Entrevista do presidente Lula à TV Alterosa - SBT
Olá, bem-vindos à edição especial do EM Minas, programa do Jornal Estado de Minas, do Portal Uai e da TV Alterosa. O nosso convidado, o nosso entrevistado de hoje, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Presidente, muito bem-vindo.
Presidente Lula: Bom dia. Bom dia. Boa tarde, boa noite.
Jornalista Carolina Saraiva: Boa tarde.
Presidente Lula: É um prazer voltar a Minas Gerais. Você sabe que eu tenho, por Minas Gerais, um carinho muito grande.
E eu sempre digo que eu acho que pouca gente neste país, a não ser os próprios mineiros, andaram mais em Minas Gerais do que eu. Eu andei para construir a CUT [Central Única dos Trabalhadores], andei para construir o PT [Partido dos Trabalhadores], andei em todas as eleições para prefeito, para governador, para presidente da República. E eu fico muito, muito feliz de vir aqui porque as coisas estão acontecendo bem aqui em Minas Gerais.
Nós estamos fazendo as coisas acontecerem aqui em Minas Gerais. Hoje mesmo, vai ter um leilão. O ministro Renan [Filho, dos Transportes] está aqui em Minas Gerais. Nós vamos fazer um leilão na Bolsa [de Valores], em que nós vamos fazer uma parceria com uma empresa privada que vai investir simplesmente 14 bilhões [de reais] na BR-381, no futuro, para que a gente transforme essa estrada numa estrada merecedora da qualidade do povo de Minas Gerais.
Jornalista Carolina Saraiva: Ô presidente, o senhor não me deu nem a chance de perguntar ainda. Uma das questões, é lógico, seria a BR-381 para perguntar se vem verba e tal para a BR-381. O senhor já respondeu aí para a gente, que já tem planos em mente. Mas antes da gente começar esse bate-papo assim de vez, eu queria saber se o senhor ia vir ontem para a BH por causa do jogo de Cruzeiro e Corinthians, né? Está feliz com o resultado?
Presidente Lula: Eu estou feliz com o resultado. Eu tenho um problema, que é o seguinte: eu sou torcedor do Cruzeiro aqui em Minas Gerais, e o pessoal do PT que torce para o Atlético não gosta. Mas eu sou cruzeirense porque sou da geração Tostão, Dirceu Lopes, Joãozinho, Natal, então, o Raul, Piazza… Eu sou dessa geração, então eu virei cruzeirense. Mas ontem jogou contra o Corinthians. E, como o Corinthians é mais necessitado da vitória do que o Cruzeiro, e como eu faço política para o mais necessitado, ontem à noite eu torci para o Corinthians — e o Corinthians ganhou. Eu estou feliz.
Jornalista Carolina Saraiva: Está feliz? Que bom, então. Vamos começar? Essa vinda do senhor a Minas vem para selar a entrega dessa unidade lá em Itabira, de radioterapia. Existe a previsão de outros recursos na saúde para Minas Gerais? Esse, por exemplo, foi um recurso do PAC.
Presidente Lula: Olha, só para você ter noção das coisas que estão acontecendo aqui em Minas Gerais, o Mais Médicos, quando eu cheguei à presidência da República, o Mais Médicos em Minas Gerais tinha apenas 1.105 médicos. Hoje, nós temos 2.300 médicos, 119% de aumento na quantidade de médicos trabalhando aqui no estado de Minas Gerais. Ora, por que isso? Porque não é possível que as pessoas possam morrer porque não têm o atendimento médico.
E, quando eles acabaram com o Mais Médicos no governo passado, o que eles fizeram foi isso: deixar o povo das cidades menores, do interior, abandonado, que, muitas vezes, precisa pegar ônibus sem ter dinheiro para andar 200 quilômetros para ir ao médico. Então, resolvemos colocar as coisas no lugar. As pessoas têm que ter médicos. Portanto, Minas Gerais saiu de 1.105 médicos para 2.300 médicos no programa Mais Médicos.
