Pesquisa do Museu Goeldi na Flona de Caxiuanã é destaque em painel da Rede Bioamazônia
Experiências relatadas em encontro respondem a questões que deverão ser retomadas em encontro deste sábado quando será lançada a publicação “Caminhos para a ciência pan-amazônica”
Museu Goeldi | COP30 com Ciência – Onze recomendações para integração de dados, geração de informações e gestão de conhecimentos científicos estão contidas na obra “Caminhos para a ciência pan-amazônica”, que será lançada, na manhã deste sábado (15), pela Rede Bioamazônia, no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, uma das oito instituições de pesquisa da região reunidas na frente transnacional. O documento estará disponível no portal oficial da rede e conta com as contribuições de outros três grupos de trabalho. Experiências do Museu Goeldi que respondem a algumas dessas diretrizes foram compartilhadas em painel da Estação Amazônia Sempre, promovido na manhã desta sexta-feira (14/11), parte da agenda do Parque Zoobotânico, promovida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) durante a COP30, em Belém.
Uma das experiências mencionadas pela bióloga do MPEG Ana Prudente foi o monitoramento de longa duração das interações entre solo, planta, fauna e atmosfera na Floresta Nacional (Flona) de Caxiuanã, por meio do Estudo da Seca da Floresta (Esecaflor), nas imediações da Estação Científica Ferreira Penna, uma das três bases físicas do Museu Goeldi. “O risco de extinção de espécies, no Brasil, é muito acentuado no conjunto de peixes e aves. Mas, ainda assim, novas espécies têm sido descritas todos os anos. Talvez precisemos falar mais em resiliência. O aumento do conhecimento também está ocorrendo”.
A Flona de Caxiuanã, que abrange parte dos municípios de Portel e Melgaço, no Marajó, completa 64 anos de criação no próximo dia 28, sendo a mais antiga da Amazônia brasileira e a 2ª mais antiga do Brasil. E o projeto Esecaflor realiza o seu monitoramento há 21 anos na área.
Integração de conhecimentos – Além do monitoramento de longa duração, Ana Prudente ressaltou a importância de se promover a integração dos conhecimentos produzidos. Ela lembrou que “o Museu Goeldi gera conhecimento há 159 anos e, há muitos anos, produz inventários padronizados. Esse é um dos começos para esse conhecimento que já existe”.
A pesquisadora destaca que as coleções biológicas do Museu Goedi passaram, ao longo dos últimos 20 anos, por um processo de informatização e disponibilização. “A gente faz parte de um sistema de informações da biodiversidade do Governo Federal; atuamos como um replicador dessa metodologia, onde a gente tem essas informações disponibilizadas na web para qualquer pessoa do mundo ter acesso”.
O desafio a que a Rede Bioamazônia se propõe, diz ela, é “promover a integração de dados e informações sobre a biodiversidade para a Amazônia por meio do intercâmbio transparente de capacidade e do conhecimento de instituições públicas, privadas e comunitárias da região amazônica”.
A participação das populações locais foi mencionada como chave pela pesquisadora. “Hoje, temos várias expedições científicas acontecendo com equipes do Museu Goeldi, como o projeto “Vozes da Amazônia Indígena”, em parceria com observadores indígenas e com os convidados da Cabeça do Cachorro, no Alto Rio Negro. É uma ciência participativa”, define Ana Prudente.
Lacunas de conhecimento – João Valsecchi do Amaral, diretor do Instituto Mamirauá (Amazonas, Brasil), ao abordar a emergência climática, reconheceu que, a ciência tem enfocado as variações de temperatura e de nível de água, mas não se sabe os efeitos delas sobre a biodiversidade e, sobretudo, algo que a grande imprensa tem negligenciado, diz ele, os impactos sobre as populações.
Ele diz que um conjunto de pesquisadores já descreveu efeitos extremos em escala na Amazônia. “Exemplo disso foi a seca de 2023. Nós perdemos muitas superfícies de água dos lagos amazônicos, que são importantíssimos para a reprodução das espécies, a manutenção do ecossistema, a atividade econômica das comunidades, para o acesso às cidades”, lembrou.
