Vozes da Amazônia Indígena: projeto identifica primeiras pinturas rupestres no lado brasileiro do Alto Rio Negro

Localizado em lugares sagrados dos povos Baniwa e Koripako, o achado arqueológico é um dos resultados da pesquisa intercultural, coordenada pelo Museu Goeldi, que envolve cerca de 100 pessoas de mais de 20 instituições e de comunidades indígenas de três territórios. O estudo contribui para elucidar processos antigos e diversificados das ocupações e adaptações humanas na bacia amazônica brasileira.

Publicado em 10/06/2026 12:14Modificado há 18 horas
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Imagem de uma parede de pedra com pinturas rupestres em tons vermelhos. Os traços parecem formas abstratas e símbolos antigos espalhados sobre a superfície rochosa clara e irregular.
Uma amostra das pinturas inéditas (aos olhos não indígenas), identificadas em expedição do Projeto Vozes (Foto e D-Stretch/ywe: Raoni Valle/Vozes da Amazônia Indígena)

Agência Museu Goeldi – Longe de olhos não indígenas, na “Cabeça do cachorro”, extremo noroeste do Amazonas, na Terra Indígena Alto Rio Negro (Tiarn), pesquisadores identificaram um vestígio inédito da permanência milenar dos povos originários da Amazônia brasileira, uma prova da ancestralidade da ocupação da floresta. São as primeiras pinturas rupestres conhecidas pela arqueologia nessa região da bacia amazônica, habitada pelos povos Baniwa e Koripako. A identificação do sítio arqueológico é um dos resultados do primeiro ano da pesquisa intercultural “Vozes da Amazônia Indígena: processos históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do antropoceno”. Coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o projeto conta com o envolvimento de, aproximadamente, 100 pessoas indígenas e não indígenas, de comunidades tradicionais e de mais de 20 instituições científicas.

Os arqueólogos do projeto destacam a importância do achado para documentar a biodiversidade amazônica e a sua relação com conhecimentos e práticas de povos indígenas do presente e do passado. Os pesquisadores e integrantes das comunidades indígenas consultadas e envolvidas na pesquisa veem, nesses primeiros resultados do projeto, uma oportunidade de fortalecer a conexão entre o território, as histórias contadas por seus antepassados e as marcas deixadas nos lugares sagrados ancestrais. Por causa do seu valor científico e cultural, por decisão dos indígenas do Tiarn, o acesso ao sítio arqueológico está restrito aos participantes da pesquisa intercultural. 

Infográfico com dados do projeto Vozes, mapa e foto com destaque para a terra indígena alto rio negr
No infográfico, em destaque, a localização da Terra Indígena Alto Rio Negro, na "Cabeça do cachorro", um dos três territórios abrangidos pelo Projeto Vozes (Adrya Marinho/MPEG)

Um projeto e três territórios

O “Projeto Vozes”, iniciado em fevereiro de 2025, abrange pesquisas diversas em três territórios: a Terra Indígena (TI) Alto Rio Negro, no Amazonas, onde está a arte rupestre recém-identificada; a TI  Kaiapó, no Pará, que teve sua primeira expedição este ano; e a TI do Xingu, no Mato Grosso, onde o projeto está dando continuidade às décadas de pesquisas realizadas com o povo Kuikuro. Além da arqueologia, os estudos avançam em várias frentes, desde inventários biológicos e descrição de novas espécies, passando pela documentação de práticas culturais, até o geoprocessamento e levantamentos com Light Detection and Ranging (Lidar), uma tecnologia a laser que coleta dados topográficos de alta precisão e resolução.

Nesse primeiro ano de pesquisa, somente na Terra Indígena Alto Rio Negro (Tiarn), foram realizadas três viagens de campo, em fevereiro, em agosto e em outubro do ano passado. Entre mais de uma dezena de pesquisadores, estavam Helena Lima, coordenadora do projeto, arqueóloga do Museu Goeldi; Raoni Maranhão Valle, arqueólogo, da Universidade Federal do Oeste do Pará – Ufopa; Thiago Chacón e Arthur Waliperi Baniwa, linguistas vinculados à Universidade de Brasília (UnB); Filippo Stampanoni Bassi, arqueólogo e diretor do Museu da Amazônia (Musa); e Sidney Garcia, pesquisador e professor Baniwa (AM).

