Nunca se investiu tanto aos 60. Como fazer isso com segurança?
Por: Júlia Kasprzykowski Rainho
O número de investidores com 60 anos ou mais cresceu 358% na última década. Com mais pessoas chegando a essa fase da vida com patrimônio e interesse pelo mercado financeiro, planejamento, informação e proteção ganham ainda mais importância.
Investir não é mais uma atividade associada apenas aos mais jovens. Nos últimos dez anos, o número de investidores com 60 anos ou mais na B3 cresceu 358%, segundo dados apresentados pela CNN Brasil a partir de informações da B3. Hoje, esse grupo reúne cerca de 595 mil pessoas, que representam 10,4% dos aproximadamente 5,6 milhões de acionistas considerados no levantamento (CNN Brasil, 2026).
O crescimento acontece em paralelo a uma transformação demográfica importante. O Brasil está envelhecendo. De acordo com o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país tinha 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em 2010, essa parcela era de 10,8% (IBGE, 2023).
Mais brasileiros estão vivendo por mais tempo e, também, estão chegando aos 60 anos com diferentes formas de patrimônio, renda e objetivos financeiros. Nesse cenário, investir pode fazer parte do planejamento financeiro em diferentes momentos da vida. Mas, especialmente nessa fase, investir bem não significa necessariamente buscar o maior retorno possível. Significa entender os objetivos, conhecer os riscos e tomar decisões compatíveis com a própria realidade.
Aos 60, investir continua sendo possível, mas os objetivos podem mudar.
Não existe uma idade em que uma pessoa precise deixar de investir em determinados produtos financeiros. A escolha dos investimentos deve considerar o conjunto de características de cada investidor: seus objetivos, sua situação financeira, seus conhecimentos e sua capacidade e disposição para assumir riscos.
É esse o princípio do suitability, ou adequação dos investimentos ao perfil do investidor, adotado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Isso significa que a idade, sozinha, não determina quais investimentos uma pessoa deve ter. Duas pessoas com a mesma idade podem apresentar situações financeiras completamente diferentes.
Uma pode ter renda suficiente para cobrir suas despesas e não precisar utilizar seu patrimônio no curto prazo. Outra pode depender dos investimentos para complementar a aposentadoria e precisar de acesso frequente ao dinheiro.
Por isso, antes de perguntar qual investimento oferece a maior rentabilidade, vale perguntar:
Quando vou precisar desse dinheiro?
Quanto posso deixar investido por mais tempo?
Quanto estou disposto a ver meu patrimônio oscilar?
Uma eventual perda comprometeria minha renda ou meu padrão de vida?
As respostas ajudam a definir quanto risco faz sentido assumir. E segurança não significa renunciar a rentabilidade.
Quando se fala em investimentos para pessoas com 60 anos ou mais, é comum surgir a ideia de que o investidor deveria abandonar produtos de maior risco. Essa, porém, não é uma regra.
A questão é entender qual parcela do patrimônio pode estar exposta a oscilações e qual precisa estar disponível para necessidades de curto prazo. Uma reserva destinada a despesas do dia a dia ou emergências, por exemplo, tem necessidades diferentes de um recurso que não será utilizado durante muitos anos.
Liquidez, prazo, diversificação e risco passam, portanto, a ser aspectos importantes na organização da carteira.
A diversificação pode ajudar a reduzir a concentração do patrimônio em uma única fonte de risco. Já a definição de diferentes prazos e níveis de liquidez pode permitir que o investidor tenha recursos disponíveis quando precisar deles, sem depender necessariamente da venda de investimentos de maior volatilidade em um momento desfavorável.
Informação também é uma forma de proteção.
Com o crescimento da participação de pessoas mais velhas no mercado financeiro, aumenta também a importância de conhecer os riscos envolvidos nas decisões de investimento. Um produto financeiro pode ser legítimo e, ainda assim, não ser adequado para determinado investidor.
Antes de investir, é importante entender como o produto funciona, quais são seus riscos, quando o dinheiro poderá ser resgatado, quais custos estão envolvidos e se existem mecanismos de proteção aplicáveis àquele investimento.
A CVM orienta que investidores conheçam seu perfil e avaliem se o produto, serviço ou operação é adequado aos seus objetivos e à sua situação financeira. E, quando uma oferta parece boa demais para ser verdade, vale redobrar a atenção.
Cuidado com promessas de ganhos fáceis.
Promessas de rentabilidade elevada e garantida, pressão para tomar uma decisão rapidamente ou ofertas que chegam por canais não oficiais são alguns dos sinais que merecem atenção.
Golpes financeiros também podem utilizar o nome, a identidade visual e informações de instituições legítimas para transmitir uma falsa sensação de segurança. Por isso, é importante verificar diretamente nos canais oficiais se uma instituição ou profissional está autorizado a oferecer determinado produto ou serviço.
A CVM mantém iniciativas de educação e proteção ao investidor justamente para ampliar o acesso à informação e ajudar o público a reconhecer situações de risco. Um guia para quem tem 60 anos ou mais.
Para apoiar investidores nessa fase da vida, a CVM lançou o “Investidor 60+: Sua Tranquilidade Merece Proteção Extra”, um guia com orientações para ajudar pessoas com 60 anos ou mais a reconhecer ofertas inadequadas, identificar sinais de alerta e tomar decisões financeiras de forma mais consciente.
Quer saber quais cuidados podem ajudar a proteger seus investimentos? Não deixe de conferir o guia “Investidor 60+: Sua Tranquilidade Merece Proteção Extra”. O material reúne informações práticas para quem investe ou pretende investir e reforça uma ideia fundamental: conhecimento é uma das principais ferramentas para tomar decisões financeiras mais seguras.
Em suma, investir depois dos 60 também é planejar o futuro.
Um crescimento de 358% no número de investidores 60+ mostra que mais pessoas estão chegando a essa fase da vida interessadas em investir, diversificar seu patrimônio e buscar alternativas para seus objetivos. Esse movimento não significa que todos devam investir da mesma maneira. Ao contrário: quanto mais diferentes forem as histórias, os patrimônios, as rendas e os objetivos, mais importante se torna olhar para cada situação individualmente.
Aos 60, 70 ou 80 anos, investir pode continuar fazendo parte do planejamento. O que muda é a importância de conhecer bem os próprios objetivos, avaliar os riscos e evitar decisões tomadas por impulso ou por promessas de ganhos rápidos.
A pergunta, portanto, não precisa ser “qual investimento rende mais?”
Pode ser:
“Qual investimento faz sentido para os meus objetivos e para a vida que quero ter?”
Aliás, essa é uma pergunta que vale para qualquer idade e, pode ser especialmente importante quando o patrimônio investido representa anos de trabalho, planejamento e escolhas.
Fontes
CNN Brasil. Investidores de 60 anos ou mais crescem 358% na B3 nos últimos dez anos. 2026.
COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (CVM). Entenda o suitability. Portal do Investidor.
COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (CVM). Respeite o seu perfil de investidor. Portal do Investidor.
COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (CVM). Investidor 60+: Sua Tranquilidade Merece Proteção Extra. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2022: População por idade e sexo. 2023.