Entrevista do presidente Lula para a Rádio Diário FM, de Macapá (AP)
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Da cerimônia de anúncio do Governo Federal do Estado do Amapá, entre elas, está a doação da Gleba Kumaú, área para regularização fundiária e urbanização, ação que é aguardada pela população há mais de 35 anos. Graças ao senador Randolfe Rodrigues, né, que essa área vai ser ocupada. Mas, antes, agora, pessoal, neste exato momento, o presidente Lula, que chega amanhã, está conosco pelo telefone direto de Brasília. Alô, alô, presidente. Alô, alô, presidente. Presidente Lula.
Presidente Lula: Bom dia, Luiz.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Bom dia, presidente. A última vez que conversamos foi sobre o custo da energia elétrica do Amapá. O senhor lembra, né?
Presidente Lula: Lembro. Eu lembro. Eu lembro que queriam aumentar a energia em 44% e que nós fizemos uma intervenção, fizemos uma medida provisória e baixamos muito o preço da gasolina, da energia elétrica. Porque não era justo o povo do Amapá pagar uma energia… Sabe, quando o povo recebia 6% de reajuste de salário, não poderia pagar 44% de luz.
Então, foi uma intervenção boa e você sabe que amanhã nós vamos inaugurar um trecho, também, um trecho da linha de transmissão para resolver definitivamente o problema de um apagão que teve em 2020 no Amapá.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Bom, presidente, a saúde agora do senhor vai bem, obrigado, né? O susto do baque na cabeça já foi superado, né?
Presidente Lula: Olha, graças a Deus, Luiz. Graças a Deus. Eu digo para todo mundo o seguinte, eu nunca tive doente. Eu, na verdade, caí, como eu tenho a cabeça grande, a cabeça do nordestino, eu tive um pequeno problema, mas agora já estou 100%, mas 100%. E uma coisa mais importante, Luiz, é que eu fiz uma drenagem na cabeça, eu estou com o cérebro limpo, limpo, limpo. Você não sabe como é que meu cérebro renovou. Eu estou pensando como um jovem de 18 anos, trabalhando como um jovem de 20 e com vontade de fazer política de um jovem de 25. É isso que eu estou nesse momento e, por isso, o meu prazer de conversar com a rádio FM do Amapá e dizer para você que eu queria cumprimentar o governador, o prefeito, o Randolfe [Rodrigues, senador, líder do Governo no Congresso], o nosso companheiro Alcolumbre [Davi Alcolumbre, senador, presidente do Senado Federal], o povo do Amapá, o povo que trabalha com você. Porque amanhã eu estarei no Amapá para fazer um grande evento com os nossos políticos, com os nossos senadores e com o povo do Amapá.
Por isso, meu caro Luiz Melo, bom dia, bom dia, bom dia. Estou à sua disposição para você perguntar o que quiser.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Muito bem. Por que o senhor considera 2025 como o ano mais importante de seu mandato no governo?
Presidente Lula: Por duas razões práticas. Porque, quando nós tomamos posse, em 2023, Luiz, nós encontramos um Estado muito desestruturado. Praticamente tinha havido um desmonte, um desmonte. Não existia Ministério da Cultura, não existia ministério. Não existia mais Ibama, tinha mandado embora 700 funcionários. Não existia Ministério da Igualdade Racial, Ministério dos Direitos Humanos, nós tivemos que reconstruir tudo praticamente, Luiz.
E, depois, a gente teve que fazer o PAC. Você está lembrado que, logo no meio de janeiro, eu convoquei os 27 governadores de estado para que a gente discutisse quais eram as obras prioritárias de cada estado, para que a gente pudesse começar a trabalhar a partir da realidade de cada estado.
Assim foi feito, os governadores vieram, nós discutimos, cada um depois apresentou a sua proposta e nós construímos o PAC. Você sabe que tem que fazer projeto, projeto executivo, tem que acertar, fazer licitação. E quando eu digo que 2025 é o ano da colheita é porque nós ficamos plantando esses dois anos. Reconstruindo, sabe, capinando, colocando semente, adubando e agora é a hora da colheita.
E é por isso que nós vamos fazer muitas coisas. Você vai participar disso, Luiz, você vai acompanhar. Nós temos muita coisa para entregar ao povo brasileiro, ao povo do Amapá, e eu tenho certeza que esse será o grande ano do Brasil. Será o grande ano, porque a economia está bem, a economia está crescendo, a inflação está controlada, porque o salário real está aumentando, porque a política de crédito está aumentando, porque nós temos programas para educação que nunca tinham acontecido neste país.
