Indígenas aprendem a produzir fotos e vídeos para monitorar territórios com parceria do Museu Goeldi
Participantes de aldeias do Maranhão tiveram aulas com o fotógrafo Adriano Gambarini em qualificação realizada pela Rede Resiliência, coordenada pelo MPEG no Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Oriental (PPBio-AmOr).

Agência Museu Goeldi – “Na minha Terra Indígena Caru, eu já trabalho como guardião da floresta, fazendo vigilância e monitoramento da fauna. Isso me motivou [a participar da qualificação] porque vi a necessidade de também conhecer determinadas áreas com menos e mais animais”. Esse depoimento é de Milson Guajajara, um dos 28 participantes da oficina de fotografia e vídeo por celular realizada na Terra Indígena Caru, no Maranhão, pelo Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Oriental (PPBio-AmOr), por meio do projeto Rede Resiliência, que tem o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) entre as instituições parceiras.

Milson também atua como bolsista de apoio técnico no projeto, devido ao valor do seu conhecimento tradicional. Para ele, além de colaborar com a proteção do seu território e com a produção de registros da fauna, a formação vai ajudar a manter viva a sua cultura. “Por isso é importante fazermos os registros. [A oficina] vai melhorar [o trabalho] porque tínhamos a necessidade de realizar o monitoramento e a vigilância para que as futuras gerações pudessem ver e dar continuidade à proteção do Território Caru e para que a fauna e a flora resistam”, finalizou.
A oficina foi ministrada pelo fotógrafo e documentarista Adriano Gambarini, colaborador permanente da National Geographic Brasil, que atua em projetos com populações tradicionais da Amazônia há 30 anos. As atividades foram adequadas para cada uma das localidades em decorrência da experiência prévia que a equipe do PPBIO - Rede Resiliência tinha com os indígenas. “Além de toda a parte técnica, de regulagem do próprio celular, eu gosto muito de compartilhar sobre a história da fotografia, desde a primeira fotografia analógica, linguagem fotográfica, estética visual, todas as informações possíveis para que eles possam fazer um registro com fotografia, vídeo e edição de vídeo dessa área fantástica que eles vivem”, afirmou Adriano em vídeo institucional produzido pelo projeto.
A atividade, que integra um processo contínuo de formação de multiplicadores locais, ocorreu em dois momentos: de novembro a dezembro de 2025, na aldeia Maçaranduba, e no último mês de fevereiro, na aldeia Awá, contemplando também indígenas de comunidades próximas, como a aldeia Nova Samyã, onde vive a participante Simone Guajajara. “O que me motivou a participar da oficina foi a oportunidade de aprender coisas novas, desenvolver habilidades e ter novas experiências. Também achei interessante poder interagir com outras pessoas e trocar conhecimentos”, afirmou.
Um dos objetivos da oficina é consolidar redes comunitárias de monitoramento ambiental para a proteção dos territórios. “Através da oficina, podemos registrar e compartilhar saberes importantes que muitas vezes são passados de geração em geração. Espero que a oficina contribua para a conservação da sociobiodiversidade da Amazônia, ajudando a conscientizar as pessoas sobre a importância de preservar a natureza e os modos de vida dos povos que vivem nela”, reiterou Simone. A participante afirma ainda que o aprendizado pode fortalecer o cuidado com o meio ambiente e garantir que os conhecimentos tradicionais e os recursos naturais sejam protegidos.
Conforme a pesquisadora integrante do PPBio - Rede Resiliência, Beatriz Cosendey, a ideia da oficina de foto e vídeo por celular surgiu pela necessidade de garantir bons registros de vestígios da fauna, garantindo a qualidade da análise. “O monitoramento dos territórios se dá através da identificação de rastros, pegadas, fezes, pena, observação direta, som, entre outros, que são registrados nos aplicativos Cybertracker [de foto] ou Timestamp [de foto e vídeo]”, informou a cientista, acrescentando que os aplicativos são estilizados de forma a ficar intuitivo para os usuários, que recebem treinamento prévio para tal.
O Museu Goeldi e o PPBio - Rede Resiliência
O Museu Goeldi integra o PPBio-AmOr desde a sua criação, em 2004. Nestes mais de vinte anos, coordenou projetos, colaborou com pesquisas, contribuiu com a formação de estudantes e ajudou a fortalecer acervos científicos na Amazônia. Instituído pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o programa é financiado e gerido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em 2023, um novo projeto passou a incrementar os seus resultados: a “Rede Integrada de Análise da Resiliência da Sociobiodiversidade da Amazônia Oriental aos Impactos dos Sistemas de Ocupação e Uso do Solo e das Mudanças Climáticas – Rede Resiliência”, que está sediada no MPEG, sob a coordenação geral do pesquisador Rogério Rosa da Silva.
A Rede Resiliência atua a partir de três eixos: o eixo “Sociobiodiversidade”, coordenado por Juarez Pezzuti, da Universidade Federal do Pará (UFPA), busca fortalecer a interlocução com povos indígenas e populações locais por meio de pesquisas colaborativas e da valorização de tecnologias sociais. Já o eixo “Síntese”, liderado por Valéria Tavares, do Instituto Tecnológico Vale (ITV), e por Ana Cristina Mendes de Oliveira, também da UFPA, analisa o grande volume de dados gerados para a Amazônia Oriental, com foco em abordagens macroecológicas, incluindo estimativas de padrões de distribuição dos táxons, que são unidades para classificação de organismos, no passado, presente e futuro, bem como suas respostas às interferências humanas, como fragmentação, degradação ambiental e mudanças climáticas. Por fim, o eixo “Lacunas”, coordenado por Rogério Rosa da Silva, do Museu Goeldi, foi pensado para preencher as lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade e fortalecer as coleções científicas com a divulgação de dados.
De acordo com o coordenador da Rede Resiliência, a oficina de foto e vídeo por celular realizada na Terra Indígena Caru decorreu do eixo “Sociobiodiversidade" do projeto, tendo como um dos principais objetivos desenvolver estratégias de coprodução de conhecimento com povos tradicionais. “As relações com as comunidades ainda estão em construção e se fortalecem por meio de trocas de saberes”, reforçou o coordenador.