Nesse contexto, ele citou o Lago de Tefé, onde “nós tivemos uma redução muito grande, de 75%, do espelho d’água. Teve lago que chegou a perder 92% do espelho d’água. Hoje, a gente não consegue sequer prever qual o efeito que esse tipo de evento extremo causa sobre a biodiversidade e a ocupação humana da região”.
Efeitos de mudança do clima – Inúmeros veículos de comunicação compartilharam imagens chocantes da morte de botos, na ocasião, como fruto das altas temperaturas e da seca extrema. “Chegamos a passar 41 graus Celsius de temperatura da água, em toda a coluna d'água, de 2 metros, porque só haviam 2 metros de coluna d’água nas áreas mais profundas, com 13 graus de variação de temperatura diária. Isso teve efeitos muito chocantes sobre a população de botos, por exemplo, que foi o que mais apareceu na mídia. Mais de 330 animais morreram naquele ano, 200 mortos só no Lago de Tefé, 70 animais em um dia. Se eventos como esse acontecerem mais vezes, talvez a gente perca toda a biodiversidade que temos nesse lago”, alertou.
No entanto, algo gravíssimo foi pouco divulgado: “O efeito que esses eventos causam sobre as pessoas. A gente está tratando de isolamento completo, com falta de acesso à cidade – o que implica não ter acesso à saúde, aulas interrompidas, falta de água, falta de abastecimento, sofrer com calor intenso. A média global de 1,5 grau, na verdade, se traduz em 4 graus para a Amazônia!”.
Programação – Também participaram desse quarto painel promovido pela rede – intitulado “Abordagem integrada de conhecimento e gestão da biodiversidade na Pan-Amazônia” – Hernando García Martínez, diretor do Instituto Humboldt (Colômbia), e Nicolas Castaño, do Instituto Sinchi (Colômbia) e Emiliano Ramalho, do Instituto Mamirauá (Brasil), como palestrantes. A Bioamazônia ainda conta com uma exposição temporária no Parque do MPEG tempo
Quem visitar o Parque Zoobotânico do Museu Goeldi também poderá conferir a mostra fotográfica “Amazônia a olhos vistos”, aberta no último dia 9, na trilha próxima ao Centro de Exposições Eduardo Galvão. Os painéis ao ar livre exibem 20 imagens registradas por fotógrafos dos institutos membros da rede, com curadoria de João Valsecchi do Amaral e Miguel Monteiro, ambos do Instituto Mamirauá.
Neste sábado (15), a programação, no mesmo local, terá início às 9h30, com a discussão sobre “Caminhos para a ciência pan-amazônica”, reunindo diretores de cada um dos oito institutos da rede. Na ocasião, será feito o lançamento de publicação homônima. Haverá transmissão online pelo canal do Museu Goeldi, no Youtube.
Além do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), a rede é formada pelos institutos Amazônico de Pesquisas Científicas SINCHI (SINCHI) - Colômbia, de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (Mamirauá) - Brasil, Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) - Brasil, de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP) - Peru, Nacional de Biodiversidade (Inabio) - Equador e de Ecologia da Universidade Mayor de San Andrés (IE/UMSA) – Bolívia.
Texto: Erika Morhy
Edição: Andréa Batista
CONFIRA AS PROGRAMAÇÕES DO MUSEU GOELDI NA COP30
NO PARQUE – Presença Suíça: Chalé João Batista de Sá - Parque Zoobotânico Museu Paraense Emílio Goeldi, Av. Gov Magalhães Barata, 376 - São Braz, Belém-PA.
NO PARQUE – Estação Amazônia Sempre – Endereço: Av. Magalhães Barata, 376, São Braz, Belém (PA)
NO PARQUE – Casa da Ciência – Endereço: Av. Magalhães Barata, 376, São Braz, Belém (PA)
NO CAMPUS – Espaço Chico Mendes – Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi – Av. Perimetral, 1901 - Terra Firme, Belém (PA)



