Com entrada gratuita, “Amazônia Memórias para o Futuro” fica em cartaz até dia 22, no Cine Líbero Luxardo
Idealizada pela Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, em parceria com o Museu Goeldi e a Makunaima Produção Audiovisual, a mostra iniciou na quinta (16) com homenagem ao cineasta Vincent Carelli e mesa de debates

Agência Museu Goeldi - Considerada a sala de cinema mais charmosa de Belém, até o dia 22 de outubro, o Cine Líbero Luxardo também será o lugar de encontro com a memória brasileira. Para inspirar reflexões a menos de um mês da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), o convite é para viajar com a mostra “Amazônia Memórias para o Futuro” rumo aos anos 1980, a partir dos filmes raros de Adrian Cowell e Vicente Rios, realizados para a série “Década da Destruição”, intercalando a experiência com sessões dedicadas à filmografia contemporânea produzida por cineastas indígenas de coletivos como Vídeo nas Aldeias, Munduruku Daje Kapap Eypi e Coletivo Beture.
Idealizada pela Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz em parceria com o Museu Goeldi e a Makunaima Produção Audiovisual, a mostra, com 36 filmes no total, foi aberta na última sexta (16) com uma solenidade precedida da exibição de “Fugindo da extinção”, de Adrian Cowell, filme de 1999. O público conferiu ainda três filmes do coletivo Vídeo nas Aldeias, de 2008 (De volta à terra boa; Prîara Jõ - Depois do ovo, a guerra; e Para os nossos netos), além da homenagem feita ao cineasta Vincent Carelli, que participou, ao lado do cineasta Takumã Kuikuro, da mesa de debate “Cinema, território de memórias”, mediada pela dupla de curadores da mostra Stella Oswaldo Cruz Penido e Alessandro Campos.
Comunhão entre ciência e arte
Após agradecer aos idealizadores e às parcerias que viabilizaram a mostra, o historiador e pesquisador do Museu Goeldi, Nelson Sanjad, ressaltou a importância da comunhão entre arte e ciência como uma estratégia para amplificar as vozes que se preocupam com o futuro da Amazônia. Ele mencionou a pintura dos muros do Parque Zoobotânico do Museu e a exposição do Instituto Tomie Ohtake, em cartaz no parque, como exemplos desta possibilidade de linguagem científica.
“Entendemos que instituições de ciência e projetos acadêmicos de pesquisa têm que se abrir a outras vozes, a outras formas de expressão, a outros modos de conhecimento”, disse o pesquisador. “É por isso que essas instituições assumem o compromisso de trabalhar com artistas, com populações indígenas, com vários tipos de coletivos sociais que também se preocupam com a Amazônia, que têm as suas maneiras de interpretar a região, de se expressar e de trazer ao mundo essas múltiplas vozes que estão ao nosso redor”, explicou Nelson Sanjad.

Outras formas de existir
Representando a Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e o projeto de pesquisa que deu origem à mostra de filme, chamado “Amazônia como microcosmo do Antropoceno: a história das pesquisas transnacionais em ecologia amazônica e os impactos ambientais da Grande Aceleração (1952-2002)”, financiado pelo CNPq e desenvolvido entre 2021 e 2025, a historiadora e pesquisadora Dominichi de Sá. Ao parabenizar a equipe de curadoria, ela ressaltou a necessidade de aprender com o saber dos povos originários para construir o futuro.
“Eu destaco as produções de cineastas e coletivos indígenas, porque memórias para o futuro querem advertir da importância de outras formas de existir”, disse Dominichi, declarando estar honrada de fazer parte do evento. “Os povos originários ainda precisam de muitas formas de legitimação das suas vozes e existências, como essa mostra exatamente quer focalizar. Então, que venham muitas outras mostras e muitas outras possibilidades de dar vozes aos indígenas. Eu estou muito honrada de fazer parte dessa iniciativa”, concluiu.
Curadora da mostra ao lado de Alessandro Campos, Stella Oswaldo Cruz Penido relembrou momentos marcantes de sua trajetória como pesquisadora das obras do britânico Adrian Cowell que, em parceria com o goiano Vicente Rios, registrou, durante décadas, momentos ímpares dos povos indígenas, entre eles, o primeiro contato dos povos isolados com homens brancos, a organização dos seringueiros, o surgimento do movimento ambientalista amazônico e os bastidores da violência no campo. Em contato com pesquisas atuais sobre os impactos das crises climáticas na Amazônia, Stella fomentou o desejo de realizar a mostra. “Surgiu então a ideia de realizar uma mostra que atualizasse as questões e problemas levantados nos seus filmes [de Adrian Cowell e Vicente Rios] com produções contemporâneas, valorizando a crescente e inovadora produção de inúmeros cineastas e coletivos audiovisuais indígenas”, afirmou a curadora.

