Memória científica e cultural do Museu Goeldi será exposta no Brasiliana Fotográfica

Arquivo Guilherme de La Penha do MPEG possui mais de 20 mil registros. Parte do acervo será disponibilizada em plataforma digital, em janeiro de 2026. Parceria colocará a Amazônia no mapa digital da fotografia histórica, funcionando como espaço de difusão da ciência.

Publicado em 20/10/2025 16:28Modificado há 6 meses
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Agência Museu Goeldi - O Arquivo Guilherme de La Penha do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) – que passou a integrar o conjunto de instituições parceiras do Portal Brasiliana Fotográfica, no mês passado – reúne mais de 20 mil registros documentais e iconográficos, incluindo 1.421 negativos de vidro já digitalizados, dentre os quais sairá uma seleção para compor a primeira exposição digital da plataforma, criada por iniciativa da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles, prevista para janeiro de 2026. Com isso, o MPEG garante o acesso público aos seus registros históricos e científicos, tornando-se a primeira instituição amazônida a integrar o Brasiliana Fotográfica, e conta com um espaço importante de difusão artística e científica.

Segundo o historiador e curador do Arquivo Guilherme de La Penha, Nelson Sanjad, a Brasiliana Fotográfica se destaca por seu caráter duplo, ao funcionar simultaneamente como repositório e como espaço de difusão, auxiliando o Museu Goeldi na preservação e divulgação de seu acervo. “Não é apenas um arquivo digital. É também um portal de divulgação que conecta as imagens a diferentes contextos históricos e sociais. Isso significa colocar o acervo do Museu Goeldi, em diálogo com outros fundos nacionais, ampliando o alcance e a relevância das coleções”, explica.

Preservação e memória amazônica 
Para o pesquisador do Museu Goeldi, esse movimento reforça a atuação da instituição como guardiã da memória científica e cultural da Amazônia, assegurando a presença da região no mapa digital da fotografia histórica brasileira, até então dominado por acervos do Sudeste. Além disso, abre caminho para que as imagens deixem de ser apenas registros técnicos do trabalho científico e passem a ser circuladas socialmente.

Nelson Sanjad ressalta, ainda, que a iniciativa também responde a um desafio histórico do Museu Goeldi. Ainda que possua um acervo abrangente e organizado, esses materiais até então, poderiam ser consultados apenas de forma presencial no Campus de Pesquisa do Museu Goeldi, onde está localizado o Arquivo Guilherme de La Penha. A limitação técnica para manter bases de dados próprias dificulta processos de divulgação e acessos ao público. A parceria com a Brasiliana viabiliza a digitalização e indexação de longo prazo dos acervos.

O pesquisador ainda destaca como o acervo preservado nas salas do Guilherme de La Penha constitui-se como um dos mais importantes repositórios da história da ciência no Brasil, abrigando não apenas documentos administrativos e relatórios de pesquisa, mas também coleções pessoais de cientistas, inventários, correspondências e, sobretudo, um expressivo acervo fotográfico. 

Primeira exposição será em janeiro
Inicialmente, será disponibilizada uma seleção de 50 fotografias de Belém, produzidas entre o final do século XIX e início do século XX, que faz parte do arquivo do MPEG. A exibição deve ocorrer em janeiro de 2026, abrindo a agenda anual de exposições do portal, em homenagem aos 409 anos da capital do Pará. 

As fotografias serão exibidas em um álbum em formato de exposição digital. Cada foto será acompanhada de textos curtos que irão contextualizar o público sobre as imagens. Entre os destaques estão registros urbanos e científicos que revelam a cidade em transformação e a presença do Museu Goeldi nesse processo, como o entorno do Parque Zoobotânico e as atuais Avenidas Magalhães Barata e Gentil Bittencourt. 

A exemplo dessa primeira seleção de fotos de Belém, as coleções fotográficas vinculadas ao Arquivo Guilherme de La Penha estão programadas para serem lançadas em blocos temáticos, criando exposições digitais que dialogam com eventos históricos ou com os contextos em que as fotografias foram produzidas. 