Então é um ano que eu estou com muita vontade, muita vontade de trabalhar, muita vontade de participar dessa colheita e muita vontade de entregar os resultados dessa colheita para o povo brasileiro. É por isso que eu disse que 2025 é o ano mais importante do meu governo, porque quem passou dois anos, dois anos, reconstruindo o país, agora tem que entregar para o povo o resultado daquilo que nós trabalhamos dois anos.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Presidente, disse por aí, se diz por aí, no ditado popular, inclusive, que não se constrói o futuro sem olhar o passado. O governo do senhor adota essa premissa ou só tem olhado para frente, porque o passado desmontado, como o senhor tem dito, não tem nada de bom a nos ensinar. É isso?
Presidente Lula: Olha, o que a gente aprende de bom com as coisas ruins é para a gente não repetir as coisas ruins. Eu acho que houve um interregno de governo, depois do mandato da Dilma, depois do impeachment da Dilma, com a entrada do presidente Temer, com a entrada do outro cidadão aí, eu acho que houve um vazio na política brasileira, porque você se deixou de construir. Eu poderia perguntar, em todo estado que eu vou, o que foi feito nesses sete anos depois do impeachment da Dilma.
Quase nada foi feito nesse país na educação, na saúde, na cultura. Então, foi tudo desmontado. Então, eu fico olhando para o passado recente, para não repetir nenhum erro que eles cometeram e tentar fazer as coisas que o povo tem expectativa para o futuro.
O que o povo está imaginando nesse instante? O povo brasileiro quer paz, quer sossego, quer trabalhar, quer receber um bom salário, quer cuidar da sua família, quer estudar, quer ser empreendedor. O jovem hoje não está mais disposto, com a vontade que eu tinha há 60 anos atrás, de trabalhar numa fábrica para ganhar o salário mínimo. Ele quer ser empreendedor, ele quer fazer alguma coisa que lhe dê mais tranquilidade, alguma coisa que exija mais da inteligência dele.
Então, nós temos que pensar no mundo para frente e não pensar no mundo para trás. E é por isso que nós, então, fizemos uma grande política de discussão com a sociedade brasileira. E é por isso que eu governo olhando para frente. Eu quero saber o que eu vou deixar nesse país quando terminar o meu mandato, dia 31 de dezembro de 2026. É isso que me faz provocação. É por isso que eu criei bolsa para os professores, para premiar os melhores alunos do Enem e queiram fazer curso de professor, porque ninguém está querendo mais ser professor. É por isso que nós tivemos o Pé-de-Meia para não permitir que meninos e meninas de 14, 15, 16 anos desistam da escola para ajudar a família no orçamento familiar.
É por isso que nós estamos criando Escola de Tempo Integral para que a criança fique mais na escola, aprenda mais. É por isso que nós fizemos convênio com quase 6 mil prefeitos para que a gente possa alfabetizar o Brasil inteiro até o segundo ano do ensino fundamental. Porque se essa criança não for alfabetizada até os dois anos, ela vai ter problemas daí para frente. Então, são programas como esse…
É por isso que nós vamos inaugurar mais um Instituto Federal no Amapá até terminar o meu mandato. Então, são essas coisas que me fazem olhar para frente e dizer qual é o futuro do Brasil. O que é que eu quero do Brasil? Eu quero o Brasil como uma sociedade empreendedora, como uma sociedade otimista. Outro dia, eu disse que eu quero uma sociedade de classe média.
Ou seja, no fundo, no fundo, Luiz Melo, eu quero dizer o seguinte, nesse país é proibido proibir as pessoas de sonharem. As pessoas sonham e cabe ao governo tentar fazer com que esses sonhos se tornem realidade, não fazendo o sonho acontecer, mas criando oportunidades para que a pessoa possa conseguir realizar os seus sonhos. É isso que eu pretendo fazer.
Eu tenho dois anos muito, mas muito, muito primorosos na minha vida. São possivelmente os dois anos mais importantes da minha vida, porque eu acho que eu preciso entregar tudo aquilo que eu prometi para o povo. Eu quero entregar porque eu quero sair de cabeça erguida como eu entrei. De cabeça erguida, descer a rampa e ir lá cumprimentar o povo. Não quero fugir para Miami, não quero deixar de colocar faixa no presidente que ganhar as eleições, não. Eu quero respeitar o resultado eleitoral e se alguém ganhar, vou lá entregar a faixa.
