Rede Bioamazônia: Museu Goeldi avalia contribuições no encontro sobre ameaças na Pan-Amazônia
Além do foco central sobre enfrentamento de conflitos no bioma, pesquisadores participaram de grupos de trabalho sobre biodiversidade, bioeconomia e governança. O diretor do MPEG destaca o amadurecimento e a busca de profissionalismo da Rede para lidar com grandes missões e com a divulgação pública da ciência.

Agência Museu Goeldi – A comitiva do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) está se despedindo de Letícia, na Colômbia, com uma bagagem maior de conhecimentos, estratégias e encaminhamentos que foram discutidos na III Reunião Anual da Rede Bioamazônia. Foram cinco dias de debates e construção de uma agenda comum com foco no enfrentamento e resolução de conflitos e ameaças na Pan-Amazônia, a partir das contribuições da ciência. Além desse eixo central, o encontro – que reuniu gestores, pesquisadores e especialistas de oito institutos de pesquisa sediados em cinco países – contribuiu para o fortalecimento dessa agenda comum em mais três direções: conhecimento da biodiversidade, bioeconomia e governança.
O diretor do Museu Goeldi, Nilson Gabas Júnior, ressaltou que essa terceira reunião dos comitês científico e executivo da Rede marcou o amadurecimento do grupo criado em 2023. Além das discussões mais centrais, ele ressaltou o esforço que os dirigentes estão implementando para estruturar melhor a rede, dotando-a de um maior profissionalismo. Sobre isso, ele levantou três pontos: a formalização da pessoa jurídica da Rede, a elaboração de um planejamento estratégico voltado às missões e o fortalecimento da divulgação científica. “O encontro implica mais profissionalismo da Rede, no sentido, primeiro, de dar-lhe o aspecto jurídico, buscando uma forma legal de autonomia (porque são vários países representados), a fim de conseguirmos aplicar recursos internacionais para manter o trabalho. Essa discussão mostra que as oito instituições estão à vontade, sedimentadas e fortes para continuar avançando”, disse.

Gabas Júnior também destacou que o planejamento estratégico da Rede voltado para missões busca estabelecer quais são as prioridades que se colocam neste momento e como atendê-las. “Serão grandes missões que envolvem oito instituições da Amazônia, e eu acho que isso é um ganho para a Rede, porque propomos realizações em maior escala do que faríamos isoladamente, como centros ou institutos de pesquisa”, destacou. Sobre o terceiro aspecto dessa busca pelo profissionalismo, ele afirmou: “Em relação às estratégias de comunicação que estamos buscando, é muito gratificante ver que o componente da comunicação científica e da comunicação daquilo que a gente faz precisa ser levado para os diferentes atores, para os diferentes públicos, e isso só se alcança com profissionalismo. Isso foi entendido pelos diretores, por todos os membros das instituições que formam a Rede, e estamos também profissionalizando a área de comunicação e divulgação científica”.
Nessas discussões, o diretor do Museu Goeldi ressaltou a participação dos integrantes da instituição na reunião. “Cada um, individualmente, na sua área de atuação, contribuiu para as discussões que se fortaleceram em todos os grupos de trabalho realizados”, disse, ressaltando as contribuições dos pesquisadores Marlúcia Martins, principalmente, na articulação de pesquisas de biodiversidade; de Sue Costa, no GT das capacitações para divulgação da ciência; de Alberto Akama, discutindo a ameaça do mercúrio para os peixes; de Diana Rodrigues, contribuindo com sua expertise em tecnologias sociais no GT sobre bioeconomia. “Avalio que houve um ganho exponencial dessa participação do Museu na reunião, no sentido do que a gente pode empreender em conjunto com as instituições, mas com um salto muito grande na nossa qualificação e na visibilidade da ciência feita pelo Museu”.

O desafio de integrar informações sobre a biodiversidade
A coordenadora da Pós-Graduação do Museu Goeldi, Marlúcia Martins – que acompanha as reuniões da Rede Bioamazônia desde sua implementação –, destacou que a participação de pesquisadores que acontece pelo segundo ano enriqueceu as discussões nos grupos de trabalho (GTs). “A rede tem quatro GTs: conhecimento da biodiversidade, bioeconomia, governança e ameaças. Este ano foi escolhido o tema das ameaças à biodiversidade para ser mais enfocado na reunião, mas os outros temas foram também tratados. Eu fiquei no grupo dos coordenadores de pesquisa e vice-diretores, onde estamos trabalhando um programa para a Rede, usando a metodologia de orientar as atividades por missão e para chegar a essa missão nós estamos então levantando desafios, questionamentos e também capacidades institucionais, possibilidades e potencialidades de integração de temas, desejos e interesses das instituições e dificuldades também, de forma que a gente possa atuar de maneira integrada e complementar”, explicou.