Além disso, nós estamos anunciando, já há um mês e meio, dois meses, e trabalhando muito forte com o Agora Tem Especialistas. O que nós queremos é que o povo brasileiro, ao fazer a primeira consulta e detectar que tem uma doença mais grave, tenha a segunda consulta imediatamente; que ele não fique esperando 11 meses, 12 meses, 13 meses. Ele morre sem ter a segunda consulta.
Por exemplo: a pessoa pobre vai ao médico, o médico descobre que ela tem um problema no coração e fala assim: “Você tem que procurar um cardiologista”. Ela passa no balcão da UBS, da UPA, e ouve: “Olha, o cardiologista é daqui a 11 meses”.
Aí ela vai no cardiologista, ele pede uma ressonância magnética, aí essa máquina demora mais 10 meses, ou seja, não é possível. O povo pobre tem que ser tratado com respeito que é tratado qualquer pessoa neste país, se o rico tem direito, o pobre tem que ter direito, se o presidente tem direito, o pobre tem que ter direito. Então o que nós estamos fazendo com o Agora Tem Especialistas? Nós já temos mais de 100 caminhões andando por este país para fazer mamografia, para fazer tomografia, para fazer todo e qualquer tipo de imagem que a mulher precisa que seja feita, que o homem precisa que seja feito.
Jornalista Carolina Saraiva: Para acesso às especialidades, né?
Presidente Lula: Às especialidades, então são todas as coisas mais modernas a que o povo têm direito.
E além do Farmácia Popular, que entrega de graça 41 tipos de remédios, aqueles remédios que as pessoas têm uso contínuo para que a gente dê o mínimo de decência ao ser humano.
Então, aqui em Minas Gerais as coisas estão indo bem. Eu estava aqui falando de estrada, Carolina, quando eu falei da BR-381, é porque é uma estrada que a gente tem um carinho, porque ela liga dois estados muito importantes, São Paulo e Minas Gerais.
E eu já fui a pessoa que dupliquei ela no primeiro mandato, mas ela precisa ser melhor reformada, é muita carga, é muito trânsito, então o que é que nós estamos fazendo? Nós estamos fazendo um leilão, e aí o investimento nela será de 14 bilhões de reais, é fazer praticamente uma estrada nova com a decência que ela merece. Mas só para você ter ideia de uma coisa grave, Carolina, aqui quando eu cheguei na presidência, se gastava por ano nas estradas de Minas Gerais só 270 milhões de reais. Nós estamos agora com 833 milhões (de reais).
95% das estradas federais de Minas Gerais estão com plano de reforma, com plano de manutenção. Por que se a gente não fizer isso, a gente não está tratando as pessoas com a decência e com o respeito que as pessoas merecem. É isso que está acontecendo em Minas Gerais.
Só para você ter ideia, aqui em Minas Gerais, o programa Pé-de-Meia, são 4 milhões de jovens no Brasil que recebem uma poupança do governo. Aqui em Minas Gerais são 353.300 jovens que recebem o Pé-de-Meia, para que esses jovens não desistam da escola no ensino médio para ir trabalhar. Nós queremos que eles estudem.
Jornalista Carolina Saraiva: Presidente, vamos lá, um outro compromisso do senhor é mais tarde aqui em Belo Horizonte, da Caravana Federativa. Como é que as cidades mineiras podem ser beneficiadas com a Caravana Federativa?
Presidente Lula: Olha, a Caravana Federativa foi uma invenção que nós tivemos e que o Padilha começou a executar como ministro-chefe das Relações Institucionais, que é a aproximação dos prefeitos e dos governadores com as obras públicas e as coisas que os ministros estão fazendo em cada cidade.
Então nós estamos agora fazendo uma exposição, tem vários ministérios, tem a Caixa Econômica, talvez tenha o Banco do Brasil, às vezes está o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]. E, por volta de 1.500 vão participar, ou 2 mil pessoas, tem várias prefeituras. As pessoas vêm, reclamam, às vezes fazem um novo pedido, às vezes fazem um novo contrato. Ou seja, é efetivamente um mutirão. Um mutirão de democracia.
É o Governo Federal se dirigindo às capitais do estado, juntando todas as cidades e todos os entes federados que têm alguma coisa a ver com o governo, para que a gente faça uma aproximação, para que a gente se conheça melhor, para que a gente ajuste aquilo que precisa ser ajustado, para que a gente repare o que precisa ser reparado.
