Declaração do presidente Lula à imprensa por ocasião da visita de Estado do presidente da Bolívia
Companheiro Rodrigo Paz Pereira, ministros e ministras que acompanham o presidente da Bolívia, ministros e ministras do Brasil, dou as boas-vindas ao presidente Rodrigo Paz e aos ministros, governadores e empresários de sua comitiva. Já tínhamos nos encontrado, em janeiro deste ano, à margem do Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, no Panamá. Assim como seu pai, o também presidente Jaime Paz Zamora, que visitou o Brasil em agosto de 1990, o presidente Rodrigo Paz muito nos honra ao escolher o Brasil como destino de sua primeira visita bilateral como chefe de Estado.
Bolívia e Brasil são o ponto de encontro entre a Amazônia, o Pantanal, os Andes e o Cone Sul. Compartilhamos a oitava maior fronteira terrestre do mundo. São mais de 3.400 quilômetros que conectam os estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul aos departamentos de Pando, Beni e Santa Cruz. Essa não é apenas uma linha do mapa. É uma fronteira viva que conecta povos, culturas e economia. É uma fronteira que se expande com comércio, com investimentos em infraestrutura física e energética e com a mobilidade de bolivianos e brasileiros.
O Brasil é hoje o segundo parceiro comercial da Bolívia. Mas o comércio bilateral ainda está muito aquém do seu potencial. Em 2013, tínhamos um intercâmbio de 5 bilhões e 500 milhões de dólares.
Ano passado, esse valor foi de apenas 2 bilhões e 600 milhões de dólares. Precisamos atuar, e muito, para reverter esse quadro. Em setembro de 2025, mais de 100 empresas brasileiras estiveram na Expo Cruz, em Santa Cruz de la Sierra, a maior feira multissetorial da América do Sul.
Nesta visita, 120 empresários bolivianos acompanham o presidente Rodrigo Paz e participarão de um fórum empresarial amanhã em São Paulo. Essas são iniciativas valiosas para impulsionar nosso intercâmbio comercial. Há muitas oportunidades no setor de alimentos, lácteos, material genético, sementes, frutas, algodão, cana-de-açúcar e soja, além de aprofundar a cooperação em biotecnologia com o apoio da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária].
Outra medida que vai surtir efeito no curto prazo é a criação do Sistema Brasileiro de Crédito à Exportação, aprovado na semana passada pelo Congresso Nacional. A partir de agora, o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] dispõe de instrumentos mais modernos de financiamento à exportação de bens e serviços, abrindo espaço para a maior atuação e competitividade internacional das empresas brasileiras para a geração de empregos.
Somamos a isso os investimentos robustos que continuamos fazendo para superar a carência de infraestrutura e fomentar a integração física em nossos vizinhos.
Em 2004, inaugurei a primeira ponte entre Brasil e Bolívia, ligando Basileia do Acre à Cobija, na Bolívia. Foi preciso aguardar mais de 500 anos para que o nosso território fosse ligado por uma ponte. Ano passado, assinei a ordem de serviço para construir a segunda ponte entre nossos países, cujas obras terão início em 2027.
Como disse a ministra Simone [Tebet, do Planejamento e Orçamento], na verdade, a terraplanagem já começou. As obras que estamos falando aqui é quando começarmos a fazer de verdade a ponte. A ponte sobre o rio Mamoré vai facilitar muito a vida dos moradores de Guajará-Mirim, em Rondônia, e Guayaramerín, no departamento de Beni.
Ela também é peça central para a rota de integração sul-americana. Como parte do Quadrante Rondon, vai melhorar a conectividade dos produtos do Brasil e da Bolívia aos portos de Chile e do Peru, permitindo escoamento pelo Oceano Pacífico e acesso aos mercados asiáticos. Também queremos avançar em uma das aspirações que mobilizou vários governos bolivianos, obter acesso fluvial para o Atlântico.
Com esse propósito, o Brasil apresentou, ano passado, projeto de acordo tripartite com a Bolívia e o Paraguai, para aumento da navegabilidade da hidrovia do rio Paraguai, que inclui dragagem, finalização e balizamento do canal Tamengo, que conecta a Lagoa de Cáceres a Corumbá. Outro pilar estruturante da parceria bilateral é a cooperação energética. Há décadas, a Petrobras ajuda a construir na Bolívia uma das mais importantes experiências de integração energética da América Latina.