A pesquisadora relatou que a sua contribuição foi mais na oficina sobre o desafio do conhecimento e da conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos. “Foi bem proveitoso. Identificamos como o principal desafio a integração da informação, porque temos informação nos diversos países, mas elas não conversam entre si. Então trabalhamos muito na direção de integrar as coleções, de tornar os dados interoperáveis, de forma que os registros conversem entre si e que a gente consiga fazer sínteses melhores da informação; mas também de coletar os metadados, os desenhos experimentais, ter o cuidado de padronizar e também de documentar toda a forma de coleta, para ter comparabilidade entre as informações e, com isso, avançar”, informou.
Marlúcia Martins também justificou a necessidade de ter dados robustos sobre a biodiversidade, porque são base para as ações. “Nós não vamos desenvolver produtos usados pela sociedade amazônica e, eventualmente, a sociedade em geral, se a gente não conhecer bem essas espécies, como e onde estão distribuídas, o grau de raridade e sua biologia. Precisamos do conhecimento da biodiversidade para diversificar, para aumentar o nosso portfólio de produtos. Se a gente pensar nas ameaças, nós precisamos conhecer a biodiversidade para defendê-la, o grau de fragilidade e de resiliência, a forma com que cada elemento responde ou tem potencial para responder ou para ser manejado, para ser mais protegido. E obviamente, pensando nos valores culturais, em como as pessoas se relacionam com a biodiversidade e como ela se relaciona com as pessoas, precisamos trocar saberes com as populações que, há milhares de anos, se relacionam com essa biodiversidade, amplificam, redistribuem, reorganizam. Então, essa é a ideia, fortalecer na Rede o conhecimento da biodiversidade através da integração de informação”, resumiu.
Intercâmbio entre curadores de coleções e divulgação científica
A coordenadora de Comunicação e Extensão (Cocex/MPEG), Sue Costa, que integrou o GT sobre capacitação, avaliou que o trabalho resultou em proposições de capacitações para os membros da rede, de uma forma a unificar alguns conhecimentos e também de trocar informações. “Finalizamos a elaboração de duas capacitações que já haviam sido aprovadas na reunião anterior, mas que precisavam ser melhor detalhadas, orçadas e, após isso, aprovadas pelos diretores. Elas vão acontecer este ano. Também propomos novas capacitações referentes a todas as frentes em que atua a Rede Bioamazônia. Gostaria de dar destaque a uma delas, em que o Museu Goeldi propôs como coordenador (ainda precisa ser aprovada pelo Comitê dos Diretores), que é referente a coleções biológicas, pois é um tema considerado muito importante dentro da Rede. O Museu é a instituição que mantém a maior coleção, com maior quantitativo de espécimes, de patrimônios registrados, de uma forma geral. A ideia é que a gente possa fazer cursos entre os diferentes curadores das coleções dos institutos e que também possa haver intercâmbio entre curadores para a qualificação de acervos”, previu.
Além disso, Sue Costa relatou que foram propostas capacitações na área de bioeconomia e também sobre comunicação e divulgação científica. “O evento foi muito interessante, foi uma possibilidade única de a gente trocar informações entre diferentes institutos que têm missões muito semelhantes para a Amazônia. Todos estavam direcionados a tentar encontrar uma agenda comum para potencializar as pesquisas dentro da Pan-Amazônia. É interessante também poder perceber que existem semelhanças entre os desafios, entre as soluções que os institutos encontram para executar da melhor forma possível a sua atuação, mas que também existem muitas diferenças. Então, a gente também consegue aprender uns com os outros. Foram vários dias de reuniões entre reuniões do GT, mas também reuniões grandes das delegações para conseguir construir missões comuns dentro da rede, enumerar e encontrar as prioridades dessas missões dentro da rede, porque essas diretrizes vão ajudar as tomadas de decisões para que projetos e investimentos possam ser feitos”, ressaltou.
Estudo para mapear contaminação de mercúrio na bacia amazônica
Pesquisador da área de ictiologia (estudo científico dos peixes) do Museu e um dos painelistas do evento, Alberto Akama fez sua segunda participação em reuniões anuais da Rede Bioamazônia. Segundo ele, no primeiro ano, integrou o grupo de trabalho sobre conflitos e ameaças, quando houve a oportunidade de discutir vários problemas e levantar pontos de discussão, resultando em uma nota conceitual dos conflitos e ameaças na Pan-Amazônia. “Para esta reunião me solicitaram uma fala sobre os problemas relacionados com grandes empreendimentos e eu foquei basicamente no tema hidrelétricas na Amazônia e na Pan-Amazônia, nos seus impactos conhecidos, em muitos que ainda a gente não conhece e que são uma surpresa desagradável”, disse.
