Pesquisas do Museu Goeldi conquistam Prêmio Intercom de Comunicação para a Transformação Social
Maior evento de Ciências da Comunicação no Norte do país premia duas das pesquisas desenvolvidas na instituição em meio às 204 concorrentes de toda a região. O resultado destaca o investimento do Museu Goeldi no campo da comunicação, divulgação e popularização da ciência.

Agência Museu Goeldi – Duas pesquisas desenvolvidas no âmbito do Laboratório de Comunicação Pública da Ciência na Amazônia (LabCom), vinculado ao Serviço de Comunicação Social (Secos) do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), foram contempladas com o Prêmio Intercom de Comunicação para a Transformação Social durante o 23º Congresso de Ciências da Comunicação na Região Norte (Intercom Norte 2026), realizado online entre os dias 27 e 29 de maio. O resultado foi anunciado na cerimônia de encerramento, transmitida ao vivo pelo canal oficial do evento no YouTube.
Promovido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), o prêmio destaca trabalhos acadêmicos capazes de articular excelência científica, relevância pública e potencial de transformação social. O LabCom recebeu prêmios na modalidade “Pesquisa”. Na categoria “Graduação”, foi premiado o artigo “Câmaras de Eco e Plataformização: a dinâmica das agências de notícias e a uniformização do relato digital na cobertura da COP-30”, de autoria da estudante de jornalismo da Universidade Federal do Pará (UFPA) e estagiária do MPEG, Anna Luiza Rodrigues, com coautoria e orientação do pesquisador líder do LabCom, Tarcízio Macedo. O trabalho analisou os impactos da plataformização e do imediatismo digital no contexto da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), realizada em Belém, entre os dias 11 e 25 de novembro de 2025.

O objeto do estudo foi a circulação de notícias sobre o Museu Goeldi no período do evento. A pesquisa identificou 1.148 notícias em um mês – número recorde para a instituição – e investigou como a lógica das agências de notícias e das plataformas digitais produz a uniformização narrativa na divulgação científica. Segundo o estudo, a velocidade da circulação informacional nas plataformas digitais amplia a visibilidade institucional, mas tensiona a diversidade discursiva e a autoria jornalística. A pesquisa propõe uma reflexão sobre os desafios contemporâneos da comunicação da ciência em contextos de alta circulação midiática, de eventos globais e de plataformização da divulgação científica.