Um dos objetivos dessas expedições foi o estabelecimento de um diálogo intercultural entre os pesquisadores das instituições e os indígenas que estão nos territórios. Nessas viagens, os dois grupos trocaram saberes, definiram as atividades de campo e planejaram outras ações do projeto.

Na região do rio Içana, afluente do rio Negro (AM) habitado majoritariamente pelos povos Baniwa e Koripako, por exemplo, foram visitados e caracterizados locais para escavações arqueológicas e para a coleta de amostragens geoarqueológicas e paleoecológicas. Foi nessa oportunidade que os pesquisadores identificaram os primeiros sítios de pintura rupestre naquela região, que – devido ao formato do desenho do mapa geográfico – é conhecida como “Cabeça do cachorro”, onde fica o município de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela. 

De acordo com dados do Instituto Socioambiental (ISA), o Brasil tem aproximadamente 833 terras indígenas em diferentes fases de procedimento demarcatório, sendo 540 homologadas e reservadas. Nas TIs abrangidas pelo projeto Vozes da Amazônia Indígena, segundo estimativa do ISA, vivem mais de 38,5 mil pessoas, sendo mais de 26 mil na TI Alto Rio Negro, 6,3 mil na TI Kayapó e 6,1 mil na TI Xingu

"Na nossa reunião, a gente (decidiu que) não vai liberar ainda (o acesso às pinturas rupestres)… A gente não vai aceitar pesquisadores, qualquer pesquisador, pode ser do nosso país ou de fora” (Sidney Garcia)
três homens indígenas sentados no alto de uma serra observando um rio ao longe e abaixo
Os pesquisadores Baniwa (Sidney, Apolinário e Giovani) descansam na encosta de serra, com o médio rio Içana ao fundo (Foto: Raoni Valle/Projeto Vozes)

“A gente não quer que alguém chegue querendo ver, tirar fotos”

Sidney Garcia é pesquisador do povo indígena Baniwa (AM). Com Licenciatura Intercultural Indígena, pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ele foi um dos indicados para compor a equipe do Projeto Vozes da Amazônia Indígena. Sua indicação surgiu devido às pesquisas que desenvolveu sobre os lugares sagrados dentro do seu território. 

Nesta entrevista, Sidney Baniwa falou sobre a dificuldade para chegar aos locais de pesquisa, que são de difícil acesso e nos quais nem mesmo ele havia estado antes. Inclusive, o pesquisador relata que a arte rupestre identificada no Tiarn não era conhecida – no sentido de ser vista presencialmente – por seus contemporâneos. “Foi muito bom. Eu tenho certeza que daqui pra frente a gente vai ter mais, porque estamos no começo ainda”. 

O pesquisador também destaca o valor desses espaços, não apenas como lugar de pesquisa, mas, principalmente, como espaços sagrados para o seu povo. Por causa disso, em uma decisão tomada pela comunidade, o acesso à localidade onde estão as pinturas rupestres foi restrito aos pesquisadores do Projeto Vozes. 

“A gente não quer que alguém chegue querendo ver, tirar fotos. Na nossa reunião, a gente (decidiu que) não vai liberar ainda… A gente não vai aceitar pesquisadores, qualquer pesquisador, pode ser do nosso país ou de fora”, afirmou, acrescentando que qualquer mudança em relação a essa decisão será discutida na e pela comunidade.

Para não desvirtuar a fala do professor Sidney Garcia, na tentativa de atender regras da língua portuguesa não seguidas pela cultura indígena, o trecho da entrevista foi mantido em áudio e pode ser acessado pelo canal do Museu Goeldi no Youtube: 

"Não estamos descobrindo e explorando o desconhecido e o abandonado, estamos, sim, generosamente sendo recebidos como aprendizes e sendo cobrados para pormos nossos conhecimentos técnicos e teóricos a serviço de demandas dos donos dessa casa-território, voltadas à proteção, à defesa, à promoção, à valorização e à reativação do território sagrado” (Raoni Valle).