Mas eu tenho dois anos primorosos na minha vida, eu quero dedicar, quero trabalhar de manhã, de tarde e de noite, quero viajar ao Brasil, quero fazer debate, quero conversar com empresários, quero conversar com trabalhadores. Porque esse país precisa consolidar o processo democrático, Luiz Melo. Porque o que está em risco no Brasil é o processo democrático. O que está em risco no Brasil é a mentira ganhar da verdade.
Você aprendeu desde pequeno. Acho que a tua mãe lhe falou muitas vezes: “meu filho, a mentira voa, a verdade engatinha”. Então nós estamos vivendo num mundo em que a mentira tem ganhado um espaço extraordinário. É só ver as eleições nos Estados Unidos, é só ver o que está acontecendo na Alemanha, o que aconteceu em outros países, para a gente poder dizer: a coisa mais importante que nós temos que fazer é fazer o povo entender que a democracia é o melhor sistema de governo.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): É esse, então, o Brasil que o governo do senhor está construindo para discutir com os brasileiros. Não é não, presidente?
Presidente Lula: É isso, Luiz. É um país que será resultado da compreensão do povo brasileiro. Veja, por que nós chamamos os governadores para discutir o PAC? Era porque nós não queríamos fazer obras saindo de Brasília para o Amapá sem que a gente ouvisse o governador do Amapá. Ele quem sabe quais são as obras importantes para o estado do Amapá. O povo do Amapá é quem sabe o que é importante. Então, nós vamos realizar aquilo que foi acordado. Só para o estado do Amapá, o PAC previu R$4,7 bilhões, dos quais R$3,6 bilhões só para o Amapá. E, desse dinheiro todo, até julho de 2024, nós já tínhamos empregado R$800 milhões. Então, você percebe que falta muita coisa para acontecer no Amapá e nós vamos fazer acontecer.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Presidente, os índices de desemprego no país já caíram e muito, diz aí o IBGE, em pesquisa recente. Mas o brasileiro ainda tem tido alguma dificuldade em colocar alimento na mesa dele. Essa alta do preço, presidente, como é que o senhor está lidando com isso? Tem preocupado a cabeça do senhor tudo isso?
Presidente Lula: A coisa que mais me preocupa, Luiz, é a questão do aumento do custo de vida. Eu vivi dentro de fábrica 27 anos. Em um período, eu vivi com inflação de 80% ao mês. Eu recebia meu pagamento, eu tinha que correr em um atacadista e comprar até coisa que eu não precisava para que meu salário não fosse desvalorizado. Então, eu tenho uma preocupação extraordinária. A gente vive um mundo meio complicado. Veja, nós temos o menor índice de desemprego da história do Brasil.
Eu tenho conversado com muitos empresários do Norte, do Nordeste, do Sudeste, em que eles se queixam muito, que querem contratar mão de obra, mas essa mão de obra não existe. E eles jogam a culpa no benefício que o governo oferece para a população. O governo oferece benefícios na perspectiva de que as pessoas possam arrumar emprego e sair desse benefício, porque o benefício é para ajudar os mais necessitados.
Ora, então, o que nós estamos discutindo nesse instante? Nós estamos discutindo o seguinte: é preciso saber qual é a causa de as pessoas não quererem entrar no mercado de trabalho. Possivelmente, o salário seja baixo. Possivelmente, a juventude não tenha mais o sonho que eu tinha de assinar uma carteira profissional e trabalhar em uma fábrica das sete da manhã às seis da tarde. Possivelmente, essa juventude queira, sabe, ser empreendedor. Eles queiram fazer uma prática empresarial. Eles querem trabalhar por conta própria.
Então, nós estamos trabalhando para que a gente também dê oportunidade às pessoas que querem trabalhar por conta própria. E isso é uma coisa nova, porque é uma coisa que está acontecendo, sobretudo, junto às mulheres e junto à juventude. As pessoas não querem mais se submeter à regra de trabalho, sabe, todo dia, de segunda à sexta-feira, das sete da manhã às cinco da tarde ou às seis da tarde.
As pessoas querem ter mais liberdade, querem progredir, querem inventar e querem tentar mostrar que são capazes. Nós, então, precisamos colocar o empreendedorismo na nossa cabeça para a gente oferecer às pessoas oportunidade para que elas sejam boas empreendedoras.
