Pronunciamento do presidente Lula no encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Coreia do Sul
Cumprimentar o ministro do Comércio, Indústria e Recursos da República da Coreia, Kim Jung-kwan.
Quero cuprimentar meus amigos, ministros brasileiros de Mauro Vieira, das Relações Exteriores; Fernanda Haddad, ministro da Fazenda; Márcio Fernando Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio; Carlos Fávaro, ministro da Agricultura e Pecuária; Alexandre Padilha, da Saúde; Márcio França, do Empreendedorismo; Frederico Siqueira Filho, das Comunicações; Luciana Santos, ministra Ciência e Tecnologia; Marina Silva, ministra do Meio Ambiente.
Nosso querido governador do estado da Bahia, Jerônimo Rodrigues. Senadora Eliziane Gama; os deputados federais Clodoado Magalhães, Dorinaldo Malafaia, Jorge Solla; e Zé Neto.
Meu caro Jin Roy Ryu, presidente da Federação das Indústrias da Coreia do Sul.
Meu caro Jorge Viana, presidente da APEX.
Nossa querida Taciana [Medeiros], presidenta do Banco do Brasil.Um banco público, muito importante no meu país.
Bem, amigos empresários. Caros amigos empresários brasileiros, empresárias, convidados brasileiros e coreanos.
É sempre um motivo de alegria fazer uma reunião com pessoas que sabem fazer negócio.
Eu costumo afirmar que o papel do presidente da República é apenas abrir a porteira para que as pessoas possam transitar livremente entre as nossas fronteiras.
Quem sabe fazer negócios são os empresários.
E se nós não criarmos as condições para que os empresários se conheçam, para que conheçam os produtos que cada país fabrica, cada produto que o país vende, o comércio sempre vai ficar muito pequeno.
E o comércio do Brasil com a Coreia do Sul é muito pequeno. O ano passado foi de apenas 11 bilhões de dólares.
O que é muito pequeno diante do potencial da economia da Coreia do Sul e da economia do Brasil.
Isso significa que, apesar de algumas empresas coreanas estarem no Brasil já algum tempo, falta o Brasil se autopromover, se autodivulgar para que a gente possa fazer com que o nosso comércio ultrapasse, muito, os 11 bilhões [de dólares] que nós chegamos agora em 2025.
Eu acredito muito que não é possível, no primeiro quarto do século 21, a gente entender que o multilateralismo não tem mais sentido.
A tentativa de acabar com o multiteralismo. A tentativa de votar a coisa, que nós não queremos que volte, o protecionismo para dificultar a economia dos países a crescer. Não existe justificativa. Quanto mais livre o comércio, melhor será para a Coreia e melhor será para o Brasil. E melhor será para o mundo.
O que nós estamos precisando é fazer com que as economias cresçam, gerar oportunidade de trabalho para poder melhorar a qualidade de vida das pessoas que nós representamos.
Não existe outro jeito de fazer as coisas acontecerem se não tiver desenvolvimento nos países.
E o Brasil está livre para fazer negócio com a Coreia.
Esse é o sentido da minha visita à Coreia. Quanto mais a gente praticar o multilateralismo, quanto mais a gente criar condições de vender e comprar, quanto mais nós fizermos política para incentivar as empresas se implantarem nos mais diferentes países, nós estaremos mais contribuindo para o desenvolvimento econômico do planeta.
Porque ainda existem 760 milhões [de pessoas] que vão dormir toda a noite sem ter o que comer.
Então, é preciso que a gente tenha noção de que somente o desenvolvimento do trabalho pode permitir que a gente resolva o problema da fome.
É importante lembrar que, no ano passado, o mundo gastou 2,4 trilhões de dólares em armas e guerras.
E não gastamos 10% disso, para diminuir os efeitos da fome, ou a doença que mata muita gente nesse país por falta de acesso a médico e ao remédio.
É com essa convicção que eu viajo o mundo para tentar divulgar o meu país.
E como todo brasileiro, eu vou fazer um pouco de “esnobar” aqui o que o meu pessoal da agricultura sempre esnoba.
É importante que vocês saibam que o Brasil é um grande vendedor de carne; o Brasil é um grande vendedor de frango; o Brasil vende muito carne de porco, o Brasil vende muito ovos para Coreia, inclusive.
Além do Brasil ser o maior produtor de café, um dos maiores produtor de algodão, um dos maiores produtor de milho, um dos maiores produtores de soja, talvez seja o maior vendedor de proteína animal do mundo.