Achado pode ser apenas “a ponta do iceberg”

A presença de pinturas rupestres foi identificada em dois sítios ao longo do rio Içana, na TI Alto Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. De acordo com o pesquisador Raoni Valle, existem centenas de locais com “gravuras” rupestres no Tiarn, talvez milhares em toda a bacia, e a maioria é conhecida dos povos nativos. Entretanto, “pinturas” rupestres são menos conhecidas no lado brasileiro do mapa do noroeste amazônico. Assim, o achado pode elucidar processos antigos e diversificados das ocupações humanas na região. No entanto, o arqueólogo alerta para o cuidado de não se tratar o fato como “uma  descoberta” (pensamento colonizador), pois, apesar da geração atual de pesquisadores indígenas ter pisado nesses sítios pela primeira vez nessa expedição, esses lugares são conhecidos de seus ancestrais e estão presentes nos registros orais de seus povos. Portanto, os cientistas postulam o ineditismo desse achado apenas do ponto de vista do conhecimento arqueológico ocidental.

“São lugares ancestralmente conhecidos, pelos quais os Baniwa e os Koripako têm grande respeito e com os quais estão entrelaçados. Alguns indígenas (especialistas em rituais, pajés) possuem chaves espirituais e corporais que permitem abrir essas casas de conhecimento para que pesquisem com os ancestrais, com os espíritos, com os animais, com as plantas, com as rochas, e com os heróis míticos que habitam esses lugares. Dessa maneira, esses sítios somente podem ser considerados 'descobertas' arqueológicas inéditas do ponto de vista da limitação amostral da arqueologia ocidental na Amazônia. Não estamos descobrindo e explorando o desconhecido e o abandonado, estamos, sim, generosamente sendo recebidos como aprendizes e sendo cobrados para pormos nossos conhecimentos técnicos e teóricos a serviço de demandas dos donos dessa casa-território, voltadas à proteção, à defesa, à promoção, à valorização e à reativação do território sagrado”, pontuou Raoni Valle.

Ainda de acordo com o arqueólogo, o local investigado foi dividido em dois setores e, em cada um deles, foi achado um abrigo com pinturas rupestres. “Na área também chamada de ‘Cabeça do cachorro’, não havia registros de pinturas rupestres até recentemente, quando identificamos um sistema de abrigos sob rocha numa formação serrana. No setor 1, um abrigo apresenta pinturas rupestres identificadas com 100% de certeza, onde figuras pintadas com tinta vermelha, provavelmente derivada de hematita (ocre ou óxido de ferro), com traços grossos (>1,0 cm), podem ser percebidas como possíveis biomorfos (formas de organismos vivos) e figuras geométricas. Nos outros abrigos, as condições de preservação e de exposição da superfície rochosa são precárias. Foram observadas manchas que precisam ser verificadas com maior detalhamento para asseverar se são marcas antrópicas (feitas por gente humana). No setor 2, o mesmo se repete. O levantamento é preliminar e outros sítios com essas características podem existir nessa área. Topamos com a ponta do iceberg, apenas”, considerou. 

Temas e formas apontam para novo estilo

A arte rupestre identificada é descrita no relatório preliminar do projeto como “pinturas feitas nas cores vermelha e amarela, provavelmente de ocre; que encontram-se massivamente recobertas por uma camada orgânica esbranquiçada, provavelmente líquenes que se formaram sob as condições de umidade do ambiente atual; com ocorrência em toda a extensão dos paredões rochosos da base da serra”. O pesquisador Raoni Valle explica que o termo “ocre" se refere à matéria-prima corante com a qual a tinta em questão foi feita, a partir de alguns minerais, como óxido de ferro ou hematita. Segundo ele, o ferro é um mineral bastante usado no mundo todo para a produção de pigmentos naturais em tons de vermelho, marrom e amarelo.