A segunda coisa é a questão do custo de vida. Ou seja, você tem sempre um problema. Quando você tem uma demanda muito grande da sociedade, as pessoas aumentam o preço. Quando você tem uma diminuição na demanda, as pessoas reduzem o preço. O que nós estamos vendo? O Brasil virou um grande exportador de commodities. O Brasil hoje, a gente pode dizer que aquele sonho, da década de 70, de que o Brasil seria o celeiro do mundo, o Brasil é hoje o celeiro do mundo. Nós, hoje, exportamos coisas, sabe, mas muita coisa. Nós abrimos não sei quantos mercados esse ano, querido. Somente esse ano.
Todo mundo quer comprar as coisas do Brasil. De ovo de galinha à pena de pavão, ao pé de galinha, à carne, à soja, ao milho, ao etanol. Todo mundo quer comprar as coisas do Brasil. Então nós temos que nos preparar para que a gente possa atender o mercado externo sem criar problema para o mercado interno.
Nós estamos cuidando disso. Eu já fiz reuniões com alguns setores empresariais. Essa semana vamos ter mais reuniões com outros setores empresariais e vamos encontrar um acordo, porque isso preocupa a mim, preocupa o Ministério da Fazenda, preocupa o Ministério da Indústria e Comércio, sobretudo, os ministérios que trabalham na área social.
Então, nós estamos tentando ver como é que a gente vai fazer para baratear o alimento e continuar aumentando o salário. Porque é muito importante que a gente continue aumentando o salário. Porque somente com o aumento do salário e uma certa redução do preço, é que a gente vai permitir que a comida chegue à mesa do trabalhador de qualidade e a preços compatíveis com o salário que ele ganha.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): De qualquer maneira, presidente, como não se pode tapar o sol com a peneira, como se diz no populesco, o preço dos alimentos tem dado sobrevida à inflação ultimamente. E os brasileiros, por conta disso, têm, sim, tido dificuldade de colocar comida na mesa. Eu pergunto para o senhor o seguinte: agro e governo têm se entendido bem, presidente? Sem divergências que possam impactar no preço dos alimentos?
Presidente Lula: Nenhuma, nenhuma [divergência]. Até porque, Luiz, o agro produz muita coisa para exportação, seja a carne, seja a soja, seja o milho, seja o etanol. Tudo isso é produto produzido pelos grandes proprietários de terra, pelas grandes fazendas brasileiras, que é um benefício importante para o Brasil. E o que nós fazemos? Nós garantimos para essa gente uma política de crédito e já fizemos os dois maiores financiamentos para a agricultura familiar da história desse país. E vamos continuar fazendo.
Da mesma forma, nós temos que fomentar, incentivar e melhorar o crédito para a agricultura familiar. Porque nós temos quase cinco milhões de propriedades de zero a cem hectares. Nessa propriedade é que se produz 70% ou mais dos alimentos que vão à mesa do trabalhador. E nessa propriedade é que nós precisamos fazer mais investimento, mais tecnologia, mais financiamento, mais assistência técnica, para que se melhore a capacidade produtiva dessa gente e para que o alimento possa ser produzido com muito mais qualidade, com muito mais rapidez e com muito mais quantidade. Isso nós estamos fazendo.
Nós temos um Plano Safra importante no Pronaf, nós temos uma política de crédito muito, muito, muito forte para o pequeno e médio produtor. E nós já fizemos o programa Mais Alimentos, que é um programa que financia máquinas e implementos agrícolas para aumentar a produção rural. Porque, se o cara produz 10 litros de leite, vamos fazer com que ele produza 20. Se ele produz meia dúzia de laranja, vamos fazer com que ele produza uma dúzia. Porque assim a gente melhora a capacidade produtiva dele e a gente garante que o alimento chegará ao supermercado a preços acessíveis para que o povo possa viver bem.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): É o que todo mundo espera. Agora, presidente, o senhor tem dito que o Brasil perdeu o respeito que tinha no cenário internacional. Culpa de uma política externa muito mal feita, aos trancos e barrancos, por assim dizer. Como o senhor tem sentido essa atual falta de respeito?
Presidente Lula: A política externa do Brasil foi jogada no limbo nos últimos anos de governo. Porque nós tínhamos um presidente que ninguém queria recebê-lo e tínhamos um presidente que ninguém queria vir aqui. Sem fazer política externa, você não aumenta o seu comércio. Sem fazer política externa, você não aumenta a sua relação e você não arruma mais amigos. Vejam o que aconteceu, depois que nós entramos no governo, eu já visitei praticamente, já conversei com, praticamente, quase todos os presidentes da Europa, eu já conversei com quase todos os presidentes da África, eu já conversei com todos os presidentes da América Latina. E já conversei com muitos presidentes do mundo asiático, a começar pelo Xi Jinping, da China. Eu já participei de todos os congressos em que estava todo mundo presente.