Já na categoria mestrado, o prêmio foi concedido à pesquisa “Arquitetura da escuta: UX Design e Co-Criação no desenvolvimento do acervo digital do projeto ‘A Ocupação pré-colonial de Monte Alegre’”, da mestranda pela UFPA e bolsista do Programa de Capacitação Institucional (PCI) no MPEG entre novembro de 2025 e março de 2026, Ana Paula Alencar. O estudo foi realizado em coautoria com a estudante de jornalismo da Universidade da Amazônia (Unama) e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBICTI), Gabriela Moura, e com a chefe do Secos, Sâmia Batista, também responsável pela orientação do estudo.
O trabalho abordou o desenvolvimento da interface digital do projeto “A ocupação pré-colonial de Monte Alegre (AMA)”, iniciativa vinculada ao Museu Goeldi, dedicada à arqueologia amazônica. A pesquisa articulou UX Design, cocriação e jornalismo científico para pensar a democratização do acesso ao patrimônio arqueológico amazônico. Com base em metodologias colaborativas, o estudo propôs uma “arquitetura da escuta” com o intuito de transformar acervos científicos em narrativas acessíveis e em interfaces voltadas à circulação pública do conhecimento. O trabalho também discutiu o papel do design e da divulgação científica no enfrentamento de assimetrias informacionais e no silenciamento de saberes amazônicos.
As pesquisas foram apresentadas no Grupo de Trabalho (GT) Comunicação, Divulgação Científica, Tecnologias e Design na Amazônia, proposto e coordenado pelos pesquisadores do LabCom, Tarcízio Macedo e Sâmia Batista. O grupo reuniu pesquisas teóricas, empíricas e prático-experimentais voltadas às relações entre comunicação, ciência, tecnologia, design e sociedade, com especial atenção aos contextos amazônicos e aos desafios da circulação pública do conhecimento em realidades marcadas por desigualdades epistêmicas, socioambientais e comunicacionais. Em sua 23ª edição, o Intercom Norte teve como tema central “Educação midiática e saberes plurais em uma geopolítica da Amazônia”, reunindo pesquisadoras, pesquisadores, estudantes e profissionais dos sete Estados da região. O evento registrou recorde de participação, com aproximadamente 540 inscritos e 355 trabalhos submetidos, dos quais 204 concorreram ao prêmio, distribuídos em 26 GTs.
Com a palavra, as premiadas
Anna Luiza conta como recebeu a notícia da premiação. “Estava com meus amigos em casa, me preparando pra uma sessão de cinema e, de repente, começaram a gritar e a comemorar, chamando meu nome. Fiquei sem reação. Realmente não estava esperando”, declara Para a estudante, o fato de Belém ter sido a sede da COP-30 favorece a produção científica na região amazônica. “Apesar da Faculdade de Comunicação da UFPA ser a mais antiga da Amazônia, ela só tem 50 anos. Então, quando alunos de Comunicação são estimulados a pesquisar e a submeter seus trabalhos em congressos, estão contribuindo para a ‘base de dados’ da comunicação amazônida, ainda mais agora, com a ‘Amazônia em alta’ graças à Conferência. Não tem melhor hora para produzirmos trabalhos falando de nós, como primeira pessoa do discurso e não como objetos de estudo”.

Ana Paula Alencar celebrou a conquista valorizando a experiência multidisciplinar que o projeto premiado promoveu. Ela agradeceu a confiança que recebeu da colega Gabriela Moura e a orientação da Sâmia Batista para desenvolver o trabalho. “Saber que, num congresso de uma área tão distinta da minha (a comunicação), o projeto que desenvolvi foi considerado de tamanha relevância e que há desejo de conhecer, por parte de outros pesquisadores, aquilo pelo que eu me interesso, foi uma virada de chave. Eu desejo, a partir desta conquista, me aprimorar mais, buscar aprender e mergulhar mais profundamente na ciência, especialmente agora que estou passando pelo mestrado, já que futuramente me tornarei alguém que partilhará essa paixão com os outros”, relata.