“Essas são as bases minerais mais comuns para as tintas e pigmentos das pinturas rupestres, mas há registros de outras tintas, cores e matérias-primas. Essas tintas poderiam e deveriam ter muito mais componentes em suas receitas, sobretudo de origem orgânica, vegetal e animal, mas essa fração da matéria é justamente a que é mais afetada pelos processos naturais de alteração e preservação, resultando que, nas análises químicas desses pigmentos, normalmente a fração mineral é detectada com mais proeminência ou quase com exclusividade”, explicou.

Em relação aos temas das pinturas, o pesquisador disse que essa análise ainda é prematura, mas que ainda não foram identificadas figuras reconhecíveis, sem ambiguidade, como figuras antropomórficas (semelhantes à forma humana), nem zoomórficas (formas de outros animais). Segundo ele, por isso, o achado está sendo tratado como constituído por “grafismos puros ou abstrato-geométricos, alguns potencialmente biomórficos ”. No geral, a amostra apresenta alguns casos de aplicação de pigmento sobre as superfícies rochosas para emular e seguir os contornos e feições naturais dos suportes geológicos. Valle, no entanto, ressalta que esse fenômeno não é inteiramente novo na Amazônia, pois, em Monte Alegre (PA), também existem pinturas que seguem as formas naturais das rochas. Mas, segundo ele, a maneira como isso é feito, na interface tinta-rocha, e a forma das figuras, apresentam diferenças.

“Sugerem fortemente que o suporte (formações geológicas naturais), em si, já era significativo, sensorial e simbolicamente ativo para as pessoas que pintaram naqueles abrigos, e que o uso de tinta, eventualmente, funcionaria como processo de reativação cognitiva da sacralidade situada no espaço geológico paulatinamente familiarizado por humanos e espíritos”, disse Valle, acrescentando que a observação aponta potencialmente para um “estilo novo de pinturas rupestres amazônicas” que poderá ser confirmado com o andamento das pesquisas.

Homem indígena jovem coloca escala de cores perto de pinturas em rocha
Apolinário Baniwa coloca a escala de cores perto das primeiras pinturas encontradas na prospecção (Foto: Raoni Valle/Projeto Vozes)

Possíveis datações das pinturas

Apesar de deixar claro que ainda não é possível estabelecer datações confiáveis das pinturas, trabalha-se inicialmente com uma hipótese de que elas podem ter sido feitas em um período geologicamente associado ao holoceno médio, aproximadamente entre 8.000 AP (antes do presente) e 4.000 AP. “Uma janela culturalmente longa, mas, em todo caso, é uma estimativa fundamentada na relação entre as pinturas e fatores e processos naturais que ocorreram e se acumularam depois que os grafismos já existiam”, explicou Valle. 

Por exemplo, observou-se que há formação de líquenes (colônias simbióticas entre microrganismos, que se desenvolvem sob condições específicas de temperatura, umidade, luz solar, chuva, ausência de poluição atmosférica) apenas sobre as pinturas, e não sob elas. “O raciocínio é: se as pinturas foram feitas em superfícies sem os líquenes, então, há uma grande probabilidade de que foram pintadas em uma época em que as condições climático-ambientais eram diferentes das atuais. Há estudos paleoambientais na Amazônia que identificam indicadores de uma menor umidade, menos água no ambiente no holoceno médio”. Um dos passos seguintes é tentar datar os líquenes encontrados para se ter um limite mínimo de idade plausível para a arte sob eles.Os pesquisadores também ratificam que os objetivos atuais da investigação passam pela pesquisa etnográfica sobre a relação dos Baniwa com as pinturas rupestres, o que tem sido possível graças à presença de pesquisadores indígenas no projeto, e pela continuidade do processo prospectivo, da documentação digital dos sítios arqueológicos e das pinturas. Atualmente, também estão sendo feitas análises e pós-processamento digital do material produzido em campo (fotografias, vídeos, pequenos mapas e plantas descritivas, decalques digitais e modelos 3D de feições no ambiente, painéis e figuras, estruturas, artefatos relacionados às pinturas), no Laboratório de Antropologia Visual e Arqueologia da Imagem, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Lavai/Ufopa), instituição a qual o pesquisador Raoni Valle é vinculado. Segundo ele, as análises resultarão em imagens digitalmente modificadas ou fabricadas, mapas finalizados e em um relatório descritivo que integrarão o acervo de dados do Projeto Vozes. Os pesquisadores ressaltam que os dados sobre a arte rupestre serão devidamente tratados e apresentados em futura publicação científica interepistêmica liderada pelos pesquisadores Baniwa envolvidos na pesquisa. 

