Muros do Museu Goeldi viram obras de arte, enquanto Parque passa por manutenção
Na parte externa, artistas produzem arte muralista que será inaugurada dia 28; na área interna, prosseguem obras em recintos e prédios históricos em preparação para a COP30. O Parque Zoobotânico reabre para visitação pública em 3 de outubro com exposição ao ar livre.

Agência Museu Goeldi - Começou! Quem passa pelo entorno do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) já pode ver novas formas e cores surgindo nos seus muros históricos. Artistas selecionados na 3ª edição do Museu de Arte Urbana de Belém (Maub) iniciaram, na manhã de terça-feira (16/09), a transformação das paredes em uma galeria de arte a céu aberto. Paralelamente, a área interna da base mais popular do Goeldi recebe manutenção de recintos e prédios. Assim a instituição sesquicentenária prepara o parque zoobotânico mais antigo do Brasil para receber seus costumeiros visitantes e outros tantos que chegam em Belém-PA para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30).
A inauguração da arte muralista nas paredes do Museu Goeldi acontece na manhã do último domingo deste mês (28/09) com música e atividades educativas comunitárias na Avenida Magalhães Barata. E, já com sua “nova pele”, cinco dias depois, em 3 de outubro, o Museu Goeldi reabre seu Parque Zoobotânico convidando o público para apreciar a fauna e a flora amazônica interagindo com as obras de arte da exposição “Um Rio Não Nasce Sozinho”, do Instituto Tomie Ohtake.
O diretor do Museu Goeldi, Nilson Gabas Júnior, ressalta a alegria da instituição de efetivar o acordo técnico-científico com o Maub para viabilizar o novo visual ao patrimônio público tombado pela União e pelo Estado do Pará. “Os muros estão sendo pintados por um seleto grupo de artistas para que tenhamos a promoção da inter-relação entre ciência, cultura, arte urbana e educação. Procuramos estabelecer, no edital, temas da sociobiodiversidade amazônica, com as quais trabalhamos há quase 160 anos. Esperamos mostrar para a população que estamos preparados para manter a instituição no século XXI", ressaltou.

Artistas começam leiaute
A pintura dos muros está sendo feita por 19 artistas de todo o Brasil, especialmente do Pará, selecionados pelo Maub. Além do Parque Zoobotânico (que ocupa um quarteirão entre as avenidas Magalhães Barata, Alcindo Cacela e Gentil Bittencourt e a Travessa Nove de Janeiro, em São Braz), a intervenção artística também ocorrerá na outra base urbana do Museu Goeldi em Belém, o Campus de Pesquisa (localizado na Avenida Perimetral, no bairro Terra Firme). Desse modo, duas instituições museais em parceria [Museu Goeldi e Maub] transformam e valorizam com arte contemporânea ruas em dois bairros distintos da capital do Pará.
Os painéis são inspirados pela ciência e pelos saberes tradicionais da Amazônia. Na inauguração dos murais, prevista para acontecer a partir das 9h do próximo dia 28, haverá música ao vivo, atividades infantis e feira criativa e gastronômica. A produção da infraestrutura para a realização dessas pinturas começou na manhã dessa terça-feira, com a montagem de andaimes e as marcações de alguns leiautes pelos artistas.
O artista visual paraense Dedéh Farias, que está pintando sua tela gigante em um trecho do muro da Travessa Nove de Janeiro, foi um dos primeiros a iniciar os trabalhos. “A gente começa pelo grid, que é uma marcação de formas, que são basicamente aleatórias. É mais pra gente ter uma base do fundo onde a gente vai poder aplicar o desenho pra conseguir colocar na proporção certinha, de acordo com o que a gente criou no nosso leiaute. O meu leiaute aborda a arqueologia, pinturas rupestres. Vou trazer esse tema que é muito sobre a memória da gente, sobre a nossa ancestralidade”, disse, destacando que o resultado final será visto pelo público no último fim de semana deste mês.
O projeto, realizado pela Sonique Produções e Oito Quatro Produções, foi aprovado na Lei Federal de Incentivo à Cultura e conta com o patrocínio da Vale, por meio da Lei Rouanet, com a chancela do Governo Federal e do Ministério da Cultura. Para o idealizador do projeto, Gibson Massoud, o Maub consolida-se como um dos maiores museus a céu aberto do Brasil ao transformar espaços urbanos em suportes para a arte muralista. “Nesta edição especial, realizada em parceria com o Museu Goeldi, os artistas selecionados criam obras que conectam arte, ciência e cultura popular, reforçando o caráter educativo e comunitário do projeto”, comenta

Manutenção inclui recintos e prédios
Já os serviços no interior do centenário parque começaram em 18 de agosto, o que levou ao fechamento do equipamento à visitação. O coordenador de Administração do Museu Goeldi, Humberto JúniorQueiroz Costa, explicou que a intervenção no Parque Zoobotânico foi dividida em duas etapas. A primeira constitui-se de serviços preliminares de preparação, limpeza e manutenção em cinco recintos de animais e em sete prédios distribuídos pelos 5,4 hectares de área tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Departamento de Patrimônio, Histórico, Artístico e Cultural do Pará (DPHAC/Secult) na área central de Belém.
Os viveiros com obras de manutenção são o da Ariranha (Pteronura brasiliensis), o do Jacaré-açu (Melanosuchus niger), o da Onça-pintada (Panthera onca), o da Tartaruga da Amazônia (Podocnemis expansa) e o Lago do Pirarucu (Arapaima gigas), uma novidade que surge no local do antigo lago do Peixe-boi (Trichechus inunguis).
Os prédios que estão recebendo serviços diversos são quatro chalés históricos (Andreas Goedi, Rodolfo Siqueira Rodrigues, João Batista de Sá e o da esquina da Nove de Janeiro com a Magalhães Barata) - este último abrigará um posto de informações da Secretaria de Turismo do Pará; além do prédio da Biblioteca Clara Maria Galvão, do Auditório Alexandre Rodrigues Ferreira, do pavilhão expositivo Rocinha e, também, a portaria onde funciona a Bilheteria do Parque.
Outros ambientes do Parque também recebem serviços de manutenção, como o deck do Lago do Tambaqui (Colossoma macropomum). “Os viveiros da onça e dos pirarucus estão passando por reformas maiores, mais visíveis. Já os demais estão recebendo manutenções, como troca e recuperação de gradis, corrimãos e parapeitos. Quanto aos prédios, nesta etapa, eles estão recebendo limpeza, pintura, pequenos reparos na estrutura, nas esquadrias e nas instalações elétricas e hidráulicas, além da adequação dos banheiros. O objetivo é deixá-los funcionais e prontos para serem ocupados durante a COP30, quando o Museu recebe delegações e eventos paralelos”, explicou Humberto Queiroz.

