‘Cecília-maria’ é a mais nova integrante da família Siphonopidae
Descrita e nomeada cientificamente como ‘Siphonops maria’, a nova espécie homenageia uma mulher escravizada no século XIX e outras Marias do Brasil. Combinando análises genéticas, de características externas, de dentição e de ossos do crânio, o estudo, liderado pelo Museu Goeldi, identifica características ocultas em anfíbios aparentemente idênticos, mas distintos morfológica e geneticamente.

Agência Museu Goeldi – A mais nova integrante da família Siphonopidae chama-se Siphonops maria ou, simplesmente, ‘cecília-maria’. Ela é do Rio de Janeiro; mede, no máximo, 192 mm de comprimento; tem de 110 a 119 anéis corporais; e possui olhos pequenos e cobertos por pele. Por esse último detalhe, as cecílias também são chamadas de ‘cobras-cegas’, embora sejam anfíbios. O equívoco não é o único envolvendo a identificação desses discretos animais. Um estudo liderado por cientistas do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), instituição vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), identificou que alguns espécimes estão erroneamente catalogados em coleções herpetológicas. Entre esses, estava ‘cecilia-maria’, que, após a pesquisa, foi descrita e nomeada devidamente.
Os achados foram registrados no artigo científico “Avaliação filogenética e osteológica de espécimes atribuídos a Siphonops hardyi (Gymnophiona: Siphonopidae), com a descrição de uma nova espécie do Rio de Janeiro, Brasil”, publicado no Zoological Journal of the Linnean Society, no início deste mês. Foi escrito pelos pesquisadores Adriano Oliveira Maciel, Manuela Vieira dos Santos, Ana Lúcia da Costa Prudente, vinculados à Coordenação de Zoologia do Museu Goeldi (Cozoo/MPEG), com a contribuição de cientistas independentes e de outras instituições de pesquisa nacionais e internacionais (lista completa no final do texto).
De acordo com o estudo, as análises se concentraram na segunda família mais rica em espécies de cecílias da América do Sul, a Siphonopidae, que registra ocorrências em todos os biomas brasileiros, mas com maior concentração de espécies na Amazônia e na Mata Atlântica. O foco da pesquisa foi na espécie Siphonops hardyi, com ocorrência na Mata Atlântica brasileira, cujo nome tem sido usado, equivocadamente, para catalogar diversos espécimes de linhagens semelhantes, em relação ao aspecto externo, mas consideravelmente diferentes.
Nos laboratórios do Museu
O pesquisador Adriano Maciel destaca que o estudo foi conduzido principalmente no Laboratório de Herpetologia do Museu Goeldi, chefiado pela pesquisadora Ana Prudente, mas também com etapas desenvolvidas no Laboratório de Biologia Molecular do MPEG, mantido com financiamento da Finep, por meio do projeto “Parque Analítico do MPEG: Análise de Transformações na Amazônia e seus Efeitos na Sociobiodiversidade e na Paisagem”. “Além disso, as imagens adquiridas no Laboratório de Microtomografia de Alta Resolução do MPEG também foram decisivas para o refinamento das comparações entre o crânio da cecília-maria e as demais espécies de seu gênero”, ressaltou. A pesquisa também contou com bolsa de pós-doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq e recebeu apoio de uma bolsa de doutorado das fundações de pesquisa de São Paulo e do Pará, Fapesp e Fapespa, respectivamente.
Foram também examinadas amostras do GenBank, o banco de dados público de sequências genéticas mantido pelo National Center for Biotechnology Information (NCBI). No Brasil, foram analisados espécimes conservados no Museu Goeldi (Belém, PA), no Museu Nacional (Rio de Janeiro, RJ), na Coleção Célio Haddad (Unesp, Rio Claro, SP) e no Museu de Diversidade Biológica da Unicamp (Campinas, SP). O levantamento também contou com acervos do Museu Nacional de História Natural de Paris (França) e do Museu Zoológico de Hamburgo (Alemanha), além de dados de tomografia computadorizada do crânio de um exemplar depositado no Museu de Zoologia da Universidade de Michigan (EUA).


Combinação de análises genéticas e ósseas
Os cientistas combinaram análise filogenética molecular – para entender o parentesco e a história evolutiva desses animais – com morfologia externa, dentição e estudo comparativo dos ossos do crânio (osteologia). Para a análise filogenética, os cientistas primeiro extraíram o DNA das amostras e sequenciaram três marcadores genéticos mitocondriais específicos (12S, 16S e COI). Usando programas de computador, montaram uma árvore evolutiva (filogenia), determinando o grau de parentesco entre os indivíduos e identificando suas linhagens.
No estudo da morfologia externa e da cavidade oral, contaram os anéis corporais e número de dentes, entre outras características. Na osteologia comparativa dos crânios, os pesquisadores utilizaram diversas ferramentas tecnológicas e informações, por exemplo, obtiveram tomografias computadorizadas de alta resolução e fotografias de crânios de outros estudos; e consultaram estudos anatômicos clássicos e contemporâneos. Assim, puderam reconstruir crânios tridimensionais e analisar vários detalhes morfológicos, como a forma de cada osso, a quantidade e a posição dos dentes, o encaixe das suturas e as aberturas (forames) por onde passam vasos e nervos sensoriais dos anfíbios. Foram observados quase 30 parâmetros diferentes, que ajudaram a identificar diferenças anatômicas únicas de cada grupo.