Isso facilita enormemente o trabalho do ministro da Agricultura. Isso facilita enormemente o trabalho do ministro da Indústria e Comércio. Porque o papel do presidente da República não é fazer negócio, o papel do presidente da República é abrir a porta. Quando abre a porta, os ministros vão e começam a trabalhar junto com empresários.
É por isso que as nossas exportações estão crescendo, é por isso que nós estamos vendendo muito, é por isso que tem muitos mercados abertos para o Brasil. Eu, agora, dia 27 [de março], vou para o Japão. E vou com a perspectiva de abrir o Japão para comprar carne brasileira. Eu já tinha aberto, em 2005, para comprar frutas brasileiras. E é assim que o Brasil é respeitado.
Nós fizemos a COP20 [G20] aqui no Brasil, foi extraordinária. Vamos fazer os BRICS agora, dia 2 de julho, aqui no Brasil, ou no começo de julho. E vamos fazer a COP30, da qual o Amapá vai se colocar como estado exemplo de estado de preservação ambiental. O Macapá, possivelmente, sendo o estado brasileiro com menos desmatamento nesse instante. E isso é importante para a gente mostrar ao mundo que vem aqui, vem à Amazônia, porque todo mundo dá palpite na Amazônia, Luiz Melo, mas pouca gente conhece a Amazônia.
Então, quando nós decidimos fazer a COP no Amapá [Belém], era porque a gente queria: parem de falar na Amazônia e venham conhecer a Amazônia. Não ache que lá só tem mato, não. Embaixo de cada copa de árvore tem um trabalhador, tem um seringueiro, tem um pescador, tem um pequeno proprietário de terra, tem um pequeno trabalhador rural. E essa gente precisa ser respeitada e precisa de dinheiro.
E é por isso que nós estamos cobrando do mundo desenvolvido, que já desmatou toda a sua terra, sabe, que eles têm que financiar para que os países que ainda têm florestas mantenham elas em pé. Para mantê-las em pé, nós precisamos garantir comida na boca de quem mora lá, de quem trabalha, de quem pesca, de quem carpe, sabe, de quem colhe seringa. É isso que nós queremos fazer com muito carinho, por isso, a COP30 será muito importante. Eu espero que você esteja lá, Luiz, para transmitir uma entrevista ao vivo para o Brasil.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Muito bem. Seria essa, então, presidente, a razão de o senhor ter optado em trazer a COP30 para o nosso vizinho Pará, aqui pertinho. Fazer com que os países conheçam mais de perto a grandeza da Amazônia e como cuidamos muito bem dela. Seria dar esse exemplo para eles. Mais ou menos isso?
Presidente Lula: Luiz, tem uma coisa importante. Há um tempo, eu estava conversando com uma jornalista sueca e ela me contava que, quando ela era pequena, o pai dela comprou um pedaço de terra na Amazônia para ela. Sabe aquele negócio, na década de 80, de 90, de gente oferecendo terra na Amazônia porque era preciso preservar? Olha, essa gente toda fala, se você viaja hoje, Luiz, todo mundo fala da Amazônia, mas pouca gente conhece.
Quando nós decidimos fazer a COP30, em Belém, é porque eu quero que a Amazônia fale para o mundo. Quero que eles venham ver a exuberância da Amazônia, ver a qualidade humanista do povo do Norte do país, do povo do Amapá, do povo do Pará, do povo de Roraima, do povo do Amazonas, para eles conhecerem que tipo de gente nós somos.
E aí queremos discutir seriamente o financiamento. Vão financiar ou não vão financiar? Na COP de 2009, eu era presidente da República, que eu fui e lá os países ricos prometeram dar 100 bilhões de dólares para que os países que tivessem floresta em pé mantivessem a floresta. Não deram. Depois prometeram 300 bilhões, não deram. Agora a necessidade são 1 trilhão e 300 bilhões de dólares. Então vai ficar cada vez mais difícil. E pelo comportamento do presidente americano, eu acho que vai ficar cada vez mais difícil os países ricos quererem se comprometer a ajudar a salvar o nosso planeta.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Os países vão lá, participam dos encontros, clima, alternativas energéticas, prometem mundos, fundos e latifúndios, e não dão absolutamente nada ao fim das contas. Isso gera descrédito, não é, presidente? Agora, o senhor, no caso do G20, que foi realizado no Rio de Janeiro, chegou a dizer, eu tenho dito, que foi o melhor de todos para o Brasil. O senhor tem dito isso. Por que, presidente?