Jornalista Carolina Saraiva: Um trabalho mais próximo e efetivo, né?
Presidente Lula: É um trabalho muito efetivo, ou seja, é ser olho no olho.
Jornalista Carolina Saraiva: Presidente, o senador Rodrigo Pacheco já deu sinais, voltando agora para o cenário político, já deu sinais que ele não vai se candidatar ao governo de Minas. A prefeita Marília Campos [de Contagem], em entrevista para a gente no Em Minas, falou recentemente que o foco dela é o Senado. Então como é que fica aí a questão da esquerda, da centro-esquerda? Quem seria o nome para o senhor?
Presidente Lula: Você já deve ter ouvido muitas vezes da tua mãe, do teu pai: a esperança é a última que morre.
Jornalista Carolina Saraiva: Já.
Presidente Lula: Eu, sinceramente, quando comecei a alimentar, na minha cabeça, e tentar alimentar o companheiro Pacheco da importância de ele ser um candidato ao governo do estado, é porque eu aprendi a gostar do Pacheco. Acho ele uma pessoa extremamente competente e acho que ele, hoje, é a maior personalidade pública de Minas Gerais neste país. E, portanto, ele está talhado para assumir essa tarefa. Eu até disse para o Pacheco: “Eu estou te pedindo para você me ajudar a ganhar as eleições para presidente da República. Você será governador do segundo estado mais importante do Brasil. Você pode fazer a diferença nesse processo eleitoral”. E ele relutou, relutou, relutou… mas ele pensa que eu desisti. Eu não desisti.
Jornalista Carolina Saraiva: O senhor não desistiu?
Presidente Lula: Eu não desisti, nós temos todo o tempo do mundo ainda.
Jornalista Carolina Saraiva: Alexandre Kalil [ex-prefeito de Belo Horizonte] seria um nome para o senhor?
Presidente Lula: Mas, veja, nós temos o Kalil, eu já apoiei o Kalil aqui na eleição passada, nós temos agora o Tadeuzinho [Tadeu Leite, deputado estadual], que tem gente já dizendo o nome do Tadeuzinho, nós temos duas prefeitas importantes, nós temos Juiz de Fora e Contagem, são duas prefeitas muito importantes. E nós temos ministros aqui, nós temos deputados aqui. Ou seja, eu não tenho pressa. “Quem tem pressa come cru”. Eu vou esperar o tempo passar, eu ainda quero que o Pacheco esteja ouvindo esta entrevista, que eu não perdi a esperança de que o Pacheco vai ser candidato a governador. Na hora que chegar o momento de decidir, se ele não quiser mesmo, nós vamos tentar trabalhar outras pessoas, e vamos encontrar um candidato aqui para governar Minas Gerais de verdade.
Jornalista Carolina Saraiva: Presidente, vou entrar agora num tema um pouquinho mais polêmico, mais recente, a aprovação do PL da Dosimetria. O senhor acha que, se chegar o senhor aprova, como é que fica?
Presidente Lula: Olha, deixa eu te dizer uma coisa, Carolina: eu não gosto de dar palpite numa coisa que não diz respeito ao Poder Executivo. É uma coisa pertinente ao Poder Legislativo. Eles estão discutindo, tem gente que concorda, tem gente que discorda.
Ele foi condenado a 27 anos e 3 meses de cadeia porque ele tentou fazer uma coisa muito grave. Ele não fez brincadeira. Ele tinha um plano arquitetado para matar a mim, matar o Alckmin [Geraldo, vice-presidente da República e ministro da Indústria, Comércio e Serviços] , matar o Alexandre de Moraes [ministro do Supremo Tribunal Federal]. Ele tinha um plano para explodir um caminhão no aeroporto de Brasília. E ele tinha um plano de sequestrar o poder, já que perdeu as eleições.