Gabriela Moura destaca a importância da produção em rede. “É muito gratificante ter esse trabalho reconhecido, especialmente por se tratar de uma pesquisa construída em rede, que envolve diversas pessoas e contribuições. O prêmio representa não apenas uma conquista acadêmica, mas também o resultado de um trabalho coletivo que reuniu diferentes áreas do conhecimento para promover uma divulgação científica de qualidade”, afirmou, reforçando o incentivo que recebe enquanto bolsista do MPEG. “Estar presente no Museu Goeldi tem sido uma experiência muito enriquecedora. A instituição me incentiva constantemente a me desenvolver como profissional do jornalismo, ao mesmo tempo em que me proporciona o contato com pesquisadores e profissionais de diferentes áreas, ampliando minha visão sobre a produção e a comunicação do conhecimento científico”,
Para a coordenadora de Comunicação e Extensão (Cocex) do Museu Goeldi, Sue Costa, as premiações validam e fortalecem o projeto de potencializar a comunicação das ciências amazônicas como ferramenta estratégica da instituição. “A pesquisa é, sem dúvida, um dos pilares dessa construção. Mas o ciclo só se completa quando esse conhecimento chega à sociedade de forma clara, crítica e acessível. É nesse ponto que a Cocex tem um papel estruturante: para além de divulgar resultados, ela integra estudantes, estagiários e pesquisadores, formando uma nova geração que entende a ciência não só como produção de dados, mas como diálogo público. Assim, as premiações reconhecem não apenas pesquisas isoladas, mas um ecossistema institucional onde ciência, comunicação e formação caminham juntas para impactar para além da sociedade amazônica”, aponta.
Pesquisadora e chefe do Secos, Sâmia Batista também celebrou o reconhecimento das pesquisas na área da comunicação do Museu Goeldi. “Os prêmios são muito significativos porque refletem a realidade de que o conhecimento técnico não está apartado da reflexão teórica. Todos os trabalhos submetidos demonstram que os desafios de se fazer comunicação pública da ciência estão alinhados com questões sociais, ambientais, econômicas, porque falam da precarização do trabalho do jornalista, da necessidade de humanizar as tecnologias, sobre a relação dos públicos com o Museu Goeldi, e, por fim, da própria ciência como prática de reflexão sobre a Amazônia. Então, essa premiação vem como um estímulo para que bolsistas, estagiários e pesquisadores do Museu Goeldi consigam se dedicar a essa reflexão tão necessária sobre o nosso fazer cotidiano”, argumenta.
LabCom: pesquisa e popularização da ciência
O reconhecimento obtido no Intercom Norte evidencia a consolidação do LabCom do Museu Goeldi como espaço de pesquisa voltado às relações entre comunicação, ciência, tecnologia e sociedade. Há 17 anos, o laboratório dedica-se ao estudo teórico, empírico e ao desenvolvimento de práticas de comunicação, divulgação e mediação científica, com especial atenção às realidades e à sociobiodiversidade amazônicas.
Criado no final de 2009, pela jornalista Joice Bispo Santos, com recursos do primeiro edital de Popularização da Ciência do CNPQ, o LabCom vive um momento de reestruturação e consolidação de sua trajetória. Em abril deste ano, o laboratório foi oficialmente registrado como grupo de pesquisa do Museu Goeldi no Diretório do CNPq. Atualmente, há seis trabalhos de iniciação científica e tecnológica (PIBIC/PIBICT) e outros seis estudos PCI em desenvolvimento, todos financiados pelo CNPq.
“A premiação também é o resultado desse movimento do Museu Goeldi de fortalecimento da pesquisa em comunicação, divulgação e popularização da ciência, possibilitado pela ampliação do quadro de servidores da Coordenação de Comunicação e Extensão (Cocex) após 12 anos sem concursos públicos”, aponta Joice Santos, que coordena os projetos experimentais do LabCom.
De acordo com a jornalista, sendo o LabCom um medialab [laboratório de pesquisa transdisciplinar] e também um grupo de pesquisa, a sua produção contínua de estudos e projetos prático-experimentais é fundamental para compreender a relação entre ciência e sociedade, especialmente em contextos amazônicos. “Também é uma forma de aprimorar as atividades do Secos, já que a teoria informa a prática. Com o avanço do LabCom, dos estudos museológicos, de patrimônio, memória e educação, o Museu Goeldi se posiciona como ator importante no campo cada vez mais estratégico da comunicação e da divulgação científica”, explica Joice Santos.
Como parte desse esforço, o LabCom promoveu várias ações de incentivo à formação, à produção acadêmica e à participação de estudantes e pesquisadores em eventos científicos como o Intercom Norte. Entre as iniciativas, foram realizadas uma reunião de apresentação do congresso no dia 12/03 e uma oficina de escrita acadêmica no dia 19/03, ambas conduzidas por Tarcízio Macedo. Além disso, houve mutirões de orientação para a elaboração e submissão de trabalhos em março e abril, os dois meses que antecederam o evento. O esforço coletivo resultou na aprovação de 15 trabalhos de bolsistas, estagiários(as) e pesquisadoras(es) vinculados(as) ao LabCom no Intercom Norte.
Texto: Tarcízio Macedo e Carla Serqueira
Revisão: Erika Morhy