Em um contexto internacional marcado por conflitos que ameaçam a provisão segura de combustíveis, a Bolívia permanece como uma fonte segura e mantém a condição de maior fornecedor de gás natural para o Brasil. Conversamos sobre a possibilidade de ampliar investimentos nessa área e incrementar o volume exportado para o mercado brasileiro. O gasoduto Brasil-Bolívia serviu muito ao crescimento da indústria brasileira e do setor de hidrocarbonetos boliviano.
Hoje, ele pode ser aproveitado para uma integração mais ampla dos mercados de gás do Cone Sul. Também poderá contribuir para abastecer as fábricas de fertilizantes que o governo boliviano considera instalar em Puerto Quijarro. Também avançamos firmemente rumo à interconexão de nossos sistemas elétricos.
O acordo que assinamos hoje abre caminho para a construção de linha de transmissão entre a província de Hermann Busch, no departamento de Santa Cruz e o município de Corumbá. Vamos otimizar o uso dos recursos existentes nos dois países e elevar eletricidade a regiões ainda dependentes do diesel. O Brasil está disposto a cooperar com a Bolívia, também com apoio à produção de biocombustíveis e outros recursos renováveis.
Isso significa mais segurança energética e diversificação de fontes de fornecimento, além de possibilitar a descarbonização das nossas economias. Nossa integração vai além dos setores de infraestrutura e energia. Bolívia e Brasil estão unidos na preocupação com a segurança pública.
O acordo que assinamos hoje renova nosso compromisso com o combate ao crime organizado nos dois lados da fronteira. Ele prevê maior coordenação para prevenir e punir o tráfico de drogas e de pessoas, contrabandos, roubos de veículos, lavagem de dinheiro, mineração ilegal e crimes ambientais. Ao mesmo tempo, é fundamental facilitar a mobilidade das pessoas.
Senhoras e senhores, caro presidente Rodrigo Paz, A presença de milhares de estudantes brasileiros em universidades bolivianas, especialmente nos cursos de medicina, é um exemplo dos laços humanos que unem nossos países. Estes jovens fortalecem o intercâmbio acadêmico e cultural entre o Brasil e a Bolívia e aproximam ainda mais nossas sociedades. Hoje, também assinamos um memorando de entendimento sobre cooperação turística.
Queremos que mais turistas bolivianos conheçam nossa Copacabana, Carioca, e que mais brasileiros visitem a Copacabana Andina histórica, cidade às margens do Lago Titicaca. O presidente Paz e eu concordamos que a integração regional não é um projeto ideológico, é uma necessidade histórica. Em um mundo cada vez mais competitivo, nenhum país da nossa região terá condições de prosperar isoladamente.
Somente uma América do Sul integrada poderá ocupar o lugar que merece na economia e na política global. A adesão da Bolívia ao Mercosul representa um passo histórico. O Mercosul se fortalece e nos dá mais autonomia estratégica diante das instabilidades do mercado global.
Com a Bolívia, o Mercosul deixa de ser um projeto restrito ao Cone Sul e passa a se consolidar como verdadeiro eixo de integração continental. Integração que ainda conta com instrumentos importantes como a CELAC [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC)].
Participarei em 21 de março da 10ª cúpula da CELAC em Bogotá, ocasião em que também abriremos o debate aos nossos parceiros africanos no 1º Fórum de Alto Nível CELAC África.
Bolívia e Brasil são guardiões de uma das maiores riquezas ambientais do planeta, a Amazônia. A proteção da floresta, da biodiversidade e dos povos que nelas vivem é nossa responsabilidade compartilhada. Essas prioridades que orientam em nossa atuação como membro da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.
Meu caro presidente Paz, em seu discurso de posse, você defendeu uma América Latina livre, democrática e em paz. Como no Brasil, em 8 de janeiro de 2023, a democracia também enfrentou desafios na Bolívia em 2019 e 2024. Em ambos os casos saímos fortalecidos.
Nossos países provaram que instituições democráticas e a vontade popular são capazes de superar tentativas de rupturas. O futuro da nossa região depende da nossa capacidade de cooperar. Sem amarras ideológicas, sem ódio e sem violência, construiremos uma América Latina pacífica, integrada e próspera.
Portanto, desejo, meu caro presidente Rodrigo Paz, toda sorte nesse seu mandato. E tenha certeza que pode contar com o Brasil, porque tudo o que o Brasil quer é crescer e que os países vizinhos cresçam junto com o Brasil, em paz, em harmonia, da forma mais democrática possível, porque somente assim a gente vai acabar com o sofrimento da nossa gente, que ainda vive em uma das regiões mais pobres do mundo.
Boa sorte e bom futuro para a Bolívia.