Campus do Museu Goeldi abre suas portas e apresenta pesquisas ao público
Nesta sexta-feira (30/10), Museu de Portas Abertas (MPA) leva grupos escolares e visitantes para conhecer reservas técnicas e laboratórios de pesquisa na base do MPEG, no bairro da Terra Firme. Programa de divulgação científica já esteve em Ananindeua e Marituba e atraiu participantes também para o Parque Zoobotânico, em Belém.

Agência Museu Goeldi – Depois de passar pelos municípios de Ananindeua e Marituba, e pelo Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, na próxima sexta-feira (30/10), a programação do Museu de Portas Abertas (MPA) chega ao Campus de Pesquisa do MPEG, localizado no bairro da Terra Firme, na capital paraense. A iniciativa integra a 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, promovida pelo Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI) com o tema “Ciência Delas”. Das 9h às 16h, grupos escolares e demais visitantes poderão conhecer laboratórios e coleções didáticas da arqueologia, botânica e paleontologia. Em vários pontos do Campus, as pesquisas desenvolvidas na instituição serão apresentadas aos participantes. Veja a programação completa no final desta reportagem.

Quem foi ao Parque Zoobotânico (PZB) na última terça-feira (27/10), já teve a chance de participar das atividades do MPA, programa de divulgação científica em funcionamento há mais de 40 anos na instituição. Antony, Daniela, Valéria, Robson e Lana têm idades e vivências diferentes, mas, neste dia, compartilharam uma experiência em comum: o contato direto com a ciência. Em 10 pontos espalhados pelo Parque, pesquisadores das áreas de zoologia, botânica, ciências humanas, ciências da terra e ecologia falavam sobre os estudos científicos de uma forma que, inclusive, Antony da Silva, de 5 anos, pudesse compreender.
“Quero ser cientista e fazer muitas experiências”, disse o menino, depois de uma manhã inteira visitando os espaços do parque, com os pais Valéria da Silva e Antônio Maria Zacarias e os colegas de sua turma de educação infantil. A mãe contou que, durante a conversa com os pesquisadores e mediadores, eles souberam que o Museu Goeldi recebe crianças e adolescentes no Clube de Pesquisadores Mirins para atividades semanais e, então, Antony falou: “Mãe, quando eu tiver 9 anos quero vir ‘trabalhar’ no Museu’”.
A professora Lana Santos foi a responsável pela ida do grupo de pais e alunos ao Parque do Museu. “A gente estava se preparando para a visita quando vi o convite nas redes sociais. E essa atividade é diferente porque dá acesso às pesquisas que estão sendo desenvolvidas. São crianças de 4 a 6 anos tendo seus primeiros contatos com a pesquisa. O projeto é bonito e interessante”, ressaltou.
Uma visita ao reino fungi
Não importa a idade, o contato com a ciência quase sempre provoca surpresa, encantamento e crescimento. Daniela Tatsch e Hugo Amaral são de Porto Alegre (RS) e estavam interessados nos fungos expostos em um dos pontos montados no Centro de Exposições Eduardo Galvão, localizado dentro do parque. “A gente colocou o Museu na nossa listinha de lugares para visitar. E que bom que a gente veio hoje. Entramos agora e já vimos as cutias soltas, a imensidão da vegetação, as árvores todas misturadas; os animais, o bicho-preguiça, o tamanduá. Agora estamos dando uma olhadinha nessa exposição. Estamos tendo a surpresa desse projeto incrível. A gente não esperava. Está sendo emocionante”, resumiu ela. O casal foi uma das primeiras visitas e, no final da manhã, ainda era visto pelo parque.

Luana Miranda, doutora em botânica e pesquisadora voluntária do Museu, falava aos visitantes sobre o reino fungi, que é visto ainda com certo preconceito “quando é visto”, pois muitas vezes são invisíveis (pelo tamanho) ou invisibilizados (por serem subestimados). “A maioria das pessoas vê os fungos como algo ruim, causadores de mofo e de doenças. Queremos desmistificar essa ideia. Muitos são inofensivos, outros são alimentos para animais e para pessoas, alguns usados na indústria farmacêutica e todos essenciais para a ciclagem de nutrientes, inclusive, muitas vezes sendo responsáveis pela continuidade da vida na fauna e na flora”, disse. No local, várias espécies de fungos com texturas, tamanhos, cores e formas diferentes podiam ser tocados e observados pelos visitantes.
Protagonismo feminino
No Centro de Exposições Eduardo Galvão, além do espaço “Fungos: tem sempre um perto de você”, a Coordenação de Botânica (Cobot) expôs trabalhos no ponto “Morfologia e anatomia de frutos e sementes”. No local, também foram montados dois pontos da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia (Cocte): “Manas que desvendam fósseis” e “Paleontologia na Diversidades Amazônicas”. Próximo ao Lago do Tambaqui, a Coordenação de Ciências Humanas (Cochs) apresentou a “Arqueologia de Caxiuanã — memórias, descobertas e o protagonismo de arqueólogas no Marajó”. Já a Coordenação de Zoologia contou com dois espaços: “Invertebrados” e “Entre águas e florestas: uma jornada pelas formas e diversidade, biologia e conservação de peixes e serpentes amazônicas”.

