Museu Goeldi integra Caravana da Saúde na Floresta Nacional de Caxiuanã

Missão humanitária realizou aproximadamente 2,8 mil atendimentos no município de Portel, na Estação Científica Ferreira Penna do MPEG e em um barco-hospital que visitou comunidades; iniciativa envolveu cerca de 50 voluntários e ofertou consultas em dez especialidades médicas e terapêuticas, além de ações educativas.

Publicado em 23/06/2026 15:38Modificado há 7 dias
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Grupo de voluntários da caravana da saúde posa sorrindo em frente à Estação Científica Ferreira Penna, cercados pela floresta amazônica, acenando para a câmera em um momento de confraternização.
Voluntários da Caravana da Saúde na Estação Científica Ferreira Penna do Museu Goeldi: além de consultas e terapias, grupo realizou ações educativas (Anderson Teixeira/MPEG)

Agência Museu Goeldi – Cuidar da saúde do planeta inclui cuidar das pessoas. Inspirados na ideia de “saúde única”, que defende a conexão entre o bem-estar dos seres humanos, dos animais, da flora e do meio ambiente, cerca de 50 pessoas, de várias regiões do Brasil, realizaram trabalho voluntário na Floresta Nacional de Caxiuanã (Flona), distante 300km de Belém (PA), com o apoio do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Durante dez dias, entre 4 e 14 de junho, a missão humanitária realizou 2.827 atendimentos médicos, psicológicos, terapêuticos e odontológicos, no município de Portel, na Estação Científica Ferreira Penna e no barco-hospital Madonna, a partir da comunhão de esforços institucionais para o enfrentamento de doenças nas comunidades amazônicas.

Coordenado pelos médicos Marcos Alvinair e Luciane Faleiros, o grupo aportou na base científica, acompanhado da pesquisadora do Museu Goeldi Ana Prudente. Ao participar de ações anteriores das organizações Fraternidade Sem Fronteira e Fraternidade Católica Missionária Ágape da Cruz, instituições parceiras da iniciativa, ao lado MPEG, da Secretaria Municipal de Saúde de Portel, da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (Fadesp) e do Corpo de Bombeiros do Estado do Pará, ela destacou o trabalho voluntário junto às comunidades na floresta amazônica, nas regiões em que o Museu atua.

Em uma sala de madeira, uma médica atende uma mulher e uma criança sentadas em uma cadeira
Médica atende em uma das comunidades visitadas (Anderson Teixeira/MPEG)

“A Caravana da Saúde tem um diálogo estreito com a missão do Museu quando gera conhecimento. A ação promove não só o acesso ao tratamento físico, mas compartilha informações que aumentam a qualidade de vida dos ribeirinhos”, disse a pesquisadora, se referindo às rodas de conversas realizadas sobre temas de prevenção à saúde, como hábitos de saúde bucal e métodos contraceptivos. Conforme explicou, a saúde das pessoas está conectada à natureza como um todo. “Quando falamos de Amazônia, não conseguimos desconectar o ambiente, a floresta, os vegetais e os animais do ser humano. Por isso, falamos de uma saúde única, onde o ambiente e as pessoas devem conviver com equilíbrio”.

Na Baía de Caxiuanã, metade da equipe de voluntários atendeu a bordo do barco-hospital Madonna, em dois pontos ao sul da Flona. A outra metade realizou os atendimentos na Estação Científica do Museu Goeldi. Nas duas bases, foram montados consultórios e áreas funcionais para a atuação de diversos especialistas, como clínicos gerais, pediatras, ginecologistas, psiquiatras, dermatologistas, oftalmologistas, enfermeira, psicólogos, além de cirurgião e anestesista que realizaram alguns procedimentos cirúrgicos de baixa complexidade. No total, foram ofertadas consultas em dez especialidades médicas e terapêuticas, bem como serviços farmacêuticos, com fornecimento de medicamentos prescritos. A base do MPEG serviu ainda de alojamento para os profissionais.