Rearranjos na família e habitat
“Nas análises, encontramos o parafiletismo do gênero Siphonops, pois indivíduos com características atribuídas a Siphonops foram agrupados com indivíduos com características tradicionalmente atribuídas a Luetkenotyphlus, outro gênero da família. Isso mostra que as características antes consideradas exclusivas de Luetkenotyphlus não definem uma linhagem evolutiva independente, não justificando o reconhecimento dos dois grupos como gêneros distintos. Para corrigir isso, reunimos esses grupos aparentados sob um único gênero, considerando Luetkenotyphlus sinônimo de Siphonops”, explicou o pesquisador Adriano Maciel.
A Siphonops maria (nome científico) ou cecília-maria (nome vernacular sugerido) foi registrada em fragmentos de Mata Atlântica em diferentes condições de conservação no estado do Rio de Janeiro, alguns dos quais nas proximidades de áreas urbanizadas, a maioria unidades de conservação municipais, estaduais e federais. No artigo, os pesquisadores reforçam a importância da preservação desses remanescentes florestais para a manutenção da biodiversidade do bioma. Outras duas espécies muito parecidas a Siphonops hardyi seguem sem nomeação, aguardando outros estudos, por causa da ausência de dados genéticos da localidade-tipo de Siphonops hardyi. A família Siphonopidae, com a descrição de cecília-maria, agora compreende 29 espécies terrestres, distribuídas em quatro gêneros reconhecidos na América do Sul, principalmente na Amazônia e na Mata Atlântica.
Por que “cecília-maria”?
Cecília é o nome usado para identificar os anfíbios escavadores, com hábitos subterrâneos, da ordem Gymnophiona, que inclui a família Siphonopidae. A palavra deriva do latim (caecus, 'cego') e faz alusão aos olhos reduzidos dos animais, uma característica evolutiva ligada ao seu hábito de escavar e de viver enterrados. Maria foi uma forma de homenagear uma das 11 pessoas escravizadas que participaram do reflorestamento da Floresta da Tijuca, hoje abrangida pelo Parque Nacional da Tijuca. Ela não tinha sobrenome, pois o sistema escravocrata negava às pessoas escravizadas identidade individual.
Os pesquisadores registram no artigo que a área havia sido submetida a extenso desmatamento desde a fundação da cidade, em 1565, principalmente devido à exploração madeireira para construção e cultivo de café. “Entre 1861 e 1874, sob ordem do imperador Dom Pedro II, Maria e outras 10 pessoas escravizadas plantaram mais de 100 mil árvores, contribuindo para a restauração da floresta e das nascentes que abasteciam a então capital do Brasil, que havia sido severamente afetada pelo desmatamento”. Também justificam que Maria tem sido, historicamente, o nome feminino mais comum no Brasil, sendo usado atualmente por mais de 11 milhões de mulheres, segundo o IBGE, o que o torna uma homenagem às mulheres brasileiras, sendo, inclusive, parte de nomes de mães, irmãs, tias, avós e bisavó e esposa de autores do artigo.
Necessidade de revisão taxonômica
Além de apresentar uma revisão taxonômica e filogenética da família Siphonopidae, descrever e nomear uma nova espécie e identificar erros de catalogação em coleções herpetológicas, o estudo destaca a necessidade de uma revisão taxonômica detalhada e abrangente de S. hardyi. Essa revisão seria feita a partir de materiais das localidades originais para organizar a classificação e identificar quantas espécies existem sob esse nome dentro do ameaçado bioma Mata Atlântica.
A nova espécie
Nome científico: Siphonops maria
Nomes populares sugeridos pelos autores: cecília-maria, cobra-cega-de-maria
Família: Siphonopidae
Gênero: Siphonops
Ocorrências: Mata Atlântica, municípios do Rio de Janeiro e Niterói – RJ
Os pesquisadores autores e suas respectivas instituições e localidades de origem:
Adriano Oliveira Maciel: Coordenação de Zoologia, Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), Belém, Pará, Brasil.
Leandro de Oliveira Drummond: Laboratório de Ciências Ambientais, Centro de Biociências e Biotecnologia, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, Brasil.
Paulo R. Melo-Sampaio: Ciência e Tecnologia do Acre, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Acre (IFAC), Xapuri, Acre, Brasil.
Cristian Hernández-Morales: Instituto Argentino de Investigaciones de las Zonas Áridas, Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), Mendoza, Argentina; Escuela de Biología, Universidad Industrial de Santander, Bucaramanga, Colômbia.
Manuela Vieira dos Santos: Coordenação de Zoologia, Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, Pará, Brasil.
Iracilda Sampaio: Laboratório de Genética e Biologia Molecular, Instituto de Estudos Costeiros, Universidade Federal do Pará (UFPA), Bragança, Pará, Brasil.
Horacio Schneider: Laboratório de Genética e Biologia Molecular, Instituto de Estudos Costeiros, Universidade Federal do Pará (UFPA), Bragança, Pará, Brasil.
Lucas de Souza Almeida: Laboratório de Herpetologia, Departamento de Biodiversidade e Centro de Aquicultura (Caunesp), Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista ‘Júlio de Mesquita Filho’ (Unesp), Rio Claro, São Paulo, Brasil.
Thiago Marcial de Castro: Pesquisador Independente, Guarapari, Espírito Santo, Brasil.
Edelcio Muscat: Projeto Dacnis, Ubatuba, São Paulo, Brasil.
Luís Felipe Toledo: Laboratório de História Natural de Anfíbios Brasileiros (LaHNAB), Departamento de Biologia Animal, Instituto de Biologia, Unicamp, Campinas, São Paulo, Brasil.
Alexander Kupfer: Department of Zoology, State Museum of Natural History, Stuttgart, Alemanha;Institute of Biology, University of Hohenheim, Stuttgart, Alemanha.
Ana L.C. Prudente: Coordenação de Zoologia, Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), Belém, Pará, Brasil.
Texto: Andréa Batista
Revisão: Carla Serqueira