Gravuras e pinturas: diferenças e ocorrências

É importante destacar que a gravura rupestre é diferente da pintura rupestre. A primeira (petróglifo) é uma marca feita a partir da remoção ou retirada de matéria rochosa de uma superfície, deixando sulcos, ranhuras, raspagens, incisões, percussões, buracos, cicatrizes em depressão no relevo da superfície rochosa. Já a segunda (pictograma ou pictografia) é a aplicação de matéria corante, de tinta, sobre rocha. Ambas as expressões são chamadas de arte rupestre. 

De acordo com o pesquisador Valle, na Amazônia, assim como em outros lugares, existem tanto pinturas rupestres quanto gravuras rupestres . Mas, segundo ele, é mais comum achar gravuras nos afloramentos rochosos mais baixos, nas beiras dos rios e dos igarapés da Amazônia, lugares de alta visibilidade nas secas. Já as pinturas rupestres amazônicas são muito mais raras na beira dos rios e recorrentes em contextos ambientais mais elevados, dentro de abrigos sob rocha e de cavidades rochosas, onde tendem a estar mais preservadas, mais longe dos impactos das cheias, das chuvas e do sol. 

“Além disso, as ações de produção, modificação e uso da arte nesses lugares podem ter deixado outros vestígios enterrados. Portanto, sítios em abrigos sob rocha são potencialmente mais ricos em informações sobre o contexto arqueológico da arte rupestre”, apontou o pesquisador, explicando a relação que existe entre o achado de arte rupestre e outros vestígios ou marcas da ocupação humana identificadas, bem como, possíveis relações com outros sítios sagrados pesquisados pelo Projeto Vozes no noroeste amazônico.

O valor dos achados (como pedras e lugares sagrados) é o reconhecimento do manejo dos sítios arqueológicos, dos caminhos, das paisagens, pelos povos ancestrais. O mapeamento da biodiversidade e da riqueza tem, na visão da ciência indígena, um valor de reconhecimento do manejo ancestral, de fortalecimento da conexão cultural com o território. Então, é a prova da ancestralidade da ocupação da floresta. O valor para a ciência indígena é de proteção desses lugares, a partir da visão da arqueologia (Artur Walipere)
Homem indígena, segurando um microfone
Artur Garcia Gonçalves, pesquisador indígena, linguista integrante da pesquisa intercultural (Foto: Laryssa Gaynett/Projeto Vozes)

Guia e mediação nos lugares sagrados

Artur Garcia Gonçalves ou Artur Walipere também integra o Projeto Vozes da Amazônia Indígena, desde seu início. Pesquisador, doutor em linguística pela Universidade de Brasília (UnB), ele estuda línguas indígenas, especialmente, as faladas pelos povos Aruak, da TI Alto Rio Negro, no Amazonas. Atualmente, coordena o  “Inventário da Diversidade Linguística Medzeniakonai: Língua, Educação e Patrimônio Cultural”, do Iphan, e o projeto “Speak, Sing, Pray: diversity and special language use among the Medzeniakonai (Baniwa and Koripako), no Northwest Amazonia”. Com atuação em escolas indígenas e em pesquisas relacionadas ao conhecimento sobre a língua e a cultura dos povos Baniwa, ele participou da equipe que produziu o Dicionário Multimídia 'Iakottinai Kaakonaperi Medzeniakonai – Lugares sagrados do povo Medzeniakonai”

Nesta entrevista – produzida a partir de perguntas respondidas por escrito em documento compartilhado e complementadas por áudios – , Artur Walipere conta sua experiência no Vozes, ressaltando a importância da colaboração de pessoas indígenas do território, que apontam e guiam os pesquisadores não indígenas aos lugares sagrados e fazem a mediação com as comunidades, decidindo o que deve ou não ser acessado, pesquisado e publicizado em relação aos territórios nos quais habitam. Ele também fala das dificuldades da expedição, dos custos e do difícil acesso às terras dos povos Baniwa e Koripako, na fronteira do Brasil com a Colômbia. 

