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Das pioneiras às contemporâneas: Museu Goeldi celebra mulheres que mantêm a ciência viva
Agência Museu Goeldi – A ornitóloga alemã Emília Snethlage (1868-1929), a primeira mulher a dirigir uma instituição de pesquisa na América do Sul, é uma figura feminina bastante presente na história do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Em uma época e em uma área dominada por homens, a cientista pioneira abriu caminhos e inspirou mulheres que vieram depois dela. Ao longo desses quase 160 anos de existência, juntam-se à Emília centenas de outras mulheres com contribuições diversas à instituição de pesquisa, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Hoje, Ima, Ana, Roseny, Suzana, Sue, Marlúcia, Benedita, Rafaela, Ivone, Berenice – cada uma, em sua área e com sua expertise – mantêm viva a ciência produzida na Amazônia.
A presença feminina na instituição está sendo construída. Entre as 26 pessoas que ocuparam o cargo de diretor/diretora da instituição, desde sua fundação, em 1806, apenas quatro (15,4%) eram mulheres: Emília Snethlage (1914-1917 | 1919-1921), Adélia Rodrigues (1995-1999), Ima Vieira (2004-2009) e Ana Luisa Albernaz (2018-2022). Entre o início das gestões de Emília e de Adélia passaram-se mais de 80 anos, o que mostra a dificuldade de a instituição, como reflexo da sociedade da época, garantir a representatividade feminina nos espaços de poder. Isso aponta para a existência do chamado “teto de vidro”, uma analogia que explica a situação em que a sociedade coloca as mulheres, dizendo que elas têm o mesmo horizonte que os homens, sem considerar os obstáculos ‘invisíveis’ que as impedem de alcançá-lo.
Mas, isso vem mudando. Em 27 anos (entre 1995 e 2022), três mulheres foram diretoras na instituição e, nos últimos anos, multiplicaram-se as ocupantes de cargos de coordenadoras e chefes de setores na instituição. De uma forma geral, hoje, a situação é de maior equilíbrio. De acordo com dados do Serviço de Gestão de Pessoas do MPEG, atualmente, a instituição possui em seus quadros 203 integrantes (entre efetivos e cedidos, em diversos cargos), noventa (44,3%) são mulheres e 113 (55,7%), homens – eles ainda são maioria. Embora tenha havido avanços, não há, ainda, um equilíbrio ideal na distribuição dos cargos de chefia (13 são homens e nove, mulheres). Em relação às pessoas em estágio, são 24 na instituição, sendo 16 (72%) do gênero feminino.
Presença feminina simboliza mudanças
Atualmente, o Museu Goeldi tem uma diretora substituta, a tecnologista Roseny Mendes de Mendonça, arquiteta e urbanista, mestra em Patrimônio Cultural pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Ela percebe avanços e aponta obstáculos: “Ao longo dos anos, percebi melhora na escuta da voz feminina no Museu. Ainda assim, observamos alguns obstáculos isolados, infelizmente. Algumas vezes são as próprias mulheres discriminando a voz feminina, mas entendo que isso faz parte de um processo em transformação e que estamos avançando. Em comparação ao período de Emília Snethlage, com toda certeza, houve um grande avanço: inclusive tivemos três diretoras nos últimos 20 anos, o que simboliza mudanças importantes em respeito, autonomia e espaço de liderança para as mulheres no MPEG”.
O Museu Goeldi tem destacado e documentado, por meio de estudos e publicações, a presença e o papel de mulheres em várias áreas. Em um dos trabalhos em que a ornitóloga alemã Emília Snethlage (1868–1929) é citada, Reinhard Arneger e Nelson Sanjad destacam que, na época da cientista alemã, “a existência de pesquisadoras era vista, em geral, como uma ameaça. Poucas mulheres trabalhavam nessa época no âmbito acadêmico e em posições destacadas. Sem dúvida, Emilia Snethlage era uma pessoa insólita na etnologia e antropologia, tanto na Alemanha quanto no Brasil”.
Na contemporaneidade, a instituição tem feito esse reconhecimento divulgando perfis e ações que destacam pesquisadoras e coordenadoras de projetos, a exemplo da linguista Ana Vilacy Galúcio; da ecóloga Ima Célia Guimarães Vieira, ex-diretora e uma das cientistas mais influentes do Brasil; da herpetóloga Ana Prudente, que reúne descobertas importantes da sua área; da ecóloga Marlúcia Martins, pesquisadora negra com trabalhos sobre Amazônia e ciência como territórios de resistência; de Helena Lima e de Edithe Pereira, que se destacam nas pesquisas sobre a arqueologia amazônica.
Da pesquisa aos cuidados com os espaços
Mas, além das mulheres pesquisadoras, a ciência do Museu depende de muitas outras pessoas em cargos de curadoria e em funções técnicas, editoriais, de gestão e de apoio, a exemplo de Sue Costa, Sâmia Batista, Mayara Larrys, Joice Santos, Maria Emília Salles, Lilian Bayma e tantas outras. Os trabalhos e as pesquisas do Museu também dependem de analistas, estagiárias e bolsistas, como Luely Cunha, Gabriela Moura, Danielle Neves, Adrya Marinho, Elis Monteiro, Isabela Gabas, Vitória Santana, Ana Sousa e Louise di Fátima.
E o que seriam dos espaços físicos sem as orientações de Jaqueline Castro, que recepciona os visitantes do Museu há 12 anos? “Minha atuação tem contribuído diretamente para o fortalecimento da ciência produzida pelo Museu Goeldi por meio do atendimento qualificado ao público, pesquisadores, estudantes e visitantes”, disse. E o que Ivone Gomes Rosa, responsável pela higienização de espaços do Parque Zoobotânico, tem a dizer sobre a sua contribuição? “Meu trabalho se torna importante porque se eu não mantiver esse local limpo, as pessoas não conseguem trabalhar e estar aqui. O lixo não seria recolhido, a mesa ficaria suja”, afirma. Ivone reconhece que a vida da mulher é mais difícil do que a da maioria dos homens (os que ainda pensam que não têm responsabilidade com a casa, por exemplo), mas tem esperança de que a sociedade continue avançando na equidade de gênero: “Eu tenho fé”!
Homenagem
São centenas de nomes de mulheres e meninas que estiveram e estão vinculadas ao trabalho da instituição de pesquisa, cada um guarda uma história, uma contribuição, uma atuação em defesa da produção, da comunicação e da manutenção da ciência e dos espaços em que ela é produzida e comunicada. Na impossibilidade de contar todas essas histórias, neste 8 de março, o Serviço de Comunicação Social (Secos) pediu a cada coordenação e setor que indicasse um ou dois depoimentos de mulheres que pudessem representar um pouco dessa diversidade profissional, de raça, de idade e de atuação (veja na galeria de imagens). O objetivo é deixar, em nome dessas pessoas, o reconhecimento da instituição a todas as mulheres que doam seu tempo, seu trabalho e sua energia para manter viva a ciência feita no Museu.
Nesta sexta-feira (06/03), foi realizada uma atividade para as mulheres vinculadas à instituição, no Centro de Convivência do Campus de Pesquisa, na Avenida Perimetral, no bairro Terra Firme, em Belém. Mesmo com agendas diversas, dezenas conseguiram ter esse tempo de lazer e reflexão. Ao final muitas posaram para registrar o momento por meio da imagem da capa desta matéria.
Texto: Andréa Batista
Revisão: Sâmia Batista