Continuidade das ações

O médico Marcos Alvinair classificou a experiência como “fantástica”. “Esta caravana extrapolou todas as expectativas. Fizemos uma série de atendimentos de barco, parando nas comunidades ribeirinhas. O número de atendidos foi surpreendente. As necessidades, tanto em Portel como em Caxiuanã, são imensas”. Além dos atendimentos clínicos, os voluntários e participantes das comunidades ribeirinhas trocaram conhecimentos em ações pedagógicas, como cursos e palestras, realizadas nos períodos noturnos. “Tivemos aula de biodiversidade, de acidentes ofídicos (envenenamento por mordedura de serpentes), de saúde mental. Tivemos aulas sobre a ideia de saúde única, sobre saúde da mulher, prevenção na área pediátrica. Foi uma experiência riquíssima”, completou.

Marcos Alvinair participa de caravanas da saúde há doze anos e já esteve em países da África, como Madagascar, Malawi e Moçambique. “Não diminuindo as outras caravanas, esta foi bonita. Tivemos quase 50 voluntários, um grupo muito unido, enfrentando as dificuldades com bastante competência, tanto individual como coletiva. Realmente, o índice de satisfação, não só dos caravaneiros, mas, principalmente, das populações atendidas, foi muito alto”, atestou o médico, que pretende fortalecer as parcerias institucionais para tornar a caravana permanente na região, a partir do próximo ano. “Queremos estabelecer caravanas permanentes a partir de 2027, duas vezes por ano naquela região do Marajó, tanto Portel, como Breves, Melgaço e também na Baía de Caxiuanã”, disse, ressaltando que a demanda por oftalmologista e dentista ultrapassou a capacidade de atendimento.

Profissional de saúde mede a pressão arterial de um homem durante atendimento na caravana
Hipertensão arterial foi um dos problemas mais identificados (Sumy Menezes/MPEG)

Conforme explicou, os prontuários produzidos durante a caravana serão usados para gerar dados estatísticos sobre a saúde da população atendida. “A partir de agora, vamos realizar um estudo estatístico dos principais diagnósticos, tanto na esfera física como mental e na área psicoemocional, para futuras prospecções e trabalhos de manutenção. O grupo da saúde mental e vários atendidos na área clínica serão acompanhados pelos agentes de saúde da região, que são nossos parceiros, e a gente continuará dando respaldo de manutenção para eventuais problemas na continuidade do acompanhamento dessas pessoas”, explicou, dizendo que entre os problemas mais comuns estão hipertensão arterial, diabetes, obesidade, dores crônicas ligadas à coluna vertebral, além de dores abdominais, advindas de doenças gástricas. Entre as crianças, foram observados distúrbios gastrointestinais, respiratórios e patologias dermatológicas.

“Sem saúde não tem trabalho”

Keila Cordeiro tem 21 anos, é auxiliar de classe em uma escola da região e estuda pedagogia. “Achei a caravana muito importante. Como somos ribeirinhos, muita gente não tem condições de ir para a cidade e ter atendimento médico. Aqui, eu aproveitei a oportunidade e passei pelo psicólogo, pelo psiquiatra e também pelo dentista”, relatou, segurando alguns remédios que recebeu após o atendimento odontológico. Keila disse que os adolescentes da região precisam, cada vez mais, de assistência psicológica. Segundo ela, para problemas menos graves, como gripe e febre, a população conta com postos de saúde próximos, mas em casos mais graves, é necessário se deslocar até a cidade de Portel, distante em torno de duas horas e meia de lancha rápida ou seis horas de viagem de barco.

Nice Laura, de 47 anos, é dona de casa e trabalha como apoio na unidade escolar do povoado onde mora. Ela foi atendida por clínico geral, ginecologista e dentista, mas observou que nem todo mundo conseguiu todo atendimento que queria. “Muita gente está precisando de procedimento no dente, mas o tempo foi pouco para atender todo mundo. Também estavam esperando o oftalmologista, com problema de vista”, contou, já torcendo para que a caravana volte mais vezes. Segundo ela, para extrair um dente na cidade, custa cerca de R$ 100, quando não consegue atendimento nas unidades públicas de saúde. “A nossa saúde está em primeiro lugar. Se não tiver saúde, não tem trabalho. A saúde é a nossa prioridade”.

Texto: Carla Serqueira e Henrique Pimenta

Revisão e edição: Andréa Batista

Categorias
Ciência e Tecnologia
Tags:Pará
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