Então, veja: o Congresso Nacional, a discussão agora vai para o Senado. Vamos ver o que vai acontecer. Quando chegar à minha mesa, eu tomarei a decisão. Tomarei, eu e Deus, sentados na minha mesa, eu tomarei a decisão. Eu farei aquilo que eu entender que deve ser feito. Porque ele tem que pagar pela tentativa de golpe, pela tentativa de destruir a democracia que ele fez neste país. Ele sabe disso.
Não adianta ficar choramingando agora. Se ele tivesse a postura que eu tive quando perdi três eleições; se tivesse tido a postura que o PSDB teve quando perdeu três eleições; se ele tivesse a postura de todo mundo que é democrático e que respeita as instituições, ele não estaria preso. Poderia estar concorrendo agora às eleições.
Mas ele tentou encurtar o caminho. Tentou convencer alguns militares, que também estão presos, e deu nisso que deu.
Então, agora é o seguinte: deixa o Poder Legislativo se manifestar. Quando chegar na mesa do Poder Executivo, eu vou tomar a minha decisão.
Jornalista Carolina Saraiva: Então eu vou continuar um pouquinho nesse clima mais quente, antes de eu sair dele, tá, presidente. Sobre a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro [senador da República] ao Planalto, o senhor vê ele como um possível candidato mais forte que o pai, mais fraco que o pai?
Presidente Lula: Ora, deixa eu te dizer uma coisa com a minha pouca experiência em eleição neste país. A gente não escolhe candidato, a gente não escolhe adversário.
Eu vejo toda hora Caiado [Ronaldo, governador de Goiás], vejo toda hora Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo], vejo toda hora Zema [Romeu, governador de Minas Gerais], vejo toda hora Ratinho [Jr., governador do Paraná], vejo toda hora Flávio [Bolsonaro, senador da República], Michele [Bolsonaro, ex-primeira dama do Brasil], Eduardo [Bolsonaro, deputado federal licenciado], Bolsonaro [Jair, ex-presidente do Brasil], vão inventando um monte de nome. Ou seja, quem inventa muito nome é porque não tem nenhum, tá?
Então eles estão em dúvida porque eles sabem de uma coisa: eles perderão as eleições em 2026. Eles perderão. Porque nós passamos dois anos reconstruindo este país. E eu dizia, no começo do ano: este é o ano da colheita, e estamos colhendo a melhor política de inclusão social que este país já teve. E o ano que vem será o ano da verdade, quando o país perceber, com clareza, o que está acontecendo no Brasil.
Porque agora, eu estava dizendo no começo do ano, nós passamos dois anos para reconstruir esse país. Este ano é o ano da colheita, nós estamos colhendo a melhor política de inclusão social que esse país já teve, e o ano que vem será o ano da verdade, em que o país vai se dar conta com o que está acontecendo nesse país. Ou seja, nós temos a menor inflação em quatro anos da história do Brasil, nós temos o maior aumento da massa salarial da história do Brasil, nós temos o menor desemprego da história do Brasil, o salário mínimo está aumentando acima da inflação todo ano, e nós ainda fizemos o imposto de renda. Ninguém paga mais quem ganha até 5 mil reais e quem ganha até 7 mil e 300 reais vai pagar menos.
Nós criamos o Luz do Povo, que quem consome até 80 kWh não paga nada, e quem consome até 120 kWh paga apenas a diferença. Nós criamos o Gás do Povo para que as pessoas que ganham menos recebam o gás. Serão quase 17 milhões de famílias que vão receber gás de graça a partir de agora, mas vai concluir em março esse processo.
E nós estamos fazendo o Mais Especialistas, nós criamos o Pé-de-Meia, nós melhoramos o Bolsa Família, ou seja, nunca houve a quantidade de crédito que tem havido nesse país para pequeno, médio produtor, pequenos empreendedores, sabe, e esse país está dando certo.
Só para você ter uma ideia, Carolina, eu sei que você é muito nova, você lembra qual foi a última vez que o Brasil cresceu acima de 3%? Foi quando eu era presidente da República, em 2010. De lá para cá, a gente só voltou a crescer acima de 3% quando eu voltei à Presidência da República. Se eu consigo fazer este país dar certo. Esse país não deu certo na mão de ninguém.
