Rede Bioamazonia: Museu Goeldi e mais sete institutos firmam cooperação para ampliar pesquisa colaborativa
Assinatura de memorando de entendimento oficializa e dá escala à aliança científica entre instituições públicas de cinco países. Além de fortalecer a capacidade regional de gerar conhecimento, a colaboração contribui com evidências para as decisões sobre o futuro da Amazônia.

Agência Museu Goeldi com Rede Bioamazonia – Após dois anos de trabalho conjunto, oito das principais instituições públicas de pesquisa da Pan-Amazônia assumiram um compromisso de longo prazo para consolidar uma agenda científica compartilhada. O Memorando de Entendimento (MoU), assinado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e por mais sete institutos-membros da Rede Bioamazonia, estabelece um marco de cooperação que permitirá ampliar a pesquisa colaborativa, compartilhar capacidades e produzir conhecimento a partir do território, contribuindo para as políticas públicas da região.
Criada em 2024, a Rede Bioamazonia reúne, além do Museu Goeldi, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, o Instituto Amazónico de Investigaciones Científicas (Sinchi), o Instituto de Investigación de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt, o Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana (IIAP), o Instituto Nacional de Biodiversidad del Ecuador (Inabio) e o Instituto de Ecología da Universidad Mayor de San Andrés (IE-Umsa). Juntas, essas oito instituições científicas públicas têm uma longa trajetória em pesquisa, inovação e geração de conhecimento sobre a biodiversidade e os ecossistemas amazônicos.
Essas instituições colocam em comum uma capacidade científica construída ao longo de décadas. A partir da Bolívia, do Brasil, da Colômbia, do Equador e do Peru, a Rede Bioamazonia busca conectar pesquisadores, conhecimentos e territórios para construir uma agenda científica comum, capaz de olhar para a Pan-Amazônia como um sistema compartilhado. A Rede surgiu com o apoio técnico e financeiro do Programa Amazônia Sempre, do Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (Grupo BID), com o objetivo de fortalecer o intercâmbio científico, a mobilidade de pesquisadores e o desenvolvimento de projetos colaborativos na região.
Desde então, a colaboração vem assumindo formas concretas. Existem projetos conjuntos de pesquisa e transferência tecnológica, iniciativas de bioeconomia, intercâmbio de metodologias e capacitação de pesquisadores, além de parcerias com outras redes e organizações que ampliam o alcance das atividades da Rede. A assinatura do MoU surge a partir desse processo de trabalho e estabelece um marco institucional para que essas experiências possam se repetir, ampliar-se e consolidar-se ao longo do tempo.
Transferência de tecnologias
Uma das expressões mais concretas dessa cooperação está nos projetos de transferência de tecnologia ligados à bioeconomia. Com o apoio do Grupo BID, os institutos estão trabalhando com tecnologias desenvolvidas para aproveitar os frutos da biodiversidade amazônica, como o cupuaçu, o buriti (aguaje) e o camu-camu. O conhecimento desenvolvido em um instituto pode ser transferido para outro território, onde pesquisadores e equipes locais trabalham com produtores, associações, comunidades e pequenas empresas para adaptar e aplicar essas tecnologias às suas próprias condições – uma lógica que amplia a escala do que cada instituição pode disponibilizar para a região.
Vale destacar que os projetos de bioeconomia da Rede Bioamazonia são desenvolvidos a partir de métodos e tecnologias gerados por meio da pesquisa científica, que permitem investigar, processar e aproveitar os ativos, os frutos e as plantas da floresta para gerar produtos com maior valor agregado e potencial comercial. Dessa forma, essas iniciativas buscam contribuir para a conservação da floresta, por meio de alternativas econômicas sustentáveis e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade de vida das comunidades que dependem desses recursos. Essas tecnologias possibilitam, por exemplo, a obtenção de ativos e outros derivados, como a manteiga de cupuaçu, o corante e o óleo de buriti, que podem ser utilizados pela indústria cosmética na fabricação de cremes, hidratantes e sabonetes.
Novas pesquisas
As colaborações entre os institutos também estão ocorrendo na concepção de novos projetos de pesquisa científica, com a participação de diversos pesquisadores e institutos, ampliando o alcance, a multidisciplinaridade e o intercâmbio de conhecimentos, competências e recursos; no desenvolvimento de cursos de capacitação conjuntos para o uso de tecnologias aplicadas à pesquisa da biodiversidade; e na construção de alianças estratégicas mais amplas, como a firmada com a Aliança Águas Amazônicas, uma iniciativa colaborativa para a conservação e o estudo dos ecossistemas aquáticos amazônicos, na qual a Rede tem uma participação muito ativa; e o curso de Manejo Integrado do Fogo, realizado em parceria com o Icraf-Cifor, que reuniu pesquisadores científicos, instituições públicas, organizações sociais, povos indígenas e comunidades locais.
