Cientistas acessam arquivo ambiental dos manguezais paraenses

Pesquisadores do Museu Goeldi estão inseridos em um estudo socioambiental coordenado pela UFPA que tem como um dos resultados previstos a recuperação de informações sobre as transformações dos ecossistemas costeiros do Pará, ao longo do tempo. O objetivo é comparar condições ambientais atuais dos manguezais com registros do passado, gerando informações que possam subsidiar sua conservação. 

Publicado em 23/10/2026 11:31Modificado há 13 horas
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caranguejo vermelho sobre parte árvore coberta de lama em manguezal
Os manguezais, além de capturarem carbono, são ecossistemas essenciais para a manutenção da biodiversidade e para a subsistência de comunidades (Foto: Zoneibe Luz/MPEG)

Agência Museu Goeldi – Como os manguezais paraenses se transformaram ao longo de centenas e de milhares de anos? A resposta deve vir de um grupo de pesquisadores vinculados à Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (Cocte/MPEG). Por meio de um estudo sistemático, os cientistas estão acessando o arquivo ambiental preservado nos ecossistemas costeiros do Pará, que documentam a história desses ambientes. A pesquisa inclui coletas de testemunhos de sedimentos e de impressões digitais deixadas pelos ciclos de carbono e de nitrogênio. Analisadas em finas camadas, as amostras de solo coletadas devem revelar mudanças ocorridas nas condições ambientais e nas fontes de matéria orgânica acumulada, ao longo do tempo. Comparando essas informações, os estudiosos entenderão como a natureza funcionava antes das intervenções humanas mais recentes. Esses subsídios servem para nortear eventuais tomadas de decisão envolvendo a preservação desses ecossistemas. 

quatro homens, dois em uma canoa e dois dentro de mangue, coletam sedimentos
Equipe coleta amostra de sedimentos em mangue (Foto: Zoneibe Luz)

A pesquisa integra um projeto maior, o “Estudo socioambiental da zona costeira do Estado do Pará: mapeamento dos ambientes costeiros, estoque de carbono e comunidades tradicionais extrativistas marinhas do entorno do ecossistema de manguezal”, coordenado pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e executado em rede por pesquisadores da própria UFPA, do MPEG e da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), com financiamento da Petrobras e colaboração de órgãos públicos ligados à gestão ambiental e territorial nas esferas federal e estadual, como o ICMBio, o Ideflor-Bio e a Semas. Também conta com a cooperação da Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas Costeiras e Marinhas (Confrem) e de lideranças e representantes de unidades de conservação, das comunidades tradicionais e de outras organizações locais.   

Na etapa de campo, os pesquisadores realizam visitas técnicas e trabalhos com comunidades e unidades de conservação, incluindo mapeamentos participativos, entrevistas e oficinas, que abrangem 27 municípios costeiros. As atividades foram iniciadas em dezembro do ano passado e devem se estender até o final do próximo ano. As equipes são formadas por pesquisadores das instituições participantes do projeto, cada em suas áreas de pesquisa. O trabalho da equipe do Museu Goeldi – formada pelos pesquisadores José Francisco Berrêdo Reis da Silva, Ana Paula Linhares Pereira, Paula Godinho Ribeiro e Zoneibe Augusto Silva Luz – concentra-se nas áreas de geoquímica elementar, geoquímica isotópica, saúde do sedimento/solo e bioestratigrafia dos manguezais.  

Quatro homens e uma mulher posam para selfie dentro de barco
Zoneibe Luz (segundo do lado esquerdo) e equipe do projeto em etapa de campo

Conhecimento local integrado

De acordo com o coordenador da Cocte/MPEG, Zoneibe Luz, nas atividades de campo, é importante também a participação de pessoas da comunidade. Normalmente, inclui-se o trabalho de um guia local, geralmente um pescador, que conhece bem os rios, os estuários, os canais e os bancos de areia da região. Uma campanha (ou expedição) dura, aproximadamente, duas semanas, e os pesquisadores conseguem trabalhar em até quatro rios diferentes, em cada campo. Por isso, em alguns locais, procuram pescadores nos próprios portos, integrando aqueles que tenham interesse e disponibilidade para acompanhar a equipe e indicar os melhores acessos aos pontos de coleta. 

“Além da ajuda prática, essa convivência proporciona uma troca muito interessante. Muitos contam histórias sobre os rios, a pesca e as mudanças que observaram na região, ao longo dos anos. São momentos bastante particulares do trabalho de campo e que aproximam o conhecimento local do trabalho científico. Uma dessas pessoas que merece ser citada é Josué Oliveira, pescador de Algodoal e piloto da voadeira utilizada nas campanhas. Ele auxilia nos trabalhos de campo do Museu Goeldi e da UFPA há mais de 30 anos e tem uma experiência muito grande de navegação e apoio às coletas na região costeira”, destacou o pesquisador.