Veja: nós tínhamos acabado com a fome em 2014, reconhecido pela FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura], que é o órgão da ONU que cuida da fome. Quando voltei em 2023, havia 33 milhões de pessoas passando fome. Em dois anos e meio, nós acabamos com a fome outra vez.
Nós vamos entregar, este ano, a contratação de 2 milhões de casas do Minha Casa, Minha Vida, coisa que tinha parado. Nós encontramos habitação que começou em 2013 e estava paralisada. Quase 6 mil creches paralisadas, escolas, uma vergonha porque esse país não foi governado, esse país foi abandonado nos últimos 4 anos. Por isso é que morreram 700 mil pessoas com a Covid, porque se tivesse um presidente que tivesse responsabilidade teria evitado dois terços dessa morte.
Jornalista Carolina Saraiva: Aproveitando a polêmica, o governador Romeu Zema tem criticado veementemente o senhor, inclusive nas redes sociais, e aí recentemente ele deu uma entrevista falando que o governo do senhor era de resultados artificiais e comparou o seu governo assim a uma bomba-relógio. O senhor considera essa fala do Zema, que o seu governo realmente é uma bomba-relógio, com resultados artificiais?
Presidente Lula: Quando ele olha que ele fala que o meu governo é uma bomba-relógio, ele deve estar olhando para o governo dele, porque ele pegou esse governo com uma dívida de cento e poucos bilhões e deixou com duzentos e poucos bilhões. Ele passou oito anos sem pagar dívida, oito anos, e quem fez um acordo para resolver a dívida em Minas, fomos nós, e aí outra vez com a ajuda do Pacheco, que trabalhou muito para que a gente pudesse aprovar o Propag.
E, no Propag, a gente está obrigando o governador que a parte que ele vai ter de redução de juros, ele vai ter de parar de comer banana com casca e vai ter que investir em cursos profissionalizantes, para formar a juventude de Minas Gerais. Então, esse tipo de gente que faz política na internet, contando a mentira que quer, comendo jaca com casca, abacaxi com casca, melancia com casca, banana com casca, não dá certo na hora da verdade. Então, se o seu Zema é candidato a presidente, o ano que vem é a hora da verdade, a gente vai ver o que ele fez em Minas e o que eu fiz.
Jornalista Carolina Saraiva: Essa era a pergunta que eu ia fazer para o senhor, se o senhor, como vê, ele quer o seu lugar, né, e o senhor o enxerga lá?
Presidente Lula: É, ele só vai ter que pedir para o povo. É uma diferença muito grande, ele vai ter que ir para a rua, vai ter que convencer, vai ter que explicar o que ele fez em Minas Gerais, e eu, sinceramente, eu prefiro comer um pão com mortadela do que comer banana com casca. Eu, desde pequeno, aprendi a descascar banana, aprendi, nem macaco come banana com casca, tira a banana, porque é uma coisa civilizatória. Então, essas pessoas que vivem de gracinha na internet, que vivem inventando, sabe, isso não vai dar certo.
Política estou dizendo, o ano que vem é o ano da verdade. Se ele for candidato e eu for candidato, a gente vai estar em um debate em que ele vai dizer as proezas deles em Minas Gerais, eu vou dizer as minhas fraquezas no Brasil. E vou mostrar o resultado das coisas, aliás, eu vou medir quem fez mais política de inclusão social em Minas Gerais, se foi o governo do estado ou o governo federal.
Quem é que cuida dos pobres neste estado? Ele vai ter a chance de provar.
Jornalista Carolina Saraiva: Agora, a gente falando um pouquinho sobre segurança, eu vou puxar aqui a sardinha para o meu lado, nós mulheres, eu como jornalista, a gente tem visto muito na televisão casos ligados a feminicídio. Aí, eu vi que a primeira-dama, Janja, pediu ao senhor para ter uma atenção especial a esses casos de agressões e violências contra a mulher. Tem alguma política, algum avanço com relação ao combate ao feminicídio para o nosso país?