Além dessa fala inicial, de acordo com Akama, para este encontro também havia uma pauta pré-definida no ano passado para abordagem dos vários projetos possíveis de financiamento pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). “Focamos no tema do mercúrio, de estudar os impactos e as alterações decorrentes da contaminação de mercúrio ao longo da bacia amazônica como um todo, não só na parte brasileira, mas toda a Pan-Amazônia. Estamos acabando de finalizar também a documentação sobre quem vai gerir os dados, fazer a gestão dos dados. Acabamos um projeto que vai ser submetido ao BID para iniciar esse processo, primeiro fazendo uma síntese dos impactos e das ameaças do mercúrio sobre a PanAmazônia e, depois, (esse é um projeto escalável), a gente vai então começar realmente tentar ver os vazios de informação, tanto espacial como temporal, para ter um monitoramento constante em alguns pontos da Amazônia, e que permita, então, a gente avaliar com maior precisão os possíveis problemas causados pela contaminação do mercúrio”, expôs.
Ele acrescentou, ainda, que há uma abertura da Rede para novos projetos relacionados à questão dos conflitos e das ameaças ambientais e sociais. “Eu faço essa distinção entre ‘ambientais’ e ‘sociais’, porque, muitas vezes, os impactos são sociais mesmo, e outras vezes são socioambientais, e outras vezes são mais ambientais. E isso, então, a gente tem que pensar de uma maneira para integrar ou não, para analisar de forma compartimentabilizada”, explicou, destacando que o assunto merece uma discussão mais aprofundada.

Mapeando soluções tecnológicas a partir dos territórios
Tecnologista do Museu Goeldi, a pesquisadora Diana Rodrigues, que atua na temática de tecnologias sociais, participou pela primeira vez do encontro da Rede BioAmazônia, como membro do grupo de trabalho em bioeconomia. Segundo ela, o GT tinha como objetivos definidos atualizar e compartilhar os avanços dos projetos que deverão ser financiados pelo BID, entre os quais está o projeto do MPEG para elaboração e formulação de um xampu carrapaticida, que tem à frente a pesquisadora Cristine Amarante.
“Nós tínhamos que propor projetos colaborativos enquanto Rede. Propomos dois eixos-projetos temáticos, um voltado para o que se chamou de sistema territorial integrado para bioeconomia, que é pensar uma bioeconomia a partir de territórios amazônicos. Ou seja, não pensar a bioeconomia a partir de um determinado bioativo para desenvolver e ganhar escala, mas pensar bioeconomia a partir da lógica de cada território, mapear de forma participativa o que aquele território tem de interesse esse potencialidades e, a partir daí, construir ou coconstruir, cocriar com as pessoas daquela comunidade os processos ou produtos de bioeconomia”
Sobre a segunda proposta, Diana Rodrigues explicou que está focada na integração de processos de bioprospecção para aproveitar o que cada instituição da rede já tem trabalhado (praticamente todas as instituições trabalham também com bioprospecção) para fazer uma integração de base e trabalhar com inteligência de dados e informações sobre essas bases.
A pesquisadora também informou que o GT discutiu e propôs regras para a segunda convocação de projetos para financiamento pelo BID, cuja chamada é direcionada a conhecimentos, tecnologias, ou processos. “Antes de discutir esse objetivo, fizemos uma rodada de aprendizagens e discussões no grupo sobre o processo da primeira chamada. Como o grupo, de forma geral, está com dificuldade para fazer transferência tecnológica, já que a lógica da primeira chamada foi a seleção de produtos que os institutos já tinham disponíveis para transferência, que é o que a gente chama do modelo ofertista (selecionar a partir da oferta) e, devido às dificuldades de identificar organizações, empresas, associações cooperativas, um dos aprendizados foi a necessidade de a gente direcionar mais pela demanda do que pela oferta das instituições. Discutimos qual é a demanda dos territórios, os problemas que eles têm e que podem ser solucionados com tecnologias que existem nos institutos”, destacou.
Diana Rodrigues disse que a proposta do GT foi, então, no sentido de, em vez de selecionar ou pré-selecionar produtos a partir do que cada instituto tem como oferta, propor um cronograma, a partir da identificação de problemas em cadeias-chaves que cada instituto de pesquisa tem. “Nós teremos um mês para construir e, a partir disso, os institutos, de forma cruzada, analisarem os problemas e verificarem se tem soluções para eles e proporem seus produtos. A partir dessa polinização cruzada, dessa identificação de problemas em cadeias e possíveis produtos é que a gente vai encaminhar para o comitê diretor tomar a decisão de quais serão os três produtos a serem selecionados para fechar essa etapa de seleção de oito produtos com, pelo menos, 400 beneficiários”, disse.
Além dessas discussões no GT, o diretor do Museu Goeldi pediu para que a tecnologista, que é especialista em tecnologias sociais, apresentasse aos diretores da Rede o conceito de tecnologia social desenvolvido no Brasil. “Isso para que a gente pudesse fazer um alinhamento de entendimentos sobre o que é tecnologia social, de forma que os demais institutos latino-americanos que fazem parte dos estudos da Pan-Amazônia identificassem se fazem ou não fazem um processo de desenvolvimento tecnológico cocriado com comunidades ou grupos sociais amazônicos, com o objetivo de uma democratização tecnológica”, afirmou Diana Rodrigues.
Texto: Andréa Batista
Revisão: Carla Serqueira
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