Nova legislação pode comprometer até 2,3 milhões de hectares de áreas úmidas no Brasil, aponta estudo

Publicado em 17/06/2026 11:03
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Bacias dos rios Araguaia e Guaporé, com destaque para áreas úmidas em Mato Grosso, a distribuição das estações fluviométricas utilizadas na análise e os drenos artificiais identificados na região (Reprodução/Environmental Research Letters)

Um estudo publicado na revista científica Environmental Research Letters alerta que mudanças recentes na legislação de Mato Grosso (MT) podem aumentar consideravelmente o risco de degradação de áreas úmidas nas bacias do Araguaia e do Guaporé. Os pesquisadores estimam que até 2,3 milhões de hectares desses ecossistemas poderão ficar suscetíveis à implantação de drenos artificiais, alterando de forma permanente seu funcionamento hidrológico. O artigo é assinado por Lucas Barros-Rosa, Luciano Lima, Jerry Penha, Eduardo Couto, André P. Dias, Mark S Johnson e Dilermando Lima-Junior, estudiosos de diferentes instituições. 

O trabalho analisa os possíveis impactos da autorização da drenagem artificial sobre áreas úmidas e destaca que a medida pode comprometer serviços ambientais essenciais, afetando a biodiversidade, os recursos hídricos e até mesmo atividades econômicas que dependem da disponibilidade de água.

Segundo Dilermando Lima-Junior, professor do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e um dos autores do estudo, a pesquisa surgiu da preocupação em compreender as consequências dessa mudança.

"As áreas úmidas são ecossistemas muito sensíveis a perturbações e, ao mesmo tempo, prestam muitos serviços ecológicos. Liberar a drenagem dessas áreas afeta seu principal serviço ambiental, que é a regularização do regime hidrológico. Ou seja, a água se acumula na época das chuvas e é liberada lentamente durante o período da seca", explicou o pesquisador.

Foto do Prof. Dilermando Lima-Junior - Pesquisador
Professor Lima-Júnior é um dos autores do estudo que aponta riscos da drenagem artificial (Reprodução/Semana7)

O que muda com a drenagem?

As áreas úmidas funcionam como reguladoras naturais do ciclo da água. Durante a estação chuvosa, acumulam água que infiltra no solo, contribuindo para o abastecimento do lençol freático e ajudando a manter a vazão dos rios nos períodos de estiagem.

Como afirma Lima-Júnior, a drenagem artificial interrompe esse processo e os impactos se propagam por todo o sistema hidrológico. “A água que deveria ser acumulada e permitir o reabastecimento do lençol freático é retirada devido à drenagem. Consequentemente, o regime hidrológico muda, reduzindo, por exemplo, a vazão dos rios nos períodos de estiagem”.

Impactos para a biodiversidade e para a produção

Além das alterações no ciclo da água, o estudo aponta que a drenagem pode provocar mudanças profundas na dinâmica ecológica das áreas úmidas. De acordo com a pesquisa, as mudanças no ecossistema afetam a biodiversidade diminuindo, por exemplo, as áreas de lagos temporários, importantes sítios de reprodução e crescimento de peixes e aves.

Os autores também destacam que os impactos não se restringem à conservação ambiental. A disponibilidade de água é um fator estratégico para a própria produção agropecuária.

“As áreas úmidas têm uma série de condições que limitam a agricultura e, por isso, existe a necessidade da drenagem. Mas, em um país onde temos milhões de hectares de terras degradadas, não faz sentido degradar uma área tão sensível. Ao regular o regime hidrológico, as áreas úmidas ajudam a manter as nascentes e os rios durante o período da seca, que é uma condição importante tanto para a dessedentação animal quanto para a agricultura irrigada”, ponderou Lima-Júnior.

Contribuições para políticas públicas

Além de quantificar a extensão das áreas potencialmente afetadas, o estudo busca fornecer informações que possam subsidiar decisões e contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas à conservação das áreas úmidas.

"A política mais coerente é estabelecer medidas que visem estabilizar essa redução ou até mesmo restaurar o regime hidrológico e a conservação das áreas úmidas tem papel fundamental. Em segundo lugar, o estudo mostra de forma muito clara a magnitude da área das bacias do Araguaia e do Guaporé que pode ser degradada", ressaltou Lima-Júnior.

O artigo reforça ainda a importância das áreas úmidas para a manutenção da biodiversidade, da disponibilidade da água e dos serviços ecossistêmicos que sustentam diferentes atividades humanas. Ao reunir evidências científicas sobre os impactos potenciais da drenagem artificial, o trabalho contribui para ampliar o debate sobre a conservação desses ambientes e o planejamento de políticas públicas voltadas ao uso sustentável dos recursos naturais.

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Ciência e Tecnologia
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