ENTREVISTA

"A gente tem muito a aprender e também a trocar e a ensinar. Acho que há técnicas, metodologias, equipamentos que a gente consegue colocar nas mãos dos bolsistas, dos pesquisadores indígenas e entender o que eles querem mapear. Não é a gente chegar com a proposta de mapear aquilo ali. É o contrário. Nós temos um time de pessoas absolutamente comprometidas com as demandas de cada um desses povos” (Helena Lima)
Mulher branca mostra fragmento de cerâmica achada em sítio arqueológico
Helena Lima, pesquisadora do Museu Goeldi, mostra fragmento cerâmico encontrado em sítio arqueológico (Laryssa Gaynett/Projeto Vozes)

"Chave para a preservação e para o futuro da Amazônia"

Helena Lima, arqueóloga, pesquisadora no Museu Goeldi, conta que assumiu o desafio de coordenar um projeto muito grande, o “Vozes da Amazônia Indígena”. Ela destacou o caráter intercultural e interdisciplinar da proposta, que dá continuidade a outros projetos e a outras interações que existiam nas regiões. Também ressaltou a aproximação entre a pesquisa acadêmica e a ciência indígena, a partir da participação de bolsistas e pesquisadores indígenas dos três territórios. “O propósito do projeto é conhecer a biodiversidade em regiões que são ‘chave’ para a preservação e para o futuro da Amazônia. As terras indígenas são locais da Amazônia cuja biodiversidade está preservada e isso se deve à própria relação que esses povos têm com esses lugares”.

De acordo com Helena, a ideia do projeto é estabelecer o diálogo entre os métodos da ciência acadêmica e os da ciência tradicional. Ela observou que os modos indígenas são empíricos, aprofundados e integrados à biodiversidade. Além de unir metodologias, a pesquisa visa unir esforços de várias áreas e de vários cientistas que atuam nas ciências biológicas (zoologia, botânica e outras), nas ciências humanas (arqueologia, antropologia, linguística) e nas ciências integradoras que são as ciências indígenas, o conhecimento tradicional indígena. São cerca de 70 pesquisadores, técnicos e estudantes, além de 32 bolsistas que estão ou estiveram no projeto, totalizando cerca de 100 pessoas.

“No alto rio Negro, estamos desenvolvendo pesquisas que passam pelas histórias, pelos lugares e suas importâncias, passam pela história que a arqueologia conta, mas também pela história ambiental bem mais antiga que vem da paleoecologia. Temos um time de pesquisadores do Museu Goeldi, do Musa e da Universidade de Londres trabalhando em muitas frentes. Por exemplo, a professora Lúcia Russak trabalha com sistema agrícola do Rio Negro; Thiago Chacon, da Universidade de Brasília, trabalha com as línguas indígenas, numa parceria tão bonita com Arthur Baniwa. Já na TI Alto Xingu, no Mato Grosso, temos uma parceria muito longeva de quatro décadas com os povos Kuikuro, uma continuação de uma pesquisa linguística, antropológica e arqueológica longa e que, agora, tem um objetivo renovado, que é trazer e conhecer a biodiversidade dentro do contexto cultural Kuikuro. Já aqui no Pará, com as comunidades da TI Kayapó, o projeto trabalha a biodiversidade das plantas com a antropóloga Cláudia Lopes, com a etnobotânica Márlia Coelho, entre outros. Então, a gente conseguiu com Vozes da Amazônia Indígena reunir um grupo de pesquisadores comprometidos com histórias longas nesses territórios”, disse.