Vídeo nas Aldeias: “ferramenta de luta”
Ao lado da esposa Virgínia Valadão (1952-1998), o cineasta, indigenista, pesquisador, jornalista e repórter fotográfico Vincent Carelli iniciou o projeto Vídeo nas Aldeias em 1986, com objetivo de apoiar as lutas indígenas a partir da produção audiovisual produzida pelos próprios povos originários da Amazônia. Durante cerca de vinte anos, o projeto promoveu o encontro de populações indígenas com as suas imagens e com as suas narrativas documentadas em filmes que, ao final dos trabalhos, somaram mais de 70 filmes. Francês radicado no Brasil, Vincent Carelli foi homenageado na abertura da mostra e recebeu como uma espécie de troféu a representação do Curupira, figura lendária protetora da floresta.
Na mesa de debate que participou ao lado do cineasta Takumã Kuikuro, intitulada “Cinema, território de memórias”, Vincent Carelli falou sobre a necessidade de entregar as imagens capturadas dos povos indígenas para domínio dos mesmos. “Quanto da memória dos povos indígenas está sequestrada e escondida em gavetas, armários, reservas técnicas?”, questionou. “A gente vive um momento em que nem sabe se vai ter futuro. Então, o futuro é agora. É a hora de devolver essas imagens”, disse, anunciando que está trabalhando num projeto com este objetivo, mas enfatizou a ausência de instituições geridas pelos indígenas, que, na sua percepção, seriam ideais para guardar o material. “O Brasil é um país tão colonial que ainda não deu a oportunidade aos povos indígenas de terem suas instituições financiadas pelo Estado e geridas de forma autônoma. Ainda está faltando esse espaço”.
Após assistir aos filmes do projeto Vídeo nas Aldeias, do qual fez parte, o cineasta Takumã Kuikuro demonstrou nostalgia, reconhecendo nas cenas indígenas que já faleceram. “Eu estava assistindo o filme e fiquei muito emocionado vendo as pessoas que já partiram. Fiquei pensando muito que o nosso trabalho vai ficar para sempre. A nossa memória vai ficar para sempre, para a nova geração, como dizem. Realmente, é o nome da mostra, né? Memória e futuro”, refletiu Takumã, que em seguida apresentou a ideia do cinema também como arma de guerra. “O cinema é memória e ao mesmo tempo é uma ferramenta de luta, que hoje em dia está sendo cada vez mais usada pelo povo indígena. No início, a gente pensava só na cultura, em registrar as línguas, os rituais”, explicou. “O cinema hoje é uma ferramenta para a gente poder lutar, resistir, para a gente poder existir”, definiu Takumã.

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO DO FINAL DE SEMANA
Sábado 18/10 – RIOS DE MERCÚRIO, FLORESTA DOENTE
15h00: Lançamento:
• Um olhar inquieto: o cinema de Jorge Bodanzky, Liliane Maia e Jorge Bodanzky (2024, 86’), sessão seguida de comentário com Jorge Bodanzky
17h00: 1ª sessão:
• Montanhas de ouro, filme de Adrian Cowell e Vicente Rios (1984, 54’), sessão seguida de comentário com Nelson Sanjad (MPEG)
19h00: 2ª sessão
• Kayapó contra o Garimpo, Coletivo Beture (2022, 3’)
• Floresta Doente, Coletivo Audiovisual Wakoborũn (2024, 30’)
• Amazônia, a Nova Minamata?, Jorge Bodanzky (2022, 76’)
21h00: Debate: Jorge Bodanzky (Diretor) e Beka Munduruku (Cineasta), com mediação de Maria Elena López (UFPA).
Domingo 19/10 - AMAZÔNIA, RIOS DE SABERES
17h00: 1ª sessão
• Nas cinzas da floresta, filme de Adrian Cowell e Vicente Rios (1984, 52’)
• Tempestades da Amazônia, filme de Adrian Cowell e Vicente Rios (1984, 27’)
• Amazônia Climática, Tainá de Luccas (2019, 32’)
19h00: 2ª sessão
• Os últimos gelos tropicais, Tainá de Luccas (2020, 12’)
• Para onde foram as andorinhas?, Mari Corrêa (2015, 22’)
• A febre da mata, Takumã Kuikuro (2022, 10’)
• Amazônia: Sociedade Anônima, Estêvão Ciavatta (2019, 72’)
21h00: Debate: Takumã Kuikuro (Cineasta) e Helena Lima (MPEG), com mediação de Nelson Sanjad (MPEG).
PROGRAMAÇÃO COMPLETA
A programação completa pode ser baixada em arquivo PDF ou acompanhada no perfil da mostra no Instagram (@amazoniamemoriasparaofuturo). Também está disponível o catálogo da Mostra "Amazônia, memórias para o futuro", com as sinopses dos filmes e outras informações.