No que diz respeito ao desenvolvimento de programas de capacitação conjunta em tecnologias, destaca-se o curso sobre Espectroscopia NIR (Near-Infrared) no reconhecimento da biodiversidade, previsto para 2026 e destinado a pesquisadores dos institutos-membros, que abordará os princípios teóricos e práticos para a aplicação dessa tecnologia à pesquisa sobre biodiversidade na região. Além dos fundamentos da técnica, o curso incluirá o uso dos principais equipamentos e programas de análise, com exercícios práticos no espectrômetro portátil de baixo custo. Os participantes aprenderão a projetar e realizar coletas espectrais, organizar e analisar os dados e aplicar diferentes ferramentas estatísticas para a identificação e a caracterização de organismos biológicos. O curso visa, além disso, aproximar pesquisadores e instituições e estabelecer as bases para o compartilhamento de conhecimentos, dados e metodologias, fortalecendo a colaboração científica dentro da Rede.
A diversidade da própria Amazônia torna essa capacidade de conexão e colaboração especialmente relevante. Na Pan-Amazônia, coexistem grandes cidades e pequenos núcleos populacionais, florestas e ecossistemas diversos, territórios indígenas e áreas de intensa transformação produtiva, além de instituições científicas e comunidades com conhecimentos milenares. Também existem diferenças entre países, sistemas de pesquisa, idiomas e capacidades técnicas. Uma rede que conecte instituições inseridas nesses diferentes contextos pode ampliar a visão de cada uma delas e gerar espaços para comparar experiências, adaptar soluções e construir conhecimento com maior alcance regional.
Nesse processo, o território ocupa um lugar central. As instituições que integram a Rede mantêm uma presença contínua na Amazônia e trabalham com comunidades locais, povos indígenas, governos, organizações sociais e outros atores que participam da gestão dos territórios. O conhecimento científico, assim, convive e dialoga com saberes ancestrais, com experiências produtivas e com processos de ciência participativa. Essa proximidade permite que as questões de pesquisa e as soluções propostas incorporem as condições concretas nas quais serão aplicadas.
Compartilhar dados, metodologias, infraestrutura e capacidades permite formar pesquisadores conjuntamente e desenvolver projetos capazes de atrair financiamento regional. Também abre novas possibilidades para compreender melhor fenômenos que atravessam fronteiras, como a mobilidade de espécies, as ameaças à biodiversidade e os impactos ambientais.
Formalização de compromisso
O Memorando de Entendimento (MoU) formaliza agora esse compromisso entre os oito institutos e estabelece mecanismos para garantir sua continuidade. O acordo prevê pesquisa conjunta, intercâmbio de pesquisadores e pessoal técnico, capacitação, transferência de conhecimento e tecnologias, geração de contribuições para políticas públicas e a criação de um comitê de acompanhamento com representantes das instituições, encarregado de planejar e acompanhar as atividades da Rede.
A cooperação já está produzindo resultados. O MoU cria o marco institucional e fornece uma estrutura comum para ampliar essas colaborações, abrir novas frentes e dar continuidade a uma agenda científica de longo prazo. Para os institutos, isso também abre novas possibilidades de apresentar projetos regionais, mobilizar recursos, compartilhar infraestrutura e conhecimento especializado e ampliar o alcance de pesquisas que, se desenvolvidas de forma isolada, teriam uma escala mais limitada.
O objetivo fundamental é construir uma capacidade científica regional conectada aos territórios onde os desafios são identificados e de onde as soluções são propostas. Em uma Amazônia diversificada, extensa e marcada por realidades ecológicas, sociais e econômicas distintas, a possibilidade de conectar quem pesquisa, conhece e trabalha nesses territórios pode se tornar uma ferramenta para produzir evidências mais completas e contribuir para decisões públicas mais bem informadas.
Campanha "A Amazônia se pesquisa em rede"
A Rede Bioamazonia iniciou, na semana passada, uma campanha de divulgação juntos aos seus institutos-membros, com o objetivo de mostrar quem a compõe, o que é pesquisado e como estão sendo construídas novas formas de cooperação científica na Pan-Amazônia. As peças estão sendo divulgadas nos canais institucional da Rede e dos institutos. Saiba mais AQUI.
Texto: Assessoria de Comunicação da Rede Bioamazonia
Edição: Andréa Batista/Museu Goeldi
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