Presidente Lula: Olha, porque o comparecimento de presidentes foi extraordinariamente importante. Ou seja, nós tínhamos na mesma mesa o presidente da China, o presidente da Índia, o presidente dos Estados Unidos, o presidente do Brasil, o presidente da Indonésia, o presidente do Vietnã. Ou seja, você conseguiu juntar o mundo inteiro em torno, sabe, de uma coisa. E nós aproveitamos e propusemos a criação do Pacto contra a Fome e a Pobreza, que foi uma coisa extraordinária, porque todo mundo participou, todo mundo aderiu. E a gente vai fazer essa luta contra a fome e a pobreza quase que uma profissão de fé, porque o mundo já produz alimento, o mundo já tem tecnologia, o mundo já tem dinheiro. O que é preciso é fazer com que esse dinheiro chegue na mão do povo para ele comprar o alimento.
Hoje você tem, só para você ter ideia, Luiz, no ano passado se gastou 2,4 trilhões de dólares em armamentos. Se esse dinheiro tivesse sido gasto para acabar com a fome, a gente não teria mais fome. Hoje, nós temos dois ou três empresários que têm mais dinheiro do que muitos países. Então o que nós queremos é chamar a razão das pessoas. Ninguém precisa ser tão rico a ponto de querer procurar um terreno para comprar em Marte, ou no Sol, ou na Lua.
Não. Vamos transformar a vida no planeta Terra mais feliz e que todos precisam ter o que comer. Esse mundo precisa garantir a todo mundo que levanta tenha um café da manhã, um almoço, uma janta, uma escola, uma casa. E o direito de ser feliz. É só isso que nós queremos e o mundo tem dinheiro para isso.
O Brasil já deu prova disso. Olha, quando eu voltei agora, Luiz, eu encontrei 33 milhões de brasileiros passando fome. Já tiramos 24 milhões de brasileiros e quando chegar em 2026, a gente outra vez vai sair do Mapa da Fome. A gente vai poder dizer o meu sonho de 2003. Você está lembrado do meu discurso? Você está lembrado do meu discurso em 2003? Eu dizia o seguinte: que quando eu terminar o meu governo, se cada brasileiro estiver tomando um café, almoçando e jantando, eu já realizei o sonho da minha vida. É isso que eu quero.
Eu quero que todo mundo tenha café da manhã, almoço, janta. Que todo mundo possa comer as proteínas e as calorias necessárias. E é por isso, companheiro, que eu vou viajar para conversar com o nosso povo. O nosso povo tem direito, o mundo tem direito e tem pouca gente com muito dinheiro e muita gente sem dinheiro. É preciso repartir esse dinheiro. É preciso compartilhar a riqueza produzida no mundo. Não é possível que um cidadão sozinho tenha 200, 300 bilhões de dólares guardados não sei para quê e outros milhões não tenham sequer um copo de café com leite para tomar de manhã.
Então, é essa que é a minha briga e eu tenho certeza que nós vamos vencer.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): É o que a gente chama do prazer de manjar, de comer. A maior felicidade do mundo é sentar à mesa com a família e poder manjar, comer. Presidente, eu queria chamar a atenção do senhor para o seguinte. O senhor chama de luta na rua ou uma coisa parecida assim. Eu vi o senhor numa entrevista recente, inclusive, cuja finalidade seria botar o governo para conversar mais com o povo aqui fora. É para melhorar a colheita de tudo que já foi plantado nesses dois primeiros anos de governo do senhor?
Presidente Lula: Não é apenas por causa de dois anos de governo. O papel do governo é estar na rua conversando com o povo. Esse é o papel do governo. O ministro não tem que ficar no seu gabinete, porque quando fica no seu gabinete só aparece despesa. Ninguém aparece no meu gabinete para oferecer uma coisa boa, só aparece para pedir. Nos ministérios é a mesma coisa.
Então, como eles estão fazendo, como eles estão projetando, como eles estão fazendo licitação, nós temos que ir para a rua para conversar com o povo. O que está acontecendo no Brasil. Se você participar do evento, amanhã, você vai ver o que está acontecendo no Amapá. Você vai ver a gleba, não apenas a gleba de Kumaú, você vai ver mais seis glebas de 290 mil hectares para os agricultores familiares. Você vai participar da inauguração do conjunto residencial Nelson dos Anjos de Macapá. Você vai ver o lançamento da pedra fundamental, a ordem de serviço do Instituto Federal em Tartarugalzinho. E você vai ver também muitas coisas, como a inauguração da linha de transmissão.