Só para vocês terem ideia, o Brasil tem um rebanho de gado bovino de, aproximadamente, 240 milhões de cabeças de gado.
No Brasil, se mata, companheiro Fernanda Haddad, 150 mil cabeças de gado por dia. Por dia!
No Brasil se mata 25 milhões de frangos por dia. Mais ainda, no Brasil, as galinhas produzem 1800 ovos por segundo. 60 bilhões de ovos por ano.
Significa que, quando o povo da Coreia quiser ter acesso à proteína, não se preocupe que o Brasil estará pronto para atender à demanda da Coreia.
E mais ainda, vocês correm o risco se comprar carne dos Estados Unidos, estarão comprando carne brasileira.
Se comprar carne da Austrália, estarão comprando carne brasileira.
Se eu comprar carne da Nova Zelandia, também estarão comprando carne brasileira.
Porque o Brasil está em todos os lugares do planeta, produzindo proteína para atender à demanda do povo que quer comer muito, mas não quer engordar.
Então, proteína é uma boa receita para todo mundo que gosta de proteína.
Bem, meus amigos e minhas amigas
Feita propaganda do agronegócio brasileiro.
Minha viagem a Seul não estaria completa sem participar deste fórum empresarial.
É simbólico que nossos países sejam hoje liderados por dois presidentes oriundos da classe operária.
O diálogo permanente entre governantes, trabalhadores e empregadores é o principal pilar de uma economia forte e inclusiva.
O mundo do trabalho está em transformação.
O filósofo coreano Byung Chul Han diz que vivemos em uma “sociedade do cansaço”, em que a pressão pelo desempenho afeta o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional.
Estamos discutindo, no Brasil, o fim da chamada jornada seis por um, para assegurar que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal.
A tecnologia nos permitiu atingir níveis inimagináveis de produtividade.
É hora de pensar no bem-estar das pessoas.
O Brasil tem muito a aprender com a República da Coreia.
Nos anos sessenta, o PIB per capita coreano equivalia a menos da metade do brasileiro.
Hoje, é três vezes maior.
Até a década de oitenta, a produção industrial do Brasil era maior do que a da Coreia.
Hoje, este país é um dos principais polos tecnológicos do mundo.
Nos anos noventa, enquanto o Brasil se rendeu ao receituário neoliberal, a Coreia continuou apostando no papel indutor do Estado em setores estratégicos.
Nenhum país que chegou atrasado à corrida industrial conseguiu subir a escada do desenvolvimento sem políticas públicas robustas.
A experiência coreana prova que elevar a escolaridade da população é um investimento valioso.
Demonstra, além disso, que um crescimento sustentado depende de uma economia variada e sofisticada, capaz de absorver mão-de-obra qualificada.
Nos últimos anos, o Brasil se consolidou como o celeiro do mundo.
Em 2025, tivemos a maior safra da história, com 350 milhões de toneladas de grãos.
Somos uma potência agrícola e temos orgulho de contribuir para a segurança alimentar do planeta.
Mas a resiliência de um país, especialmente em tempos de turbulência global e de retorno do protecionismo, depende da diversificação da sua base econômica e das suas relações comerciais.
Vemos na República da Coreia um parceiro estratégico para atingir esses dois objetivos.
O Brasil é o maior destino de investimentos coreanos na América Latina há anos.
Empresas como Samsung, Hyundai e LG estão presentes em lares brasileiros.
A Coreia já é o quarto maior investidor asiático no país, com estoque de investimentos de nove bilhões de dólares.
Esse volume tem potencial para crescer.
Nos últimos três anos, o Brasil lançou iniciativas importantes, como o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), o Programa Nova Indústria Brasil (NIB), o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) e o Plano de Transformação Ecológica.
Todas eles oferecem condições vantajosas para investidores estrangeiros interessados em trazer inovações tecnológicas e soluções sustentáveis.
Dispomos de segurança jurídica e estabilidade econômica, política e social.
Nossos indicadores socioeconômicos estão em ascensão.
Temos o menor desemprego da história.
Possuímos matriz energética robusta e com forte participação de fontes renováveis.
O índice de desmatamento registrado na Amazônia em 2025 foi o menor da década, com queda de 50% em relação a 2022.
Contamos com um mercado interno expressivo e somos porta de entrada para a América Latina e Caribe.
A colaboração com empresas coreanas em setores intensivos em conhecimento é uma prioridade para nós.
A Coreia é o segundo maior produtor mundial de semicondutores e detém parcela significativa do mercado de baterias.
