitadores: Erasmo Borges de Souza Filho, Erêndira Oliveira, Silvinho Costa da Silva, Raimundo Teodorio e Jefferson Paiva.
Consultoria: Edithe Pereira, Helena Lima e Caroline Barros.
Parceria: Associação de Pessoas com Deficiência (APPD).
18 de abril (sábado) – Trilha Etnobotânica e jogo “Ancestralidade em jogo”, com mediação ao final
Horários: 9h | 10h30
Local: Parque Zoobotânico
Público-alvo: Geral
Mediadores(as) da trilha: Rayssa Borges Cardoso e Luann Gustavo Matta Delgado
Mediadores(as) do jogo: Ronaldo dos Santos Farias e Camila Cristina Lobo Palheta
19 de abril (domingo) – Dia dos Povos Indígenas
Sessão Audiovisual - Exibição de produção audiovisual sobre povos indígenas e suas relações com território, cultura e ciência.
Exibição: "Mitos Indígenas em Travessia" (Zureta Filmes)
Horário: 10h às 12h
Local: Auditório do Parque Zoobotânico