E nós vamos assumir mais compromisso com o governo do estado, com o prefeito, com os prefeitos do interior, porque governar é isso. Governar é fazer. Governar é entregar. E é isso que nós vamos fazer.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Vamos direto ao ponto, porque o tempo está correndo. O Brasil já vive uma estabilidade fiscal, presidente, ou ainda corre atrás dela?
Presidente Lula: Eu tive o prazer, Luiz, de ser o presidente que fez um superávit primário de 4,25%. E, quando eu terminei o meu governo, a economia brasileira crescia 7,5%. A inflação estava 4,5%. E o comércio varejista estava crescendo a 13%. E o Brasil tinha uma reserva de 370 bilhões de dólares, coisa que o Brasil nunca teve. Pois bem, o que eu quero fazer é repetir esse sucesso do Brasil. O que eu quero fazer é repetir esse sucesso do Brasil.
Por isso, eu acho que os ministros têm que falar, têm que viajar, conversar com o povo, conversar com os empresários, conversar com o prefeito, conversar com o governador. A gente não se preocupa se o governador é desse ou daquele partido político, a gente vai conversar com ele, porque ele é um representante legal do estado. Então, é assim que a gente vai fazer com que a democracia volte a ser respeitada no Brasil e no mundo.
Essa é a minha tarefa e eu tenho certeza que eu vou conseguir isso, Luiz.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Muito bem. Presidente, uma perguntinha aqui, talvez não vá agradar muito o senhor, mas vou fazer, porque o senhor é um democrata aberto a qualquer tipo de pergunta da imprensa. Por que os juros, a partir do Banco Central, presidente, têm crescido tanto ultimamente? Antes, a culpa era do Campos Neto, o ex-presidente do Banco Central, com quem, aliás, o senhor não era muito bem afinado, como com o atual Gabriel Galípolo [presidente do Banco Central]. Qual a razão de ser, presidente?
Presidente Lula: Olha, veja, eu acho que o Roberto Campos, ele, na verdade, foi um cidadão que teve um comportamento muito anti-Brasil no Banco Central. Ele era um cara que falava mal do Brasil o tempo inteiro, falava mal do Brasil, passava descrédito para os empresários, inclusive no exterior, e ele foi se comprometendo e foi aumentando cada vez mais a taxa de juros.
Não sei se você está lembrado, eu dei uma entrevista, há 10 dias atrás, em que eu falei: não é possível você imaginar um país do tamanho do Brasil, a economia do tamanho da brasileira, você dar um cavalo de pau. Um cavalo de pau você dá em um fusquinha. Você não pode dar em um navio do tamanho do Brasil, no mar revolto, como está revolto o mundo, sabe, com a democracia, com a economia.
Então, nós temos que ir ajustando as coisas e eu tenho certeza que o Gabriel Galípolo vai consertar a taxa de juros nesse país e nós só temos que dar a ele o tempo necessário para fazer as coisas. Ele não poderia entrar e dar um cavalo de pau. “Bom, estamos a 180 km/h, vamos voltar para 30 km/h”. Não, é preciso, sabe, que vá com cuidado para que a gente não dê uma trombada.
E eu confio muito... Eu gosto de dizer, viu, Luiz, que possivelmente o Galípolo passe para a história o melhor presidente que o Banco Central já teve em toda a história. Ele é muito inteligente, ele é muito capaz e é muito brasileiro.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Muito bem, presidente. O Amapá, inegável, é hoje um pequeno, mas gigante já, né? Dentro do seu governo, inclusive, e no Congresso Nacional. No governo do senhor, com o ministro Waldez Góes [ministro da Integração e Desenvolvimento Regional] e, na sua liderança, o Randolfe Rodrigues, que é petista, inclusive. E, na presidência do Senado e também do Congresso Nacional, o Davi Alcolumbre e todos eles aliados do seu governo. Estamos orgulhosos deles, evidentemente. Eu, honestamente, estou muito orgulhoso deles. Mas com essa força toda, presidente, quais os méritos que o senhor atribuiria, enxerga nessa turma cá de casa, aí no Congresso Nacional e no seu governo?
Presidente Lula: Bom, Luiz, eu sou muito feliz de ter o Alcolumbre como presidente do Senado. Acho que ele vai ajudar a gente a dinamizar as políticas que precisam ser feitas nesse país. Ele compreende bem o Brasil, ele é de um estado pequeno, do Norte do país, ele sabe as dificuldades. O Randolfe é um companheiro, que presta um serviço extraordinário como líder do governo no Congresso. E o Waldez é um menino muito experiente. O Waldez é muito experiente. Convivi com o Waldez nos meus dois primeiros mandatos e tenho certeza que poucos estados estão tão bem representados como o Amapá. Tenho certeza disso.