O MPA no Parque Zoobotânico contou também com a participação do Setor de Veterinária, que apresentou “Diferenças Anátomo-morfológicas de mamíferos, aves, répteis e peixes”, na Praça Isolda, localizada próxima ao Aquário Jacques Huber; com a exposição “Percursos em Terra Firme”, do Ponto de Memória da Terra Firme, bairro onde o Museu de Portas Abertas foi iniciado, sob a liderança da educadora e servidora do MPEG Helena Quadros; e com a apresentação da Coleção Didática Emília Snethlage. Dedicados ao tema “Ciência Delas”, todos os espaços destacaram o protagonismo das mulheres nas ciências, seja com a presença direta de pesquisadoras nas equipes, seja com a apresentação de estudos realizados por pesquisadoras do Museu Goeldi.
Inspiração itinerante

Marcando o início da programação do Museu de Portas Abertas neste ano, no último dia 21, o programa de divulgação científica chegou à Escola Estadual Salesiana do Trabalho, em Ananindeua, e no dia 23, à Escola Estadual Juscelino Kubitschek. Um ônibus com cerca de 30 pesquisadores do Museu Goeldi, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Universidade Federal do Pará (UFPA), além de lideranças do Ponto de Memória da Terra Firme, levaram não só conhecimentos sobre fauna, flora, arqueologia, memória, patrimônio, clima, água e território na Amazônia, mas incentivo e inspiração para que as meninas possam sonhar com a carreira de cientista.

Para a professora da Escola Estadual Salesiana do Trabalho, Ana Caroline Upton, o MPA ajuda a ampliar as possibilidades de futuro para as estudantes. “Achei muito bacana o tema ser sobre mulheres e as expositoras serem cientistas. Isso ajuda as estudantes da nossa escola a entender que elas têm outros caminhos, outras escolhas, que podem continuar os estudos. Isso incentiva outras possibilidades. Nas duas escolas, a programação contou com mesas expositivas, com o jogo “Ciência Delas na Amazônia” e com a confecção de um mural sobre as experiências trocadas nas exposições, que incluíram animais empalhados, fósseis, experimentos, amostras de folhas, sementes, frutos, entre outros itens.
Professora da Escola Estadual Juscelino Kubitschek, Jéssica Costa afirma que a versão itinerante do MPA permite que os alunos acessem outros lugares sem sair de suas cidades. “Sempre vemos essa oportunidade como algo muito benéfico. Trazer os expositores, as vozes dessas pessoas, para que os estudantes possam conhecer e se identificar é muito importante para terem uma amplitude no conhecimento, principalmente no aspecto psicopedagógico, social e histórico”, ressaltou, destacando a importância do tema “Ciência Delas” para as meninas. “Muitas vezes, a ciência fica fechada nos museus, nas instituições, então é importante um projeto como este chegar nas escolas e mostrar para as meninas que elas têm possibilidades de atingir patamares que talvez nem estejam sonhando ainda”.
Descobertas científicas
Estudante em Ananindeua, Izys Oliveira, de 12 anos, gostou de ver os animais empalhados e ficou curiosa para entender como os insetos eram alfinetados. “Como sou do interior, já tenho consciência sobre alguns insetos. Eu já sabia que alguns não ferravam, que não tinham veneno, que não eram perigosos. Eu chegava até a cuidar de alguns, dava água”, contou, lembrando da infância. Mas uma coisa Izys nem imaginava: que os carrapatos podem ser considerados parentes das aranhas, dos escorpiões e das centopéias, pois fazem parte do grupo dos aracnídeos. “Achei isso bem legal, eu não sabia!”, admirou-se.

