Do MPEG, o alerta: sem proteção e reparação aos que "tombam" pela floresta, não há justiça climática
O sétimo dia de programação no "Espaço Chico Mendes na COP30" foi dedicado às pessoas defensoras da floresta e dos direitos dos povos. O evento teve a participação de familiares de vítimas da violência no campo, durante a ditadura
Museu Goeldi | COP30 com Ciência – "Não há como aceitar o perdão do país, enquanto pais ainda procuram seus filhos, enquanto mães ainda choram na madrugada. Há dezenas de lideranças que tombaram pela floresta e elas nunca foram incluídas nos processos oficiais de reparação do Estado brasileiro". A fala é de Elenira Mendes, filha de Chico Mendes, um dos grandes símbolos brasileiros da luta em defesa dos povos. E assim como o seringueiro, centenas de outras lideranças também perderam suas vidas defendendo as florestas, o campo, as terras indígenas, os quilombos e outros territórios coletivos. E foi pensando na importância que esses guardiões têm para a manutenção da vida no planeta, que o “Espaço Chico Mendes e FBB na COP30”, montando no Campus de Pesquisa do Museu Emílio Goeldi, dedicou um dia inteiro de debates sobre a memória e o legado dessa gente.
Na mesa de abertura, Elenira Mendes, compartilhou com outros familiares de mortos e atingidos pela violência no campo durante a ditadura que, mesmo o Estado brasileiro pedindo perdão ao seu pai em 2008, vinte anos após o seu assassinato, é difícil perdoar, mesmo porque outras vítimas continuam tendo o mesmo tratamento e não tiveram esse reconhecimento.
“É inadmissível que a lei de anistia continue protegendo os torturadores, aqueles que mataram os nossos pais, aqueles que mataram nossos filhos. Eu, como uma mulher que carrego também o nome de uma grande guerrilheira que foi assassinada aqui no sudeste do Pará, Elenira Rezende, carrego comigo também a dor dos pais da Elenira. Carrego a dor de até hoje não conseguirem encontrar o seu corpo, uma jovem militante estudantil que teve que fugir do seu estado e se esconder no Araguaia e que foi brutalmente assassinada. Então há a falta também da reparação coletiva”, afirma Elenira Mendes.
A ativista também enfatizou que, apesar de avanços significativos, como a Comissão da Verdade, a Comissão da Anistia e outros dispositivos, a falta de reparação às outras vítimas da violência no campo e nos territórios faz com que a democracia brasileira seja considerada frágil e incompleta. “Tantos outros continuam sendo assassinados pela luta do campo, por defender a floresta, por defender seus territórios, por tentar mostrar que é possível preservar a natureza e ter desenvolvimento. O Brasil precisa reparar todos esses danos causados. E hoje, quando o mundo inteiro olha para a Amazônia, aqui em Belém, na discussão sobre mudança climática e responsabilização dos países, nos faz lembrar que não há como passar por uma transição climática justa, sem fazer as reparações devidas aos guardiões que morreram que lutaram e que ainda não são reconhecidos nessa luta".
Ângela Mendes, presidente do Comitê Chico Mendes, também filha de Chico, endossou que não há como fazer o debate climático nesta COP30 sem o reconhecimento da história e do legado de seu pai e de outros tantos defensores ambientais. Para ela, eles são parte importante do enfrentamento às mudanças climáticas. Para o Comitê e para as organizações parceiras do evento, não há como haver justiça climática sem a proteção daqueles que protegem as florestas e os demais territórios.
Mártires da luta – O ‘Espaço Chico Mendes e FBB na COP30’ também é composto por exposições que destacam imagens e histórias dessas pessoas que dedicaram e as que ainda dedicam suas vidas a defender seus territórios. A exposição ‘Mártires da Luta’, que fica ao lado da Tenda Multicultural e do auditório, traz o rosto de quarenta pessoas que foram mortas na luta. Entre elas, Bruno Pereira, Dom Phillips, Paulo Fonteles e Nega Pataxó.
“Tragicamente, o preço da resistência popular frente à violência dos poderosos deste país sempre foi cobrado em sangue. Particularmente, da metade do século XX aos dias de hoje, tombaram centenas de mulheres e homens, bravas lideranças das florestas, dos campos e das águas. O legado de nossas e nossos mártires e das pessoas que se somaram na jornada foi, e sempre será, o farol que nos orienta e dá força na resistência por um país mais democrático, justo e igualitário”, afirma trecho da exposição.
Outra exposição que destaca a luta dos defensores e defensoras é “Memoráveis Margaridas”, na qual se presta homenagens às chamadas mulheres-margaridas, que são mulheres de luta, de coragem, forjadas em tempos passados e presentes na força da presença feminina em todos os momentos de resistência coletiva. Entre essas mulheres-margaridas está Neidinha Suruí, ativista dos direitos humanos e que esteve presente nas discussões do dia.
"Somos sementes" – “É muito significativo e importante estar aqui no Espaço Chico Mendes, um dos espaços mais importantes da COP30, porque nós, os defensores e defensoras, continuamos na luta. Muitos tombaram como Chico Mendes, Bruno Pereira, Dom Phillips, Ari Uru-Eu-Wau-Wau, até as mais recentes que tombaram na luta em defesa dos direitos humanos. Mas é bom dizer que nós somos sementes, sementes fortes que nascem. Tomba um, nasce outro, nasce outra e nós continuamos fazendo a luta em um estado, em um bioma onde mais se mata defensores e defensoras. É fundamental que a gente fortaleça a luta e que todas e todos juntos possamos manter a nossa floresta em pé, mas principalmente manter vivos e vivas aqueles e aquelas que defendem os direito ao bem-estar, a viver no seu próprio território com tranquilidade e garantindo o equilíbrio do clima do planeta”, enfatiza Neidinha.
No fim do dia, a programação prevista era da celebração dos 40 anos do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), com a presença da Ministra do Meio Ambiente Marina Silva. As atividades do espaço continuam até o dia 21 e fazem parte da agenda do Museu Goeldi durante a Conferências das Partes, que acontece em Belém (PA).
Texto: Denise Salomão
Edição: Andréa Batista
CONFIRA AS PROGRAMAÇÕES DO MUSEU GOELDI NA COP30
NO PARQUE – Presença Suíça: Chalé João Batista de Sá - Parque Zoobotânico Museu Paraense Emílio Goeldi, Av. Gov Magalhães Barata, 376 - São Braz, Belém-PA.
NO PARQUE – Estação Amazônia Sempre – Endereço: Av. Magalhães Barata, 376, São Braz, Belém (PA)
NO PARQUE – Casa da Ciência – Endereço: Av. Magalhães Barata, 376, São Braz, Belém (PA)
NO CAMPUS – Espaço Chico Mendes – Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi – Av. Perimetral, 1901 - Terra Firme, Belém (PA)