Fico orgulhoso do Amapá ter produzido pessoas tão significativas, tão importantes, e espero que todos eles consigam realizar tudo aquilo que eles sonharam, trabalharam e agora conquistaram, ocupando espaço na República Federativa do Brasil. Tenho certeza que o Brasil está bem representado por esses três personagens do Amapá.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Uma boa safra, então. Agora, presidente, enfim. A imprensa em nome da liberdade de saber para informar. Tem tido resposta às perguntas feitas para o governo do senhor?
Presidente Lula: Ora, veja, todas as perguntas, é importante você lembrar que quem criou a Lei da Transparência fomos nós. Não foi um outro partido que criou. Foi o PT que criou o Portal da Transparência. Agora, a gente tem que separar o que é pergunta séria, o que é pergunta informativa e o que é molecagem. Então, aquilo que é irresponsável, a gente não vai dar bola para aquilo. Agora, aquilo que é responsável, a gente tem obrigação, porque foi para isso que nós criamos a lei.
Agora, Luiz, eu queria fazer uma pergunta para o senhor. Estou aqui aguardando você fazer a pergunta sobre a questão do petróleo.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Está engatilhada, presidente. Eu posso fazer, então, não é? Então, responda, presidente, por favor. E ajude a tirar os amapaenses desse desassossego em que vivem. A pergunta é essa aqui. Afora os entraves do Ibama. Diga para a gente, presidente, definitivamente, o senhor vai mandar liberar a exploração do petróleo do Amapá?
Presidente Lula: Não é que eu vou mandar explorar. Eu quero que ele seja explorado. Agora, antes de explorar, nós temos que pesquisar. Nós temos que ver se tem petróleo. Nós temos que ver a quantidade de petróleo. Porque, muitas vezes, você cava um buraco de 2 mil metros de profundidade e você não encontra o que você imaginava encontrar. Então, o que... Talvez, na semana que vem, ou essa semana ainda, vai ter uma reunião com a Casa Civil, com o Ibama, e nós precisamos autorizar que a Petrobras faça pesquisa. É isso que nós queremos.
Se depois a gente vai explorar, é outra discussão. O que não dá para a gente ficar nesse lenga-lenga. O Ibama é um órgão do governo, parecendo que é um órgão contra o governo. Não. O que nós queremos é que o governo diga qual é a vontade dele. A Petrobras é uma empresa responsável. A Petrobras é a empresa mais responsável. Ela tem a maior experiência de exploração de petróleo em águas profundas. Nós vamos cumprir todos os ritos necessários para que a gente não cause nenhum estrago na natureza.
Mas a gente não pode saber que tem uma riqueza embaixo de nós e a gente não vai explorar. Até porque dessa riqueza é que a gente vai ter dinheiro para construir a famosa e sonhada transição energética.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Muito bem. Estamos com o baú cheio de ouro, sentado em cima dele, e não sabemos que o baú está cheio de ouro. Presidente Lula, Luiz Inácio Lula da Silva, muitíssimo obrigado pela entrevista exclusiva. O Brasil está todinho acompanhando a gente, presidente. Porque a entrevista está na pauta de trabalho do senhor para hoje, pelo que lemos aqui. Muito obrigado e vamos aguardar pela presença do senhor aqui.
Eu já tive a oportunidade de entrevistar o senhor, inclusive, quando ainda estava em campanha para a presidência. O senhor lembra do Batista? O senhor lembra do Gilson? Gilson Rocha? Do Wagner Gomes? O senhor morou, inclusive, na casa do Batista. Passou uma noite lá.
Presidente Lula: Eu dormia lá. Eu dormia lá muitas vezes que eu ia lá. Eu conseguia dormir lá muitas vezes. Ele não me deixava dormir no hotel. O dono do hotel novo me oferecia uma suíte para eu dormir. Eu chegava lá e o PT não deixava eu ir para a suíte, porque era uma suíte, era um hotel de burguês. E eu tinha que dormir na casa do Batista. Eu lembro muito, eu lembro muito disso.
Luiz Melo (Rádio Diário FM): Batista, professor, está por aqui ainda. Muito obrigado. Nos encontramos aqui. Nos encontramos amanhã aqui.
Presidente Lula: Luiz, até amanhã. Fica se quiser. Tchau.