Entrevista do Presidente Lula ao jornal Corriere della Sera, Itália
Corriere della Sera: Senhor Presidente, em tempos de guerra, o senhor insiste em falar sobre a necessidade de combater a fome e a pobreza. O que espera da cúpula da FAO que se inicia hoje em Roma?
Presidente Lula: Na reunião, deixaremos claro que a fome e a pobreza não são resultado da escassez – elas são frutos de uma escolha política. Em 2024, os gastos militares tiveram seu maior aumento desde o fim da Guerra Fria, chegando a US$ 2,7 trilhões. Ao mesmo tempo, 673 milhões de pessoas enfrentam a fome. Esta situação continua sendo uma vergonha para a humanidade, embora tenha havido pequena melhora, para a qual o Brasil contribuiu. Mais de 26,5 milhões de brasileiros deixaram a situação de insegurança alimentar grave em 2023 e 2024. Saímos do Mapa da Fome da FAO pela segunda vez. Por meio da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que lançamos na nossa presidência do G20, queremos que todos os países sigam nesse caminho e, assim, possamos erradicar a fome no mundo. A FAO, que está celebrando seus 80 anos e traz um histórico de iniciativas muito bem-sucedidas, é fundamental nesse grande esforço de devolver a dignidade a milhões de pessoas famintas.
Corriere della Sera: Depois de tantos desencontros e das tarifas de 50% impostas ao Brasil, o senhor se surpreendeu com a “excelente química” que Trump disse ter sentido ao encontrá-lo? E o que pretende dizer a ele durante a primeira cúpula anunciada entre os dois?
Presidente Lula: Tive dois contatos muito bons com o Presidente Trump, primeiro em Nova York e, na semana passada, por telefone. Foram conversas muito amigáveis, de dois presidentes experientes, das duas maiores democracias do Ocidente, e agora nossas equipes estão trabalhando para organizar um encontro presencial. A verdade é que o Brasil sempre esteve aberto ao diálogo e à negociação, com uma posição muito clara de que nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis. Tenho a convicção de que algumas decisões do presidente Trump se deveram a informações equivocadas que recebeu sobre a situação política e o comércio internacional do Brasil. Mas, conforme conversarmos mais, poderemos esclarecer essas questões. Brasil e Estados Unidos têm 201 anos de sólidas relações diplomáticas e comerciais e, com esse diálogo, podemos torná-las ainda mais fortes, em um verdadeiro jogo de ganha-ganha que beneficia os povos dos dois países.
Corriere della Sera: Trump chamou o julgamento de Jair Bolsonaro de “caça às bruxas”. O senhor pretende convencê-lo de que a decisão foi justa ou considera a possibilidade de conceder anistia ao ex-presidente?
Presidente Lula: No Brasil, zelamos pelo cumprimento da nossa Constituição, que estabelece a independência entre os Três Poderes. Ninguém – nem eu, como presidente da República, nem qualquer outra pessoa – pode desviar uma corte de juízes de seu papel de fazer cumprir a lei. E essa não é uma invenção brasileira: está também na base da Constituição norte-americana e de todas as grandes democracias. Nossa Suprema Corte conduziu um processo minucioso, com provas robustas, direito de defesa e o devido processo legal. Houve uma tentativa de golpe de Estado no Brasil e um plano para assassinar a mim, o vice-presidente e um juiz da Suprema Corte. Isso está documentado e foi dito pelas pessoas que participaram daquele crime. Agora, pela primeira vez em 525 anos de nossa história, um ex-chefe de Estado foi condenado por uma ação golpista. E isso servirá de exemplo para que ninguém mais atente contra o estado democrático de direito no Brasil.
Corriere della Sera: Como relançar o multilateralismo em um mundo multipolar, evitando o risco de que países autocráticos assumam a liderança em uma nova ordem global?
Presidente Lula: O multilateralismo foi a melhor coisa que criamos depois da Segunda Guerra, e a solução para a crise que ele enfrenta não é abandoná-lo, mas sim refundá-lo de forma mais justa e inclusiva. A ONU – e toda a governança internacional – deve refletir a nova realidade multipolar do século XXI. Deve refletir e fortalecer uma nova ordem de paz e desenvolvimento para todos. Insisto na necessidade de reforma ampla do Conselho de Segurança. É inexplicável que países como Brasil e outras grandes nações do Sul Global não ocupem assentos permanentes, pois é a pluralidade de vozes que funciona como fator de equilíbrio. Também temos que acabar com o direito de veto para que, quando tomarmos uma decisão, todos a cumpram. A ONU precisa ter força para atuar na questão do clima e evitar conflitos como o genocídio em Gaza e a guerra na Ucrânia.
Corriere della Sera: Diante de uma direita globalmente cada vez mais forte e coesa, como a esquerda pode reagir e responder aos novos desafios do presente?
Presidente Lula: Nosso primeiro grande desafio é defender, com toda força, a democracia que a extrema-direita busca tanto enfraquecer. Falo isso porque só a democracia possibilita as grandes transformações sociais. E porque sem ela nunca seria possível que eu, um operário de origem humilde, chegasse à presidência de um país que, até então, só havia sido governado por uma elite totalmente desconectada da realidade do povo brasileiro. Também precisamos seguir mostrando que a agenda de esquerda – de justiça social e combate às desigualdades – traz impactos e benefícios diretos para a vida das pessoas. Estou falando da valorização da renda e das condições de vida dos trabalhadores. Da dignidade para quem precisa de serviços básicos oferecidos pelo estado: a saúde, a educação, a moradia. Da segurança de viver livre da violência dos discursos de ódio, dos preconceitos e da xenofobia. Tenho certeza de que conseguiremos fazer isso. Já nos reinventamos várias vezes ao longo da história e faremos isso outra vez para vencer a mentira e as ameaças autoritárias que tanto mal geram à humanidade.
Corriere della Sera: Dentro de um mês, o Brasil sediará a COP30 em Belém, porta de entrada da Amazônia. O que significará sucesso para o senhor — com ou sem Trump à mesa?
Presidente Lula: A COP30 será a COP da verdade. O momento em que veremos quem acredita e quem não acredita no que a ciência está nos mostrando. É o momento de agir. Se não fizermos isso, a humanidade vai perder a crença nessas reuniões. Em 2009, os países ricos comprometeram-se a mobilizar US$ 100 bilhões por ano para ajudar os países menos desenvolvidos a enfrentar a mudança do clima. Isso não foi cumprido e contribui para o negacionismo. O Brasil, por sua vez, tem feito sua parte e vai lançar na COP30 o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), um mecanismo inédito para remunerar os países que mantêm suas florestas em pé. O Brasil foi o primeiro país a se comprometer com um investimento no fundo, de US$ 1 bilhão. É fundamental que outros países sejam igualmente comprometidos. O Brasil também deu o exemplo, apresentando metas ambiciosas, as NDCs, para reduzir as emissões de todos os gases do efeito estufa entre 59% e 67%. É essencial que todos os países sigam pelo mesmo caminho.