A Rede Resiliência reúne cerca de 100 integrantes e aproximadamente 20 instituições, distribuídas em diferentes regiões do Brasil e do exterior, com forte concentração na Amazônia Oriental. As áreas de atuação do projeto abrangem diferentes unidades de conservação e localidades no Amapá, Maranhão, Pará e Tocantins. No que se refere às comunidades tradicionais, as atividades incluem, até o momento, o Quilombo do Abacatal, e as Terras Indígenas (TI) Alto Rio Guamá (aldeia Itwaçu), Caru (aldeias Maçaranduba, Awá, Nova Samyã, Tiracambu), Alto Turiaçu (aldeias Cocal, Turizinho, Xiépihu-Rena, Paracuí-Rena), Las Casas (aldeia Las Casas), Kayapo (aldeia Kriny) e Resex do Rio Cajari (quiombo do Tapereira). O período de execução do projeto vai de 2023 a 2027. No entanto, as ações foram estruturadas para garantir a continuidade das colaborações para além desse período, por meio do fortalecimento de redes de pesquisa e de parcerias institucionais.
Rogério afirma que outras parcerias ainda estão em fase de estabelecimento e os trabalhos seguem em andamento. A análise dos resultados têm como previsão de início no próximo semestre de 2026. “Mesmo assim, resultados parciais já apontam descobertas de espécies e avanços no preenchimento de lacunas de conhecimento para diversos grupos biológicos, além da obtenção de informações que ajudam a compreender melhor as ameaças e a orientar estratégias de conservação desses territórios”, explicou o coordenador, frisando que as atividades e as colaborações desenvolvidas no projeto não ficam restritas ao período de execução. “A ideia é dar continuidade a essas iniciativas por meio da rede que vem sendo construída, fortalecendo as conexões já estabelecidas. Com isso, o projeto busca ampliar o alcance das ações e gerar um impacto mais duradouro, tanto na produção de conhecimento, expansão de coleções, formação de pessoas e no apoio à conservação da sociobiodiversidade na Amazônia Oriental”, finalizou.
Texto: Henrique Pimenta
Revisão e edição: Carla Serqueira
