Pesquisa inédita do IEN/CNEN desenvolve medicamento contra a artrite reumatoide
Trabalho do Laboratório de Nanorradiofármacos utiliza a nanotecnologia para tratar doença autoimune com apenas duas doses desse fármaco por ano.

A Sociedade Brasileira de Reumatologia estima, segundo dados de 2025, que mais de 2 milhões de brasileiros são diagnosticados com a Artrite Reumatoide, doença inflamatória, autoimune e crônica que, em casos mais severos, pode levar à perda da mobilidade. Uma alternativa para amenizar o agravamento dos sintomas surge a partir dos estudos em nanotecnologia aplicados no Laboratório de Nanorradiofármacos do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN/CNEN).
A equipe, coordenada pelo pesquisador e presidente da Associação Brasileira de Radiofarmácia, Dr. Ralph Santos-Oliveira, em parceria com o Instituto de Tecnologia de Fármacos da Fundação Oswaldo Cruz (Farmanguinhos/Fiocruz), desenvolveu um medicamento que promete tratar a artrite reumatoide com somente duas aplicações nos pacientes por ano. Esse trabalho teve início quando a equipe do laboratório identificou que havia em um medicamento, usado para o tratamento de câncer ósseo, uma potencial ação anti-inflamatória.
Após isolarem a nanopartícula do fármaco e realizarem os testes em laboratório, constataram que essa aplicação não só combate a inflamação, como também apresenta a capacidade de regenerar a cartilagem das articulações prejudicadas pela artrite:
“Como o medicamento existente é líquido, se fosse aplicado em sua forma original extravasaria nas articulações. Mas, na forma de nanofármaco, fica restrito à articulação, sem provocar nenhum efeito colateral”, explica Ralph Santos-Oliveira.
O pesquisador, que também coordena o Programa Redes de Pesquisa em Nanotecnologia no Estado do Rio de Janeiro da FAPERJ, afirma que o alcance desse medicamento é expressivo ao ponto de controlar os sintomas da doença por seis meses, levando o paciente a deixar de tomar até três medicamentos por dia para fazer duas aplicações anualmente. Outra vantagem dessa terapia é a agilidade no processo de avaliação dos resultados, pois a ação do nanofármaco no organismo é local.
A expectativa, segundo Santos-Oliveira, é de que a indústria farmacêutica se interesse em comercializar o medicamento desenvolvido dentro da esfera pública, para que as etapas de testes in vivo e aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sejam cumpridas. Avaliando que as projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mais de 30 milhões de pessoas no mundo poderão conviver com artrite reumatoide em 2050, esse medicamento surge como uma oportuna ferramenta frente ao avanço global da doença:
“O comprometimento da FAPERJ ao dar suporte a pesquisas nas mais diversas áreas vem contribuindo decisivamente para o desenvolvimento socioeconômico do estado. O apoio à ciência, tecnologia e inovação vai além de editais de fomento. É disseminar conhecimento, é formar capital humano, é criar competitividade, é gerar emprego”, declarou Caroline Alves, presidente da FAPERJ, instituição de fomento que apoia esse projeto.
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Sintomas da Artrite Reumatoide

Essa doença inflamatória, autoimune e progressiva provoca nos pacientes dor, rigidez e inchaço nas articulações, desgaste nas cartilagens e nos ossos, além de deformidade nas mãos e nos pés. Ainda tem o potencial de afetar outros órgãos, como pulmões, coração e vasos sanguíneos.
Sua causa exata ainda é desconhecida pela Medicina, mas pode ter relação com uma combinação entre fatores ambientais e comportamentais, como tabagismo, alterações na microbiota intestinal e infecções virais, e uma predisposição genética.
O público mais atingido por essa doença são as mulheres, na faixa etária entre 30 e 55 anos. Porém, também pode ser identificada em homens, em pessoas de outras idades, incluindo crianças. Apesar de não ter cura, a artrite reumatoide tem tratamento a partir de medicamentos imunossupressores e anti-inflamatórios, terapias ocupacionais e fisioterapia, entre outras ações a serem recomendadas por um reumatologista.
Outros projetos de destaque do Laboratório de Nanorradiofármacos
Composto por uma equipe de pesquisas e bolsistas, de diferentes formações técnicas, o Laboratório de Nanorradiofármacos tem trabalhado para apresentar terapias inovadoras e soluções destinadas a oferecer uma melhor qualidade de vida para indivíduos portadores de câncer ou outras patologias, e que poderão estar acessíveis no Serviço Único de Saúde (SUS). Dentre esses projetos, destacam-se:
- Terapia que utiliza o Nitreto de Carbono Grafítico para o tratamento do câncer de pele;
- Técnica com microesferas de vidro reciclado para o tratamento de câncer de fígado, dispensando a necessidade de cirurgia;
- Estudo que investiga potencial uso de nanomicelas com arimoclomol para o tratamento de doenças neurodegenerativas - Alzheimer e Parkinson.
No início deste ano, o laboratório ainda conquistou notoriedade na comunidade científica ao publicar um trabalho inédito em uma revista da área sobre os efeitos da irradiação com nêutrons para remediar o ácido perfluorooctanossulfônico (PFOS), que está classificado como “poluente eterno”, por ser extremamente durável e mais resistente à degradação ambiental do que o plástico.
Além de se arremeter a este persistente poluente, a técnica desenvolvida no IEN/CNEN também contribuirá na questão da saúde pública, pois estudos internacionais associam a presença de componentes da família dos PFOS ao surgimento de doenças, como o próprio câncer e o Alzheimer.
Escrito por: José Lucas Brito (Secos/ IEN)