160 anos de Amazônia: públicos do Museu Goeldi festejam a resistência e a longevidade da ciência

No Parque Zoobotânico, pesquisadores e visitantes compartilharam saberes e histórias sobre a biodiversidade e a longa relação da instituição com os povos da floresta. Gente diversa expressou, de formas diferentes, emoção, gratidão e preocupação com o futuro dos espaços de produção e de preservação do conhecimento. 

Publicado em 07/10/2026 10:59Modificado há 2 dias
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Crianças reunidas ao redor de uma grande esfera que projeta um mapa colorido. Elas tocam e exploram a imagem  com as mãos
As crianças são um público fiel do Parque e chegaram bem cedo para comemorar os 160 anos do Museu Goeldi, que é também um espaço de educação (Daniel Magno/MPEG)

Agência Museu Goeldi – A jiboia mata enrolando o corpo na vítima? A sucuri engole um boi, mas deixa os chifres de fora? Como a Amazônia se formou? Esse animal gigante já viveu aqui? As perguntas que surgiram entre os visitantes do Parque Zoobotânico, na terça-feira (6/10), mostram que a curiosidade continua sendo uma das portas de entrada para a ciência. No dia em que completou 160 anos, o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), transformou seu aniversário em uma oportunidade de aproximar pesquisadores e público, compartilhando conhecimentos sobre a biodiversidade, a história e os povos da floresta. A rotina de um dia comum foi quebrada pelos festejos à longevidade e à resistência da primeira instituição científica da Amazônia.

No Parque Zoobotânico, em Belém, as atividades foram planejadas pelo Serviço de Educação (Seedu) do Museu, que reuniu 19 pesquisadores graduandos, profissionais, mestres e doutores de diversas áreas, como história, geologia, herpetologia, ictiologia, zoologia, entomologia e arqueologia. A maioria era da casa, ‘cria’ do Museu Goeldi, mas houve a colaboração de jovens cientistas das universidades do Pará, UFPA e Uepa. Todos preparados para compartilhar conhecimento com o público também diverso. Sabendo quem era o aniversariante do dia, um grupo animado de crianças da educação infantil chegou bem cedo para uma aula diferente. Jovens e pessoas idosas, de Belém e de outros lugares da região e do país, interagiram, festejaram e se emocionaram durante as trilhas e as mediações nas exposições e nos espaços de troca de saberes.

Homem branco, sentado em um banco de madeira pintado de verde, em um ambiente de parque
Nilson Gabas Júnior, diretor do Museu Goeldi

Logo no início da manhã, o diretor da instituição, Nilson Gabas Júnior, por meio de canais institucionais, parabenizou e agradeceu ao público interno – servidores, bolsistas, terceirizados e demais colaboradores da instituição – que estava tendo a oportunidade de estar em atividade no órgão no momento que traduziu como “marco histórico”. Ele também destacou a importância das três bases do Museu, no Pará: o Parque Zoobotânico e o Campus de Pesquisa, em Belém, e a Estação Científica Ferreira Penna, na Floresta Nacional de Caxiuanã, qualificando esses espaços como lugares onde a ciência se traduz em educação pública, conservação, consciência ambiental e orgulho da identidade amazônica.

“Desde a nossa criação em 1866, esta instituição consolidou-se como um dos maiores pilares do conhecimento científico sobre a Amazônia e um centro de excelência reconhecido mundialmente. Ao longo de dezesseis décadas de história, o Museu Goeldi tem liderado a pesquisa sobre a biodiversidade, a geodiversidade, as línguas, as culturas e a riqueza socioambiental da Pan-Amazônia. Nossas coleções científicas representam um acervo vivo e incomparável da memória natural e social do nosso ecossistema, enquanto nossas áreas de pesquisa formam gerações de cientistas comprometidos com o futuro da região e do planeta. Mais do que a excelência nas ciências naturais e humanas, nossa instituição destaca-se por sua incansável contribuição para o desenvolvimento social e educacional. Nada disso seria possível sem as pessoas. A verdadeira força do Museu Goeldi reside no empenho, na dedicação diária e na paixão de cada um de vocês. Neste sesquicentenário, renovamos o nosso compromisso com a Amazônia, com a produção de uma ciência inclusiva, ética e voltada ao bem-estar das populações locais” (Nilson Gabas Júnior)

“Vamos entender sobre o tempo geológico, como o passado foi se formando até chegar nos dias atuais. A gente passou por momentos onde o mar avançou em direção ao nosso continente, principalmente no nordeste do Pará e deu origem aos fósseis que estão representados aqui… Nas savanas amazônicas, viveu a megafauna, durante o pleistoceno… Aqui, vivenciamos os grupos que ocorreram na Amazônia milhões de anos atrás”. Essas e outras explicações foram dadas aos visitantes na primeira parada da exposição “Diversidades Amazônicas”, pelo geólogo Maurício Brito. Ele fez parte de um grupo de pesquisadores mediadores, de várias áreas, que recebeu o público na ‘Diversidades’, que fica no térreo do Centro de Exposições Eduardo Galvão, e também na exposição “Katxar Kum Neero, nossos lugares verdadeiros”, no mezanino do mesmo prédio.