Presidente Lula: Deixa eu te dizer, Carolina, com relação à segurança. Veja: nós temos uma PEC [Proposta de Emenda à Constituição] da Segurança para ser votada na Câmara dos Deputados. Essa PEC vai definir qual é o papel do governo federal na segurança pública nos estados. Porque hoje, tal como está a Constituição, e eu fui constituinte, e fomos nós que fizemos, hoje o poder da segurança pública no estado é do governador.
Porque é ele que tem a Polícia Militar, ele que tem a Polícia Civil. Então, o que nós queremos aprovar na PEC é como é que o Estado brasileiro, o governo federal, pode entrar; qual é o papel da Polícia Federal; e se a gente vai poder interferir.
Porque, veja, no Rio de Janeiro, havia cinco anos que a polícia do Rio de Janeiro procurava o assassino da Marielle [Franco, ex-vereadora do Rio de Janeiro] e não encontrou. Quem encontrou foi a Polícia Federal. Então, a Polícia Federal tem expertise, tem mais inteligência.
Nós queremos redefinir o papel da Guarda Nacional. Se aprovada a PEC, nós vamos criar o Ministério da Segurança Pública neste país. Isso é uma coisa. A outra coisa, Carolina, é o seguinte: a violência contra a mulher. Eu fiz um discurso em Pernambuco dizendo o seguinte: acabou. A violência contra a mulher não é um problema da mulher, é um problema do homem.
É o homem que tem que parar de ser violento. Ele tem que parar de ser machista. Ele tem que parar de achar que é dono da parceira dele. Ele precisa compreender que as pessoas só podem viver juntas se quiserem viver juntas. Então, eu fiz um apelo, inclusive aos sindicalistas.
Talvez na semana que vem vou ter uma reunião com o presidente da Suprema Corte, com a ministra Carmen Lúcia [do Supremo Tribunal Federal], com o presidente do Tribunal de Justiça, com o presidente da Câmara e com o presidente do Senado, para que a gente discuta qual é o papel dos homens na luta contra a violência contra a mulher. Porque quem é violento é o homem.
Então, nós precisamos levar esse debate para a porta da fábrica, para a porta do comércio, para a porta do banco, para a rua, nós, homens, falando que temos que nos reeducar.
Não é só aumentar a pena ou mudar o Código Penal. É nos reeducar. Porque eu fui criado por uma mãe analfabeta que me ensinou que a gente não pode bater em mulher. Minha mãe falava: “Se você casar e brigar com a sua mulher, se separe. Mas jamais levante a mão para bater na sua mulher”. É isso que nós temos que falar para os homens.
É isso. Então, eu acho que as mulheres precisam entender o seguinte: nós, homens, precisamos ter coragem de assumir a responsabilidade, porque nós somos os culpados pela violência contra a mulher. Então, nós temos que parar. Nós temos que parar. Nós aprendemos com a nossa mãe, aprendemos com o nosso pai. E nós precisamos educar os nossos filhos não sendo violentos dentro de casa com a nossa parceira. É isso.
Jornalista Carolina Saraiva: Presidente, o senhor está concluindo agora o seu terceiro mandato. O que o senhor ainda não conseguiu fazer? O que lhe causa frustração com relação ao Brasil? Tem algum detalhe?
Presidente Lula: Olha, eu sonho. Na verdade, eu sonho fazer com que o país se transforme num país de uma classe média, livre padrão, estado de bem-estar social. Eu fico olhando sempre para os países nórdicos, o padrão de vida deles. Eu fico olhando a Europa, o padrão de vida. Eu quero que o Brasil seja assim. Por isso é que eu estou investindo em universidade.
Eu vou dizer uma coisa para você. A primeira universidade brasileira foi feita em 1920. A Universidade Brasil. Porque era preciso dar um prêmio de doutor honoris causa para o rei da Bélgica que vinha para o Brasil. Então, o que acontece? De lá, até eu chegar na presidência, foram feitas, entre universidades novas e extensões, 136 ou 138. Em 83 anos.
Eu, em 10 anos, sozinho, já fiz 143. Ou seja, sozinho, eu já fiz mais do que 83 anos no país. Se juntar eu e a Dilma [Rousseff, ex-presidenta do Brasil], nós fizemos quase 200. Então, é o seguinte: eu estou apostando nisso. É preciso fazer mais investimento em educação, mais escola de tempo integral, mais institutos federais, mais universidade, mais engenheiro. Ou seja, é preciso formar muita gente.
