Arqueologia amazônica e design se encontram em roda de conversa no Museu Goeldi
Pesquisadoras destacam importância da difusão científica para gerar conhecimento e promover a conservação dos sítios arqueológicos; designer e ceramista contam como as pesquisas inspiraram os seus trabalhos.

Agência Museu Goeldi e Projeto AMA – “A divulgação científica pode ser feita por vários caminhos. Eu acho que o design é um deles”, afirmou Edithe Pereira, pesquisadora emérita do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), durante roda de conversa realizada na última quinta-feira (27/08), no auditório do Centro de Exposições Eduardo Galvão, no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi. O encontro, que contou com o apoio do Laboratório de Comunicação Pública da Ciência na Amazônia (LabCom), teve como foco as possibilidades de aproximar o conhecimento arqueológico da sociedade, por meio de diferentes linguagens, e reuniu também a arqueóloga e pesquisadora Cristiana Barreto (por videoconferência), a designer Isabela Sales e a produtora cultural e ceramista Cilene Marajoara .
A conversa reuniu estudantes, pesquisadores e interessados no tema para refletir sobre as contribuições das pesquisas científicas amazônicas para a construção de novas formas de diálogo com o patrimônio e os conhecimentos produzidos na região. Ao colocar arqueologia e a produção artística em diálogo, a roda de conversa reforçou a possibilidade de transformar referências do patrimônio arqueológico em novas formas de criação, sem perder de vista a importância da pesquisa e da preservação do patrimônio amazônico.
Durante sua participação, Edithe Pereira destacou a necessidade de aproximar do público o conhecimento produzido ao longo de décadas de pesquisa sobre o patrimônio arqueológico de Monte Alegre. Para a pesquisadora, ampliar o acesso ao conhecimento sobre os vestígios rupestres encontrados na região é também uma estratégia de preservação.“A gente precisa gerar conhecimento para que as pessoas entendam a importância dos sítios arqueológicos e a importância de se preservar esses lugares”, afirmou.
A pesquisadora compartilhou sua trajetória de investigação arqueológica em Monte Alegre, no oeste do Pará, iniciada em 1989. A relação com o território ganhou destaque, especialmente pela origem monte-alegrense compartilhada entre a pesquisadora e a designer Isabela Sales. Durante o encontro, as duas se reconhecem como pessoas ligadas à cidade – Isabela por ter nascido no local e ser “pinta-cuia”, expressão utilizada para se referir a quem nasce em Monte Alegre, e Edithe por ter recebido o título de cidadã montealegrense em 2013 e pela relação que desenvolveu por meio de mais de 30 anos de pesquisa no território.

Ultrapassando os espaços acadêmicos
Para Edithe, esse contato pode contribuir para a construção de vínculos com esses lugares e para o reconhecimento de sua importância histórica e cultural.A pesquisadora citou como exemplo o livro Itai, a carinha pintada, ilustrado por Mário Barata e escrito em trovas por Juraci Siqueira. A publicação chegou a escolas de Belém e também alcançou crianças em Monte Alegre. Para Edithe, essa circulação demonstra como o conhecimento produzido a partir das pesquisas pode ultrapassar os espaços acadêmicos e chegar ao cotidiano das comunidades.
“Tinha criança lá em Monte Alegre que sabia recitar os poemas de Juraci de cor. Os estudos, a partir dos livros, começam a entrar nas casas. Mas eu acho que precisa ainda muito mais”, afirmou.
Edithe também abordou os desafios relacionados à preservação dos sítios arqueológicos diante das transformações e dos conflitos existentes nas próprias comunidades. Nesse contexto, destacou a importância da atuação de lideranças locais na proteção e na difusão do patrimônio arqueológico entre os moradores. Para a pesquisadora, fortalecer o conhecimento e o sentimento de pertencimento das comunidades em relação aos seus patrimônios é um caminho para ampliar sua preservação.

Inspirada na cultura material de Monte Alegre
Isabela relatou que o livro Arte Rupestre de Monte Alegre, de Edithe Pereira, por exemplo, foi fundamental na sua trajetória artística. A publicação possibilitou à designer ampliar o acesso e o contato com o patrimônio arqueológico milenar de sua cidade natal. Entre as referências incorporadas ao trabalho está a Pedra do Mirante, cuja formação rochosa e curvatura serviram de inspiração para a criação de um brinco. A partir do contato com as pesquisas de Pereira sobre Monte Alegre, Isabela desenvolveu o projeto História Gravada.
A designer criou uma marca que produz acessórios (brincos, colares e bolsas), a partir da técnica do upcycling, de reaproveitamento de materiais. E possui como matéria-prima câmaras de pneus que iriam ser descartados. Durante a conversa, Isabela também destacou a importância dos estudos desenvolvidos por Cristiana Barreto sobre a cerâmica arqueológica amazônica e suas iconografias. O contato com essas pesquisas contribuiu para que a designer ampliasse seu repertório sobre formas, grafismos e símbolos presentes na cultura material amazônica, incorporando essas referências ao seu processo criativo.
A pesquisadora também ressaltou a importância de levar os resultados das pesquisas arqueológicas para as escolas, aproximando crianças e jovens do patrimônio presente em seus próprios territórios.

Compreender para criar
A arqueóloga e pesquisadora Cristiana Barreto também destacou como os estudos sobre a cerâmica arqueológica amazônica e suas iconografias podem ultrapassar o espaço acadêmico e ganhar novas formas de circulação por meio de trabalhos artísticos. Para ela, a incorporação dessas referências em criações contemporâneas pode contribuir para tornar esse conhecimento mais acessível ao público e, ao mesmo tempo, fortalecer a preservação de formas, grafismos e símbolos presentes na cultura material amazônica.
“Todo designer tem que ser um pouco antropólogo”, afirmou, ressaltando a importância de compreender os contextos culturais das referências utilizadas no processo criativo.
Tanto Cristiana Barreto quanto Edithe Pereira são pesquisadoras vinculadas ao Projeto Arqueologia de Monte Alegre (AMA), que investiga a ocupação humana nesse terrítório, há doze anos.

“Arte e cultura em evidência”
Como liderança local, Cilene Marajoara explicou que trabalhar em rede é necessário para que a produção feita nos territórios alcance mais pessoas e para que a arte seja colocada em evidência junto às suas raízes, sem deixar que a história presente nesses materiais se perca diante das demandas do mercado. Para ela, a difusão do conhecimento artístico, aliada ao conhecimento cultural, contribui para a educação e para a geração de renda em muitos territórios. “Arte e cultura em evidência. E as lideranças locais são fundamentais para promover essa união e trazer visibilidade para o local” finaliza, Cilene
A apresentação do evento foi feita pelo coordenador de projetos do LabCom, Tarcizio Macedo, que falou sobre a trajetória das convidadas, destacando a importância dos projetos destacados para a divulgação da ciência. Ao final da roda de conversa ele agradeceu ao público que estava presente no auditório e também assistindo à transmissão do youtube do MPEG.
Texto: Gabriela Moura
Edição: Andréa Batista