Jovem pesquisador gesticula e interage com casal em ambiente de exposição
Maurício Brito, geólogo, explica como se deu a formação da Amazônia a visitantes da exposição Diversidades (Woltaire Massaki/MPEG)

“Foi uma manhã maravilhosa, é sempre um prazer compartilhar ciência. Fazer ciência é muito bom, mas quando a gente externaliza, quando a gente compartilha com as pessoas o que a gente sabe, é gratificante, algo surreal. Quando a gente vê as pessoas falando ‘nossa, então é assim’ isso é legal. Então a gente acaba se emocionando e se empolgando. E acho que isso faz parte do nosso trabalho como divulgadores científicos, como cientistas da Amazônia. Foi uma colaboração muito importante que tem que ser feita mais vezes, seja nos aniversários do Museu, como em outros momentos”, disse o estudante de ciências biológicas, que é pesquisador voluntário em um projeto do Museu Goeldi. 

Jovem pesquisador sorri cercado por crianças enquanto aponta para itens de exposição
André Azevedo é graduando de ciências biológicas e voluntário em projeto de pesquisa do Museu (Daniel Magno/MPEG)

A estudante Bárbara Vitória Vale é de Belém, mas não conhecia os espaços do Parque Zoobotânico. “Eu vim com muita curiosidade. Eu já conhecia o Campus de Pesquisa, mas aqui eu nunca tinha vindo. Eu tô achando tudo muito bacana. Eu andei, gostei muito. Digo às pessoas que nunca estiveram aqui, que venham conhecer, que gostem, que procurem ouvir as palestras. Também peço às pessoas que trabalham aqui que deixem esse lugar bem preservado, que sempre esteja assim do jeito que está hoje, porque é muito, muito legal mesmo! Aqui é muito bonito. Tem muita ciência aqui”. 

Casal de jovens conversam em ambiente de exposição
A estudante Bárbara Vale se impressiona com Alcino, o jacaré-açu que viveu no Parque e hoje integra exposição (Andréa Batista/MPEG)

Enquanto isso, a alguns metros dali, no Aquário Jacques Huber, pesquisadores das áreas de ictiologia (estudo dos peixes) e herpetologia (répteis e anfíbios) recebiam uma turma perguntadora. O pesquisador Alexandre Missassi que o diga: “É, o pessoal interage bastante. Fiquei bem contente com o convite, porque a gente está sempre trabalhando em laboratório, e este é um momento de troca de conhecimentos. Eles trazem muitas curiosidades, se tal cobra é venenosa, do que se alimenta... Temos alguns animais trocando de pele e surge: ‘olha, esses trocam a camisa por pedaço; já a serpente não, ela troca a camisa toda’. Então, é bem bacana! Estou no Museu desde 2012; fiz mestrado, doutorado e agora tenho uma bolsa de pesquisa. E vou seguindo, até me concursar. Um dia, eu estive aqui perguntando. E hoje estou mediando e respondendo. Eu trabalho com répteis e anfíbios, mas o Museu tem uma diversidade de áreas de estudo. Chegar assim aos 160 anos é resistência mesmo, porque a ciência no Brasil, muitas vezes, não é valorizada. Eu acho que momentos como este dão a dimensão dessa importância. São 160 anos de Amazônia, são 160 anos de preservação. É uma experiência excelente!”, afirmou. 

Grupo de pessoas interagem em exposição
O pesquisador Alexandre Missassi (a quarta pessoa da direita para a esquerda) respondeu a muitas dúvidas dos visitantes no Aquário Jacques Huber (Matheus Neves/MPEG)

Dulcicleia Oliveira de Castro, ou Dona Dulce, sabe muito bem o que custa preservar a biodiversidade. Acostumada a receber turistas em sua casa, em Santarém, interessados em conhecer sobre a cultura alimentar e a relação das comunidades ribeirinhas com os ecossistemas da região, hoje fez a vez de visitante, no parque, onde gravava uma entrevista para uma série audiovisual. “Eu achei maravilhoso vir aqui. Tem tudo a ver com o lugar onde eu vivo, porque tem árvores, tem floresta, tem pássaros, tem animais, tem vitória-régia. Então eu acho que tem tudo a ver com o lugar de onde eu vim. Morei em Belém nos anos 90, já conhecia o parque e eu gosto muito de estar no meio da natureza. Eu desejo que o Museu tenha muitos e muitos e muitos mais 160 anos. E que as pessoas o visitem, que tragam outras pessoas e que tenham consciência de que a gente precisa preservar este lugar”.