O Arquivo Guilherme de La Penha
O arquivo do Museu Goeldi foi criado em 1987, durante a gestão do então diretor da instituição,  Guilherme de La Penha. A museóloga e chefe do Serviço de Arquivo e Memória do MPEG, Lilian Bayma, conta que o arquivo é resultado de um processo iniciado ainda no século XIX, quando o zoólogo suíço Emílio Goeldi incentivou o uso de fotografias pelos pesquisadores e técnicos da instituição, e a preservação da documentação científica produzida pelo museu desde a criação do primeiro laboratório fotográfico do museu em 1897. 

Lilian Bayma destaca que os negativos de vidro possuem grande valor histórico, preservando registros que contam a história do Parque Zoobotânico, de expedições científicas pela Amazônia e do cotidiano de Belém em um período de intensas transformações sociais e urbanas. Imagens que testemunham, por exemplo, a passagem de cientistas europeus pela cidade, consolidando a posição de Belém como centro de intercâmbio científico e cultural no início do século XX. 

Para a museóloga, a parceria com a Brasiliana Fotográfica representa uma oportunidade de democratizar o acesso a esse importante patrimônio. “É um passo fundamental para tornar visível um acervo que antes se restringia à comunidade acadêmica. Agora, qualquer pessoa poderá acessar essas imagens e conhecer parte da história da ciência e da vida social em Belém. A fotografia legitima o museu na sua função social, como espaço de preservação e construção de conhecimento. Ao disponibilizar essas imagens, fortalecemos não apenas a pesquisa, mas também a identidade cultural da região”, conclui.

Negativos de vidro
Os negativos de vidro são apenas uma das variadas formas criadas para a captação de imagens ao longo da história da fotografia. De acordo com Nelson Sanjad, começaram a ser produzidos a partir da segunda metade do século XIX. A técnica evoluiu ao longo do tempo, mas consiste em pequenas placas de vidro banhadas, em um dos lados, em uma emulsão fotossensível composta por sais de prata e um meio ligante. 

Esses negativos exigiam máquinas específicas e um tempo pré-determinado à exposição à luz, geralmente de dois a cinco segundos. Depois disso, os negativos exigiam um processo químico para que as imagens fossem reveladas e fixadas nas placas, e demandava condições minuciosas de preservação. Por isso, cada imagem se constitui hoje como documento raro, que guarda não apenas a representação visual, mas também a materialidade de um fazer científico e artístico de sua época.

A escolha
De acordo com a política do portal Brasiliana Fotográfica, a escolha das instituições que expõem acervos na plataforma é feita em duas instâncias, por um comitê consultivo, formado pelos dirigentes máximos das instituições participantes e por um comitê de gestão, responsável pelo desenvolvimento e pelas decisões técnicas e curatoriais, formado pelos coordenadores/curadores das instituições participantes, pelo coordenador da Biblioteca Nacional Digital e por técnicos responsáveis pelas atividades das distintas áreas envolvidas nesta iniciativa. 

Retratos futuros
A museóloga Lilian Bayma afirma que a expectativa é de que novos conjuntos fotográficos sejam incorporados ao Brasiliana Fotográfica nos próximos anos, incluindo séries dedicadas ao Parque Zoobotânico e à própria trajetória do Museu Goeldi. 

Com a disponibilização dos registros fotográficos conservados no Arquivo Guilherme La Penha, o Museu Paraense Emílio Goeldi junta-se a outras 14 instituições, como a Fundação Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional, a Fundação Joaquim Nabuco, o Museu da República e o Museu Histórico Nacional, que já possuem acervos na plataforma. A adesão do MPEG ao portal, além de ampliar o acesso público ao seu acervo, conecta a Amazônia à memória visual do Brasil e reforça a instituição como referência na preservação do patrimônio científico e cultural da região.


Texto: Vitória Santana
Fotos: Anna de Souza
Edição:
Andréa Batista

Categorias
Cultura, Artes, História e Esportes
Tags:Pará
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