Arquivo ambiental

Folhas, algas, matéria orgânica e nutrientes transportados pelos rios, além de aportes de origem humana, como esgoto e atividades agrícolas, são meios de introdução de carbono e nitrogênio nos ambientes costeiros. Analisando esses elementos no solo, os pesquisadores fazem uma espécie de consulta ao arquivo ambiental, que são os manguezais, que, além de bercários da vida marinha, são também sequestradores de carbono e fontes de subsistência para comunidades locais. 

Zoneibe Luz explica que os manguezais preservam informações ambientais, em diferentes escalas de tempo, que estão presentes, por exemplo, nos sedimentos, nos organismos, nas estruturas de crescimento, nas carapaças. Formadas ao longo do tempo, cada camada de sedimento dos manguezais acumula informações sobre as condições ambientais de uma época diferente.

Para rastrear as transformações ambientais, de acordo com o pesquisador, os cientistas analisam isótopos (variantes naturais) de carbono e de nitrogênio (δ¹³C e δ¹⁵N). São essas assinaturas, impressões digitais, que, combinadas com outros dados, ajudam a identificar as fontes da matéria orgânica e a entender como o carbono e o nitrogênio circularam pelo ambiente em diferentes momentos. As análises podem, por exemplo, ajudar a distinguir mudanças na contribuição de fontes terrestres e marinhas e, em conjunto com outros indicadores, identificar possíveis sinais de influência humana. 

E nada se perde nessa pesquisa: “O material remanescente das amostras coletadas para o projeto também é aproveitado em estudos complementares de geoquímica e de registros microscópicos, que podem ajudar a datar os períodos e a reconstruir as paisagens do passado”, explicou Zoneibe Luz, que participou de oito das nove atividades de campo previstas na etapa, nos municípios de Bragança, Augusto Corrêa, Viseu, Tracuateua, Primavera, Quatipuru, Santarém Novo, São João de Pirabas, Salinópolis e Maracanã. Está em andamento a atividade em Marapanim.

Coleta de testemunhos 

foto mostra um cano de pvc e um trado, objeto de metal com faixas oxidadas
Coleta de sedimentos: à esquerda, uma calha; ao lado o trado russo, com faixas de oxidação (Zoneibe Luz/MPEG)

Em campo – munidos de trados, calhas de PVC, espátulas, fichas de dados, canetas, trenas, caixa térmica, GPS, câmeras fotógrafas, tablet e outros materiais – os cientistas do Museu Goeldi e da UFPA coletam testemunhos de sedimentos (amostras de solo), para dois fins: entender as mudanças ambientais ao longo do tempo (pesquisa a cargo dos pesquisadores do MPEG) e determinar o estoque de carbono nos manguezais (estudo sob a responsabilidade de pesquisadores da UFPA). 

Essa coleta e a posterior análise seguem um protocolo que garante manter a estrutura da amostra intacta, ou seja, as camadas não podem ser perturbadas e reviradas para não perderem o contexto. Assim, para a coleta das amostras, a equipe usa equipamentos cilíndricos que são inseridos verticalmente no solo e, quando retirados, preservam a ordem das camadas. Tudo é feito cuidadosamente e sem compactar o solo.  Todo o processo é fotografado e registrado com informações que possibilitam identificar a área e outros dados da coleta. 

De acordo com Zoneibe Luz, para coletar amostras nas camadas superficiais, usa-se um tubo manual de PVC, que é empurrado com as mãos para dentro da lama, chegando a cerca de 40 centímetros de profundidade. Já para recuperar testemunhos mais profundos, a equipe utiliza o trado russo, um equipamento com haste metálica que permite retirar segmentos de aproximadamente 50 centímetros, sucessivamente. Nas campanhas realizadas, segundo o pesquisador, a coleta chegou a três metros de profundidade. 

“Esses testemunhos são importantes porque preservam uma sequência de camadas do sedimento. Depois, o material é mantido refrigerado e levado para uma estrutura de apoio, onde são analisadas salinidade, condutividade e temperatura. Os materiais são separados e destinados às diferentes análises e aos laboratórios parceiros. Para o Museu Goeldi, uma parte importante do trabalho consiste justamente em aproveitar o material remanescente dessas coletas e análises, que poderiam ser descartadas, para fazer estudos complementares de isótopos, geoquímica e de bioestratigrafia, sem interferir nas análises previstas no projeto principal”, explicou. 