Obras previstas para 2026
Depois da COP, começam os preparativos para a recuperação mais ampla dos prédios históricos do parque, com reforma e restauro. “As obras estão licitadas, a empresa contratada e os recursos – da ordem de R$ 20 milhões – estão garantidos. Fizemos uma articulação junto ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que viabilizou esse recurso via Finep. Já por meio de uma parceria com a Embaixada da Suíça e o programa ProGoeldi, vamos reformar e restaurar a Casa Goeldi, uma necessidade e um desejo antigo”, informou Nilson Gabas Júnior, diretor do MPEG.
Nessa segunda etapa, os prédios históricos passarão por obras mais robustas de infraestrutura (reforço estrutural, reforma dos telhados, pisos e troca de esquadrias, entre outros), além do restauro dos elementos arquitetônicos (molduras e pinturas artísticas existentes nesses locais). A previsão é que essa entrega seja feita em 2026, quando o Museu Goeldi celebra 160 anos de fundação.
Texto: Andréa Batista (com informações do Maub)
Edição: Joice Santos
Imagens: Adrya Marinho, Anna de Souza e Vitória Santana
Quem são os artistas selecionados para o MAUB – Edição Especial Museu Goeldi:
- Alessandro Hipz (AM) – Autodidata, o artista manauara une influências do hip-hop, HQs e da cultura amazônica, criando murais poéticos sobre a mulher amazônica e crenças populares
- And Santtos (PA) – Nascido em São Caetano de Odivelas, criou o movimento “Odivelismo”, que mistura realismo e surrealismo para retratar a identidade cultural amazônica
- Cely Feliz (PA) – Pioneira do “Caboclofuturismo”, transforma grafismos marajoaras e narrativas ribeirinhas em murais-rituais, afirmando-se como artista-pajé urbana
- Kekel (PA) – Marajoara, destaca-se pelo reaproveitamento de madeira de barcos em esculturas, letras e peças únicas, conectando tradição e sustentabilidade
- Graf (PA) – Natural de Belém, iniciou na pixação em 2002 e hoje valoriza ancestralidade afro-indígena em murais que retratam fauna e flora amazônicas
- Wira Tini (AM) – Kokama de Manaus, fundadora do Graffiti Queens, conecta saberes ancestrais e cultura urbana em obras que dialogam com meio ambiente e identidade indígena
- Deco Treco (SP) – Paulistano, cria universos pop surrealistas cheios de humor e nonsense, com murais que já circularam pelo Brasil, Europa e América do Sul
- Wes Gama (GO) – Autodidata, trabalha com o conceito de “Caipira Futurista”, refletindo sobre relações raciais, ambientais e a ancestralidade por meio de murais poéticos
- Ayala (PA) – Paraense, dedica-se ao string art e ao muralismo, criando obras autorais inspiradas na estética amazônica e em memórias afetivas regionais
- João Nove – Digital Orgânico (SP) – Une natureza e tecnologia em murais de grande escala, com destaque para obras no Brasil, EUA, Europa e Canadá
- Éder Oliveira (PA) – Reconhecido por retratos que refletem identidade e violência social, o paraense é referência nacional com obras de forte impacto crítico
- Chico Ribeiro (AP/PA) – Jovem artista amapaense radicado no Pará, pesquisa pintura em contextos periféricos, trazendo retratos sensíveis do cotidiano amazônico
- Alex Senna (SP) – Com sua estética em preto e branco, já levou seus murais poéticos para 24 países, abordando afeto, amor e vida urbana
- Lenu (PA) – Paraense, há mais de 15 anos desenvolve obras que transitam entre surrealismo amazônico e educação artística, valorizando pertencimento e identidade
- Dudi Rodrigues (PA) – Muralista autodidata de Belém, iniciou profissionalmente em 2022 e expressa vivências e crenças em obras acessíveis e transformadoras
- Dedéh Farias (PA) – Artista da periferia de Belém, atua desde 2009 no muralismo e artes visuais, destacando cores vibrantes e o imaginário amazônico em obras de grande escala.
- Amanda Nunes (DF/CE) – Nascida na Ceilândia, explora arte sacra e surrealismo, com obras já exibidas na SPFW e acervo da Pinacoteca Estadual do Ceará
- Dannoelly Cardoso (PA) – Bragantina, muralista e educadora, retrata memórias ribeirinhas e rostos amazônidas em diálogo entre realismo e contemporaneidade
- Gabz & Tsssrex (PA) – Dupla paraense, com experiências no graffiti desde 2004, unem juventude e maturidade em murais vibrantes que reafirmam identidade e resistência.