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Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas do Museu Goeldi estão entre as 40 tecnologias sociais de maior impacto no país
Cacique José Augusto Kanoe, professor Mario Puruborá e Ana Vilacy Galucio durante o II Encontro de Tecnologia Social da Amazonia (Manaus, 2025), apresentando os Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas
Agência Museu Goeldi - Identificado pelo Observatório de Tecnologias Sociais do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) como uma iniciativa com metodologia inovadora e replicável em larga escala, os Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas, desenvolvidos sob a coordenação da pesquisadora Ana Vilacy Galucio, estão na etapa final do 13° Prêmio da Fundação Banco do Brasil de Tecnologias Sociais, considerado um dos mais importantes do país. Dentre os 148 projetos certificados, este ano, como novas tecnologias sociais pela fundação, os dicionários do MPEG, agora, compõem a lista dos 40 finalistas do prêmio. Com a indicação, cada projeto finalista já garantiu R$ 65 mil. Os sete grandes vencedores serão anunciados no dia 29 de maio, numa cerimônia em Brasília.
A pesquisadora e curadora do acervo linguístico do Museu Goeldi, Ana Vilacy, afirmou que a indicação dos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas como finalista do prêmio reconhece a tecnologia social do MPEG como uma resposta para a necessidade dos povos indígenas de manter o aprendizado de suas línguas. “Recebemos a notícia com muita felicidade. Essa conquista mostra que estamos conseguindo dar resposta para uma demanda social importantíssima, que é a questão das línguas ameaçadas e a necessidade de aprendizagem dessas línguas pelas comunidades. Estar entre as tecnologias sociais finalistas do prêmio é muito gratificante, já nos consideramos vencedores”, comentou ela.
Segundo Ana Vilacy, os R$ 65 mil garantidos nesta etapa deverão ser investidos na melhoria do compartilhamento dos aplicativos. “Criamos a metodologia e o formato geral para produzir os dicionários. Mas para cada língua, se desenvolve um aplicativo. O prêmio será investido no processo de certificação e de compartilhamento gratuito desses aplicativos nas lojas de apps”, detalhou. O projeto do MPEG concorre na categoria Novas Certificadas, que conta com 30 finalistas e irá premiar 5 tecnologias sociais com R$ 200 mil para cada. As outras 10 finalistas do prêmio disputam a categoria Desafio Fundação BB 40 anos, que irá premiar dois projetos com R$ 1,2 milhão para cada. Ao todo, entre certificações e premiações, serão investidos até R$ 6 milhões.
Dicionários são usados em escolas indígenas
Desenvolvidos, desde 2019, em parceria com a Universidade Novo México e com a participação ativa de povos indígenas, os dicionários foram construídos com tecnologias de fonte aberta (open source), de fácil acesso, que podem ser utilizadas e aprimoradas em larga escala pelas comunidades, sem necessidade de acesso à internet para rodar os aplicativos. Já estão disponíveis sete dicionários na plataforma do Museu Goeldi: das línguas Kanoé, Oro Win, Puruborá, Sakurabiat, Salamãi e Wanyam, além do dicionário de de lugares sagrados dos Medzeniakonai.
O professor Mário Puruborá, da Aldeia Aperoi, localizada no município de Seringueiras, no estado de Rondônia, utiliza o dicionário na escola Iwara Puruborá, que reúne em torno de 20 estudantes, entre crianças, adolescentes e adultos. Segundo ele, o dicionário está sendo utilizado como “o principal e fundamental livro didático na escola Iwara Purubora”. A aldeia concentra cerca de 50 indígenas e, na escola, dois professores trabalham com a tecnologia social do Museu Goeldi. “Mas também usamos nas aulas remotas, pelo meet, para atender os parentes que moram fora do território, nas cidades”, acrescentou Mário Puruborá.
Mapeamento do Observatório de Tecnologias Sociais
Para que os Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas se tornassem finalistas do 13° Prêmio da Fundação BB de Tecnologia Social, o Observatório de Tecnologias Sociais do Museu Goeldi foi fundamental, na opinião de Ana Vilacy. “Foi a partir do mapeamento da equipe do Observatório de Tecnologias Sociais que foi identificado o potencial do nosso projeto como uma tecnologia social, pois uma característica dos dicionários é que eles são elaborados com softwares livres para que sejam replicados e disponibilizados de forma mais ampla para as comunidades”, atestou.
Coordenador do Observatório, Arthur Ribeiro explicou que, além de identificar os projetos do Museu Goeldi que possam ser reconhecidos como tecnologias sociais, o trabalho inclui, entre outras ações, a divulgação das experiências e a busca por financiamentos via editais. “Os Dicionários, por exemplo, foram uma experiência que se enquadrou muito bem no prêmio de reaplicação da Fundação Banco do Brasil”, disse, lembrando que a certificação do banco incluiu o projeto na rede Transforma, que reúne outras 915 tecnologias sociais do país, entre elas, Replicando o Passado e as Olimpíadas de Ciências de Caxiuanã, ambas também desenvolvidas pelo Museu Goeldi. “Ficamos muito felizes com a notícia dos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas entre as finalistas”, celebrou.
Com objetivo de identificar potenciais tecnologias sociais entre os projetos desenvolvidos no Museu Goeldi, ele explicou que a equipe do Observatório busca a interlocução com os pesquisadores da instituição. “Qualquer pesquisador que tenha interesse, pode entrar em contato conosco para que tenha a sua experiência de tecnologia social registrada no Observatório”. Conforme Arthur Ribeiro, a tecnologia social “é uma tecnologia cultural, social e historicamente inserida, que parte da cultura de um determinado povo e se adequa a todas as suas necessidades. Acima de tudo, permite a apropriação da tecnologia pela própria comunidade, porque ela mesma faz a autogestão, já que participou do processo de concepção, de ideação, de controle e de monitoramento”, afirmou ele.
Texto: Carla Serqueira
Revisão e edição: Andréa Batista