Helena Lima destacou também que os três territórios são de elevadíssima biodiversidade e com histórias culturais muito diferentes, muito diversas e muito complexas. “Nós acreditamos que, ao integrar um conhecimento contextualizado da região do alto Xingu (com o povo Kuikuro), com a Terra Indígena Kayapó (no médio Xingu) e com os povos do alto rio Negro, podemos, juntos com pessoas da academia, construir novas formas de criar conhecimento e, possivelmente, novas pontes e novos caminhos para pensar preservação, medidas de mitigação para o contexto que nós vivemos hoje, de vários desafios, de mudanças climáticas conectadas às questões políticas e à nossa legislação ambiental”, destacou.

A coordenadora do projeto acredita que essa união entre academia e ciência indígena vai trazer outros benefícios, tanto para a preservação nos territórios, quanto nas cidades amazônicas, como Manaus, Belém, Santarém, que podem aprender com o conhecimento ancestral e milenar. “O projeto Vozes da Amazônia Indígena busca justamente colocar essas vozes, amplificar essas vozes que são locais, são contextuais, mas que têm importância e têm significado para o planeta, no contexto de mudanças climáticas”, diz. 

Um mosaico de florestas culturais

Os pesquisadores do “Vozes” enxergam o conhecimento das comunidades indígenas sobre a biodiversidade como uma potencialidade para o estudo interdisciplinar, à medida que entendem que esses lugares são o resultado de milênios de interação entre povos e ambiente. “A floresta que se forma nessas regiões é um mosaico de florestas culturais, uma floresta que nasce biodiversa, justamente dessas interações de povos, de comunidades com o ambiente, ao longo de gerações, de séculos e de milênios de ocupação indígena”, ratificou Helena Lima.

Nessa perspectiva, o projeto, segundo a pesquisadora, tem cinco objetivos principais: inventariar e mapear a biodiversidade, conhecer essa biodiversidade em relação aos conhecimentos indígenas, pensar nisso na longa duração, unir esses conhecimentos para pensar em estratégias de conservação e de socialização e divulgar o acesso a esses conhecimentos.

Duas mulheres montam área de escavação de sítio, observadas por pessoas indígenas
Pesquisadora e bolsista indígena do Vozes preparam área para escavação de sítio durante expedição no ano passado (Laryssa Gaynett/Projeto Vozes)

Demandas das comunidades indígenas

“O propósito do projeto é construir em conjunto, é coconstruir esse conhecimento, de maneira que o projeto seja relevante para as comunidades, que atenda também a demandas (muitas vezes, bem específicas) que as comunidades trazem. Uma questão observada em quase todas as comunidades com as quais temos trabalhado é a demanda por materiais de divulgação que sejam produzidos nas línguas indígenas, que possam ser usados na educação escolar indígena, que possam transmitir conhecimentos que os mais velhos carregam e levar isso para as futuras gerações”, pontua Helena Lima.

Segundo ela, essa é uma preocupação comum aos envolvidos no projeto. Uma das formas de materializar essa contribuição é o investimento em dicionários temáticos, como o produzido no alto Xingu, sobre cultura material, o primeiro volume do dicionário Kuikuro-Português: Inhanhingü (obra, artefato, artesanato), viabilizado por meio de uma parceria entre o Museu Goeldi e o Museu Nacional/UFRJ. “Estamos agora trabalhando no dicionário de conhecimento das plantas e outros possíveis materiais, em mapas interativos indicando os lugares e os significados, as histórias, as narrativas e as formas de respeito que cada um desses lugares demanda. Então, há uma diversidade de produtos que vêm se desenvolvendo para atender as demandas das comunidades”, frisou.

A pesquisadora destacou que, além dessas realizações em curto e médio prazo, a pesquisa colaborativa também foca nos resultados em longo prazo: “São resultados que vêm transformar a ciência, transformar nossa universidade, transformar nossa forma de construir conhecimento. Se as ciências ocidentais se desenvolveram dentro de uma altíssima especialização, com caixinhas cada vez mais profundas e menores, há um movimento de retorno e de reintegração dos conhecimentos. E eu vejo, na forma de construir conhecimento com povos indígenas, tanto essa profundidade de conhecimento como também a amplitude. A gente tem muito a aprender e também a trocar e a ensinar, há técnicas, metodologias, equipamentos que a gente consegue colocar nas mãos dos bolsistas, dos pesquisadores indígenas. Precisamos entender o que eles querem mapear. Não é a gente chegar com a proposta de mapear aquilo ali. É o contrário. Nós temos um time de pessoas absolutamente comprometidas com as demandas de cada um desses povos”, afirmou. 