É por isso que nós viemos ao Pé-de-Meia. Porque nós descobrimos que 500 mil crianças, no ensino médio, estavam desistindo da escola para trabalhar, para ajudar a família. Então, nós resolvemos criar uma proposta para essas crianças.
Então, eu tinha esse sonho. Eu tinha o sonho da casa própria. Eu tinha o sonho da transposição das águas do Rio São Francisco. Eu tinha o sonho da Transnordestina. Tudo isso está acontecendo, querida. E você lembra do meu discurso em 2023? Eu não fiz discurso com bravata.
Eu falei, se ao terminar o meu mandato, todo brasileiro e brasileira estiver tomando café, almoçando e jantando, eu já terei realizado a obra da minha vida. E graças a Deus, eu já fiz isso. E é isso que eu quero continuar fazendo.
Fazer com que o povo pobre não seja tratado como invisível. Que ele seja enxergado por quem governa. Que o povo negro não seja tratado como invisível. Que as pessoas não sejam discriminadas, que não haja preconceito, que não haja violência. O que eu quero, na verdade, é que os filhos das pessoas mais pobres e mais ricas possam desfrutar da mesma vaga, com as mesmas oportunidades. Eu não quero tirar nada de ninguém, Carolina.
Eu só quero dar oportunidade a todos.
Jornalista Carolina Saraiva: Condições iguais. Presidente, a gente está caminhando para o fim dessa entrevista. Se eu pudesse, eu ficaria por aqui, não chegamos nem na parte da culinária ainda. Mas estamos aí chegando ao fim do ano, Natal, Ano Novo. Qual o recado que o senhor deixa para os mineiros nesse fim de ano, nesse período?
Presidente Lula: Você sabe que o Natal, para mim, é uma época triste. Porque eu estava dizendo ontem, numa entrega de presente que nós fizemos para os funcionários do Palácio do Alvorada e do Torto, eu nunca ganhei um presente na minha vida. Meu primeiro presente eu comprei com 17 anos, que era uma bicicleta velha, que eu passava mais tempo consertando ela do que andando nela. Então, eu acho o Natal um pouco, uma coisa engraçada.
Porque eu fico muito triste, porque tem muita gente que não pode comprar um brinquedinho. Tem muita gente que fica passeando nas lojas sem poder comprar nada. Isso me dá um certo desânimo na vida.
Mas, ao mesmo tempo, a gente tem que ficar feliz com as pessoas que podem comprar alguma coisinha. Eu acho que é uma comemoração extraordinária do nascimento de Jesus Cristo. Acho que é uma data muito importante.
E eu quero que todo mundo esteja bem. Quero que todo mundo não perca a fé. Eu quero que todo mundo tire proveito daquilo que conquistou e que tenha esperança.
Não perca a esperança. Eu sou filho de uma mulher, Carolina. Eu lembro que, muitas vezes, não tinha comida para colocar no fogo. Estavam oito filhos em volta da minha mãe. Ela falava assim, hoje não tem, mas amanhã vai ter. Então, é isso que eu queria dizer para o povo.
Se a gente ainda não conquistou tudo o que a gente quer hoje, vamos ter certeza que a gente vai conquistar amanhã ou depois de amanhã. E depois eu tenho certeza que nós vamos ter um 2026 melhor do que 2025, que foi melhor do que 2024, que foi melhor do que 2023. E vamos para frente, fazendo as coisas acontecerem neste país.
Este é meu sonho, meu desejo. Portanto, ao povo mineiro, aos telespectadores da TV Alterosa, aos seguidores da Carolina, um Feliz Natal e um Feliz Ano Novo.
Jornalista Carolina Saraiva: Presidente, muito obrigada pela entrevista.
Pessoal, a gente encerra aqui essa entrevista com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Esse foi o nosso EM Minas especial. A íntegra desse bate-papo, vocês conferem amanhã no jornal O Estado de Minas.
Obrigada pela companhia, pessoal. Tchau. Obrigada a vocês.