Mulher negra sentada em um banco de um parque com vegetação verde e vibrante
Dona Dulce vê semelhança entre a sua comunidade ribeirinha e o Parque Zoobotânico, no centro urbano de Belém (Andréa Batista/MPEG)

Pesquisadora emérita e integrante de um grupo de cientistas que têm décadas de casa e continua em atividade na instituição, Lucia Hussak van Velthem também estava no Parque nesta manhã de comemorações. Ela fazia o levantamento de itens do acervo do Museu disponíveis na exposição ‘Diversidades” e ficou emocionada ao falar sobre a longevidade e sobre a importância da instituição à qual está vinculada há 52 anos. “Entrei como bolsista em 1973 e, dois anos depois, tornei-me servidora. Olha, o Museu Goeldi é a mais importante, do meu ponto de vista, instituição de pesquisa da Amazônia. E comprova isso, com o passar de todos esses anos, todos esses 160 anos da sua existência. Parabéns ao Museu Goeldi, parabéns a quem faz o Museu Goeldi”.

Mulher branca sorrindo em ambiente colorido de museu
A pesquisadora Lúcia van Velthem está há meio século em atividade no Museu Goeldi (Andréa Batista/MPEG)

Suzana Karipuna também tem chão no Museu Goeldi. Ela conta que chegou à instituição em 1987, como estagiária. Hoje, Suzana é servidora e participa de pesquisas e curadorias de exposições sobre povos indígenas. Ela diz que é do território dos karipuna em Santa Isabel, no Amapá. “Quando entrei no Museu, eu vi a importância que ele tem para os povos indígenas em relação à guarda da cultura material. O Museu sabe da importância dos povos indígenas e é importante para nós. Eu só vou me aposentar quando for mesmo necessário. Por enquanto, quero continuar aqui, trabalhando”.

Mulher indígena com roupa e adereços coloridos em um ambiente de parque
Suzana Karipuna observa relação do Museu Goeldi com os povos indígenas e com suas culturas materiais (Andréa Batista/MPEG)

Marco Antonio e Marco Aurélio Carvalho, pai e filho, são de Teresina, no Piauí, e estavam visitando Belém, justamente na semana do aniversário do MPEG. “Sou antropólogo atuando em comunidade quilombola. Estive aqui há uns 15 anos e vi o peixe-boi e o bicho-preguiça. Achei lindo demais. Coincidentemente, estávamos aqui perto e olhei no celular que estava aberto. Aí falei ‘vamos lá no Emílio Goeldi’ porque é aniversário e ainda é de graça. Sem dúvida, essa instituição é muito importante para o meio ambiente, para a preservação da vida, porque a gente tá passando por um momento de crise, principalmente climática. Aqui, vocês também trabalham com crianças e ensinar a cuidar do meio ambiente, é importante. Sem contar que aqui é um berço de pesquisadores. Já vi que vários pesquisadores de várias universidades aqui da Amazônia têm relacionamento com o Goeldi. Eu que trabalho com pesquisa antropológica, penso que isso aqui é uma bênção”, disse Marco. 

A pedagoga Sandra Mara Vilhena foi uma das primeiras pessoas a chegar ao Parque. Ela estava acompanhada por um grupo de colegas professores da escola na qual é gestora. “Fomos convidados para esse aniversário e estamos aqui. Em outras oportunidades, trouxemos nossos alunos, hoje vieram os professores. Isso aqui é vida para gente. Nossas crianças crescem aqui nesse espaço verde no meio da cidade. Temos grandes eventos de pesquisa aqui dentro, grandes pesquisadores. Então é um espaço de muita ciência, muita ciência mesmo”.

“Precisamos, aqui no estado do Pará, ter mais espaços como esse para desenvolver projetos de pesquisa, principalmente na área do meio ambiente e da biodiversidade. É importante para nossa comunidade vivenciar os nossos espaços físicos e  poder desfrutar dessa sensação térmica agradável, aqui dentro. A gente passa por um processo muito difícil de desvalorização da ciência como um todo, principalmente na área política. Então é importante que a gente preserve, contribua para esses fatos. É necessário que a população conheça esses espaços”, confirmou Lauro Santana, professor de Física.

Visite o Parque Zoobotânico do Museu

Onde: Avenida Magalhães Barata, 376, São Braz, Belém – Pará.
Quando: de quarta a domingo, das 9h às 16h
O quê? O Parque é um pedaço da Amazônia no centro urbano; possui espécies da flora e da fauna amazônicas, uma coleção viva, além de exposições que mostram um pouco do acervo científico da instituição: “Diversidades amazônicas”, “Katxar Kum Neero, nossos lugares verdadeiros” (no Centro de Exposições Eduardo Galvão) e “Ahetxiê, um tesouro da costa amazônica” (no Aquário Jacques Huber). 
Ingresso: R$ 3, com gratuidades legais

Texto: Andréa Batista
Revisão: Carla Serqueira

Categorias
Ciência e Tecnologia
Tags:Pará
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