Grupo de nove pessoas, homes e mulheres, alguns indígenas, posam para foto á beira de rio
Parte da equipe do Projeto Vozes da Amazônia Indígena em uma das atividades de campo na Terra Indígena Alto Rio Negro, realizada nesse primeiro ano de execução (Laryssa Gaynett/Projeto Vozes)

O projeto: mais de um ano de colaboração

O projeto  “Vozes da Amazônia indígena: processos históricos da  sociobiodiversidade frente aos desafios do Antropoceno” é apoiado pela iniciativa Amazônia +10, por meio do edital “Expedições Científicas" – que é uma parceria entre os conselhos nacionais de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) –, no qual o projeto foi aprovado em primeiro lugar. A pesquisa recebe apoio financeiro da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa); da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), em parceria com o Museu da Amazônia (Musa); da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj); e do UK Research and Innovation (UKRI), órgão público do Reino Unido que financia pesquisas.

Com vigência de 36 meses e atividades iniciadas em 26 de fevereiro de 2025, o projeto completou, há três meses, um ano de execução. Os coordenadores estimam que milhares de pessoas, de alguma forma, serão afetadas pelas ações desenvolvidas no âmbito do projeto, seja nas universidades e instituições de pesquisa, como também nos três territórios. O projeto prevê oficinas nas comunidades e uma exposição ao final que deve alcançar um público abrangente.

Parcerias institucionais

A pesquisa incorpora estudos arqueológicos e históricos por meio de arqueobotânica, zooarqueologia,  geoarqueologia, paleoecologia e análise de coleções históricas, visando compreender a longa duração das interações humanas com o ambiente. O projeto nasce, desde sua concepção, de parcerias interinstitucionais. Algumas das instituições que se envolveram diretamente nas atividades de 2025, desenvolvidas nas terras indígenas Alto Rio Negro e Xingu foram: 

1 – Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) 

2 – Museu da Amazônia (Musa) 

3 – Associação Indígena Kuikuro do alto Xingu (AIKAX) 

4 – Associação Indígena Baniwa e Koripako (Nadzoeri) 

5 – Federação dos Povos Indígenas do alto Rio Negro (FOIRN) 

6 – Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ)  

7 – Universidade de São Paulo (USP)  

8 – Universidade Federal do Pará (UFPA) 

9 – Universidade Federal de Brasília (UNB)  

10 – Royal Botanic Gardens Kew

11 – Birkbeck, University

12 – University College of London

13 – Nottingham University 

14 – Jardim Botânico Rio de Janeiro

15 – Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) 

Articulação com outros projetos
1 – GEF – Entre Ciências: territórios de saber em diálogo, coordenado pelo Ministério da  Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com o Ministério dos Povo Indígenas (MPI) e Ministério do  Meio Ambiente (MMA), e desenvolvido pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e Rede Nacional  de Ensino e Pesquisa (RNP). 

2 – Conexões Amazônicas, aprovado no  Edital Pro-Amazônia do CNPq e coordenado pela pesquisadora Ana Vilacy Galucio, do MPEG. Prevê a  documentação e revitalização de línguas e culturas indígenas.

3 – Diagnóstico e Documentação Sociolinguística das línguas Baniwa e Koripako, desenvolvido pela Universidade Federal de Brasília (UNB) com apoio financeiro do Instituto do Patrimônio  Histórico e Artístico Nacional (Iphan). 

Produção de texto e edição da reportagem: Andréa Batista
Revisão: Erika Morhy e integrantes do projeto que foram fontes na matéria

Categorias
Educação e Pesquisa
Tags:Pará
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