Maria Luiza tem 15 anos e também mora em Ananindeua. Ela nunca tinha ouvido falar do Museu Goeldi. “Hoje foi meu primeiro dia ouvindo sobre o Museu, achei muito interessante, quero ter a oportunidade de ir em Belém visitar”, conta. Entre os novos aprendizados que adquiriu nas exposições do MPA, um a fez sorrir: “Eu achei que aquele negócio de colocar as paquinhas na mão e amassar para escrever mais rápido na escola era verdade, mas aqui descobri que não é. Achei isso muito legal”, explicou, entre risos, se referindo a uma crença popular acerca do inseto, cujo nome científico é Gryllotalpa hexadactyla.
Em Marituba, a estudante Sofia Reis, de 17 anos, revelou a intenção de considerar a possibilidade de um dia se tornar cientista. “Eu achei a exposição muito boa, muito didática, estou aprendendo bastante e achei interessante conhecer mais sobre os fósseis, uma coisa que a gente não tem tanto dentro da sala de aula, por ser um ambiente bem limitado. Particularmente, estou muito interessada em seguir a profissão”, contou ela, que estuda na mesma escola que Isabelle Nascimento, também com 17 anos. “O evento nas escolas é muito importante para os alunos que não têm recursos suficientes para ir a um museu. Acho esse tipo de evento muito eficiente. Aprendi sobre os anfíbios, como é feita a conservação dos fósseis… Me falaram que tinha mulheres que fizeram o museu. Eu não sabia disso. Achei muito interessante. Descobri muita coisa legal”, atestou.
Satisfação por divulgar a ciência
Engenheira florestal, mestre em botânica tropical e atualmente no curso de doutorado em botânica, Zelina Ataíde participa do MPA desde 2017. “Para mim, o principal ganho é levar o nosso trabalho para a sociedade, principalmente para as escolas, ver o que a gente apresenta como incentivo para os estudos das crianças, para a vida delas. Muitas vezes, elas estão participando de um evento científico pela primeira vez”, disse ela, durante o MPA realizado em Ananindeua.
Pela primeira vez, Camila Palheta participa do MPA. Formada em pedagogia e estagiária do Serviço de Educação do Museu Goeldi, ela explica que, nos diálogos, os estudantes compreendem melhor como é fazer ciência. “O projeto mostra o quanto é importante fazer ciência, o quanto que tem uma fundamentação para fazer pesquisa e que os estudantes também podem fazer. Então, é a forma mais bacana de levar os estudantes para a área científica. E não pensar só: Eu vou fazer o Enem, eu vou fazer medicina, vou para o curso de direito. Eles também podem pensar: Eu também posso ser pesquisador”, avaliou.
Chefe do Serviço de Educação do Museu Goeldi, setor responsável pelo Museu de Portas Abertas, Mayara Larrys destaca que o MPA tem o objetivo de levar para as pessoas não iniciadas nas ciências os conhecimentos que geralmente ficam restritos à academia, usando materiais e linguagens acessíveis. “Crianças, jovens e adultos são convidados a conhecer as áreas de pesquisa a partir de materiais e de experiências dinâmicas, práticas, ouvindo os pesquisadores das áreas”, disse a educadora, destacando que o projeto oferece a todos os públicos a oportunidade para se fazer essa inicialização científica. Neste ano, o MPA contou com a parceria do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), da Embrapa, da UFPA e do Ponto de Memória da Terra Firme.

Texto: Andréa Batista e Carla Serqueira, com a colaboração de Matheus Neves
Revisão: Erika Morhy
SERVIÇO: Museu de Portas Abertas no Campus de Pesquisa do Museu Goeldi Data: 30 de outubro (sexta-feira) Horário: das 9h às 16h |
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ATIVIDADES: |
Estação Araceae e Bromeliaceae. Turno: manhã. Local: Auditório Setorial da Coordenação de Botânica |
A diversidade biocultural do açaí. Turno: manhã. Local: Auditório Setorial da Coordenação de Botânica |
Tecnologias que despertam sementes: Inovação e inteligência artificial na Amazônia. Turno: manhã. Local: Laboratório de Biotecnologia de Propágulos e Mudas - LBPM. |
Morfologia e anatomia de frutos e sementes. Turnos: manhã e tarde Local: Auditório da Coordenação de Botânica |
Anatomia de folhas, caule e raiz. Turnos: manhã e tarde Local: Auditório da Coordenação de Botânica |
Plantas aromáticas Turno: manhã Local: Coordenação de Botânica |
Fungos: tem sempre um perto de você Turnos: manhã e tarde Local: Auditório da Coordenação de Botânica |
Ecologia de cutias no Parque Zoobotânico Turno: manhã e tarde Local: Sala 38 da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia |
Paleontologia e Tecnologias digitais Turno: manhã Local: Laboratório 3D e acervo de Paleontologia |
Manas que desvendam fósseis Turnos: manhã e tarde Local: Entrada da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia |
Solos da Amazônia Turnos: manhã e tarde Local: Entrada da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia |
Arqueologia de Caxiuanã — memórias, descobertas e o protagonismo de arqueólogas no Marajó Turnos: manhã e tarde Local: Laboratório de Arqueologia no prédio da Coordenação de Ciências Humanas |
60 anos de Estudos da Antropologia da Pesca na Amazônia Turnos: manhã e tarde Local: Próximo a casa cenográfica de Chico Mendes |
Percurso em Terra Firme Turnos: manhã e tarde Local: Bosque Helena Quadros |
Invertebrados Turnos: manhã e tarde Local: Bosque Helena Quadros |
Entre águas e florestas: uma jornada pelas formas e diversidade, biologia e conservação de peixes e serpentes amazônicas. Turnos: manhã e tarde Local: Bosque Helena Quadros |