Ampliando a escala geográfica

No laboratório, os testemunhos de sedimento são divididos em partes de acordo com a profundidade, e cada porção recebe uma preparação específica, conforme o tipo de análise. Dependendo do que será investigado, o material pode ser seco, peneirado ou submetido a tratamentos químicos antes das análises.

“Ainda não temos resultados das campanhas realizadas, pois o material está passando pelas etapas de preparação e análise. Seria ainda prematuro apresentar alguma conclusão sobre as áreas estudadas nesta etapa do projeto. Analisar testemunhos para verificar o passado não é uma abordagem nova. No entanto, no projeto atual, o diferencial é a escala espacial: pela primeira vez, todos os manguezais do Pará serão estudados de maneira integrada e interdisciplinar, provendo uma oportunidade única de realizar uma reconstrução ambiental que inclua todos esses ecossistemas, que são muito importantes para a conservação do meio ambiente”, destacou Luz.

As análises diretamente previstas no projeto principal, incluindo as relacionadas à determinação dos estoques de carbono (a cargo da UFPA), seguem o planejamento do projeto e serão realizadas em laboratórios nacionais. Já parte das análises complementares desenvolvidas pelo Museu Goeldi, especialmente as isotópicas, deverá envolver colaboração científica com a Suíça (Universidade de Lausana). 

Integrando jovens pesquisadores

O coordenador da Cocte também explica que, além dessa pesquisa, parte do material coletado está sendo aproveitado em projetos de iniciação científica (Pibic), que são programas com adesão principalmente de jovens pesquisadores, realizados em cursos de graduação. São duas pesquisas em andamento, no âmbito do Museu Goeldi, voltadas à reconstrução da evolução ambiental e da ciclagem de carbono e de nitrogênio nos manguezais dos rios Piriá e Gurupi, em Viseu. 

“Ou seja, o material coletado no projeto principal também está permitindo o desenvolvimento de novas pesquisas. Acho que essa é uma das características interessantes da participação do MPEG: a coleta é integrada ao projeto maior, mas o material obtido permite abrir novas frentes de pesquisa e gerar diferentes estudos, a partir de uma mesma atividade de campo”, destacou o pesquisador Zoneibe Luz. 

Paisagem de área de manguezal paraense com parte de rio e árvores às margens

Um projeto e várias frentes

O projeto maior, o “Estudo socioambiental da zona costeira do Estado do Pará: mapeamento dos ambientes costeiros, estoque de carbono e comunidades tradicionais extrativistas marinhas do entorno do ecossistema de manguezal”, é coordenado pelo pesquisador Pedro Walfir Martins e Souza Filho (UFPA) e conta com coordenações em eixos temáticos. No eixo socioeconomia, é coordenado por Gilberto de Miranda Rocha (UFPA); no eixo carbono e biologia, por Marcus Emanuel Barroncas Fernandes (UFPA); e no eixo pesca, por Rosália Furtado Cutrim Souza (Ufra). 

A pesquisa tem como objetivo a realização de um amplo estudo socioambiental dos manguezais da zona costeira do Pará, envolvendo cinco setores: Marajó Ocidental, Marajó Oriental, Continental Estuarino, Fluviomarítimo e Costa Atlântica Paraense. Estão sendo investigados o estado de conservação e as possíveis áreas de degradação dos manguezais, o estoque de carbono na vegetação e nos sedimentos, a dinâmica sedimentar e as características socioeconômicas e pesqueiras das comunidades tradicionais que utilizam esses ambientes. Ao longo do estudo, serão analisadas 178 comunidades pesqueiras distribuídas nos 27 municípios costeiros do Pará com áreas de manguezal, que também contemplam 18 unidades de conservação.

A colaboração em rede é justificada pela dimensão territorial e interdisciplinar da pesquisa, que exige a integração de diferentes especialidades, instituições e conhecimentos locais. De acordo com os pesquisadores envolvidos, a cooperação permite reunir, em um mesmo estudo, informações ambientais, geográficas, biogeoquímicas, pesqueiras e socioeconômicas que seriam muito mais difíceis de produzir de forma isolada. A participação das comunidades é particularmente importante para compreender os usos do território, validar informações e identificar demandas locais. Já a integração entre dados de campo e sensoriamento remoto permite ampliar resultados pontuais para toda a zona costeira do Pará.

Texto: Andréa Batista

Revisão: Carla Serqueira

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Ciência e Tecnologia
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