O Brasil possui minerais críticos que são insumos essenciais para as cadeias de produção de eletrônicos e veículos elétricos.
É um parceiro confiável em um cenário em que a arbitrariedade está se tornando a regra.
O papel de meros exportadores de matérias-primas não condiz com nosso potencial.
Buscamos parcerias que nos permitam agregar valor e produzir tecnologia de ponta em solo brasileiro.
Juntos, também podemos dar importantes saltos científicos.
A start-up coreana Innospace está ajudando a fazer do Centro de Lançamento de Alcântara um novo polo aeroespacial.
Tenho certeza de que o Brasil logo terá o privilégio de ver um foguete sul-coreano em plena operação.
O diálogo entre nossas agências espaciais é crucial para aprofundar essa colaboração, inclusive no compartilhamento de dados de satélites e em projetos de exploração lunar.
A República da Coreia tem ampliado sua pesquisa e desenvolvimento na área de saúde.
O Brasil está avançando na construção de seu laboratório de biossegurança Órion, o único do mundo conectado a um acelerador de partículas.
Isso nos permitirá buscar soluções para doenças, desenvolver métodos de diagnóstico e prevenir epidemias.
Instituições públicas de saúde, como a Fiocruz e outras fundações estaduais brasileiras, estão fortalecendo sua cooperação com a Coreia.
Esperamos que, em breve, possamos fabricar conjuntamente novas vacinas, fármacos e insumos médicos.
Nossos países já são referência mundial em cosméticos.
Em 2025, o setor de beleza brasileiro superou pela primeira vez a marca de um bilhão de dólares em exportações.
A indústria de cosméticos da Coreia já rivaliza com a da França no mercado global.
O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo.
Unindo o potencial brasileiro à tecnologia coreana, podemos multiplicar nosso alcance nesse setor.
A cultura é uma marca forte dos nossos países.
Na Coreia, a economia criativa supera as exportações de setores tradicionais como eletrodomésticos.
No Brasil, o setor já responde por mais de 3% do PIB – acima da indústria automobilística – e apresenta média de geração de empregos superior à nacional.
Do funk brasileiro ao K-Pop, de “Parasita” a “Agente Secreto”, das telenovelas aos K-Dramas, nossa música e nossa produção audiovisual estão conquistando os quatro cantos do mundo.
Parcerias nessa área são garantia de sucesso.
Senhoras e senhores,
A corrente de comércio entre o Brasil e a Coreia é de cerca de onze bilhões de dólares.
Estamos aquém do recorde de quase 15 bilhões registrado em 2011.
O intercâmbio atual não está à altura de duas economias do tamanho do Brasil e da Coreia.
Por isso, celebramos um acordo de cooperação comercial e integração produtiva, com foco no fortalecimento da cooperação industrial, tecnológica e agrícola.
O Acordo também fortalecerá cadeias de suprimentos resilientes e seguras e inova em minerais estratégicos, indústrias sustentáveis, e audiovisual.
Nossos ministérios passarão a se reunir regularmente para discutir como fortalecer relações econômicas.
A Apex, agência brasileira de promoção de exportações, identificou 280 oportunidades para produtos brasileiros na Coreia, de alimentos e bebidas a produtos químicos.
O Brasil vem trabalhado há quinze anos para obter acesso ao mercado de carne bovina coreano.
O bulgogi, tradicional churrasco coreano, combina com uma carne de qualidade como a brasileira.
Estamos prontos para avançar nos procedimentos sanitários necessários para que o Brasil esteja no prato do cidadão coreano.
Isso também permitirá que os maiores frigoríficos do mundo, que são brasileiros, se instalem e invistam aqui na Coreia.
O MERCOSUL está progredindo em tratativas comerciais com diversos países.
Depois de duas décadas, assinamos acordo com a União Europeia, que criou uma das maiores zonas de livre comércio do mundo.
Precisamos, agora, retomar as negociações de um Acordo MERCOSUL-República da Coreia.
A melhor resposta à tentativa de usar o comércio como arma é mostrar que é possível alcançar entendimentos mutuamente benéficos por meio do diálogo e da negociação.
A relação entre o Brasil e a República da Coreia, dois países ligados por fortes laços humanos e vínculos empresariais, é a prova de que a confiança e a cooperação valem a pena.
Tenho certeza de que este fórum gerou muitas oportunidades de negócios que contribuirão para construir um futuro de prosperidade para brasileiros e coreanos.
Muito obrigado.