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População estelar complexa intriga pesquisadores

Publicado em 18/11/2021 15h41 Atualizado em 19/11/2021 10h04
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Uma população estelar estranha chamada “TriAnd”, localizada no halo galáctico, vem intrigando os astrônomos desde 2004 quando foi descoberta paralelamente por dois estudos que tiveram a importante participação do astrônomo brasileiro Helio Jaques Rocha-Pinto. O nome, TriAnd, é uma referência à região do céu onde essa população estelar está localizada, nas constelações de Triângulo e Andrômeda.

TriAnd despertou o interesse dos astrônomos por ser uma região do céu com uma densidade alta anormal de estrelas contrariando a hipótese clássica do halo ser um local da nossa Galáxia (Via Láctea) com uma baixa densidade de estrelas. Duas origens principais surgiram como explicação para TriAnd: a primeira é que a densidade anormal é oriunda de uma galáxia “engolida” pela Via Láctea e a segunda é que TriAnd é uma estrutura interna desconhecida da nossa Galáxia.

Em 2016, astrônomos brasileiros, entre eles o astrônomo do Observatório Nacional, Dr. João Victor Sales Silva, realizaram observações da região do céu de TriAnd com o telescópio Gemini Norte situado no Havaí/EUA com o objetivo de desvendar a natureza de TriAnd através da composição química das estrelas. "A composição química seria como o "DNA" das estrelas, com esta informação conseguimos mapear de onde vieram as estrelas de TriAnd", diz João Victor.

Em dois artigos publicados na revista The Astrophysical Journal em 2019 e 2020 os pesquisadores analisaram as observações realizadas em 2016, detalhando a composição química das estrelas de TriAnd e também o movimento dessa população estelar. "O movimento das estrelas é uma peça importante na revelação da origem de TriAnd, pois nos fornece informação sobre a órbita das estrelas na Via Láctea", informa João Victor.

Segundo estes estudos, o movimento das estrelas indicou que a origem de TriAnd está ligada ao disco da nossa Galáxia apesar de atualmente elas estarem no halo galáctico. A explicação para as estrelas do disco se deslocarem para o halo galáctico, segundo João Victor, é a interação gravitacional da Via Láctea com as galáxias vizinhas. "Próximo da nossa Galáxia existem outras galáxias que estão em constante movimento. Em algum momento, alguma galáxia se aproximou da Via Láctea provocando uma perturbação gravitacional na nossa Galáxia e nas estrelas que a compõem. Esta perturbação pode ter levado as estrelas do disco ao halo galáctico e gerado a sobredensidade de estrelas de TriAnd."

Porém, analisando a composição química das estrelas de TriAnd, os astrônomos chegaram a um resultado intrigante. "Enquanto que o movimento das estrelas indica uma origem no disco para a população estelar de TriAnd, a sua composição química mostra outra coisa. A composição química dessas estrelas é diferente das populações estelares que conhecemos na nossa Galáxia. Chegamos num paradoxo!", exclama João.

Afinal, a população estelar de TriAnd se originou na nossa Galáxia ou não? Nos estudos publicados em 2019 e 2020 os pesquisadores não chegaram a uma conclusão definitiva. "Provavelmente, a população estelar de TriAnd esteja ligada à alguma região da nossa Galáxia que pouco conhecemos, como, por exemplo, o disco externo, parte do disco que fica mais distante do centro galáctico."

Para entender completamente a população estelar de TriAnd, o grupo de astrônomos que compõem este estudo viu a necessidade de observar novas estrelas. "Nos nossos estudos, analisamos apenas sete estrelas de TriAnd. É como se tentássemos descobrir a comida preferida do brasileiro perguntando a apenas sete pessoas. Para uma caracterização mais completa e detalhada desta população estelar é necessária a observação de mais estrelas devido a sua complexidade." diz João. 

Em 2020, novas observações foram realizadas no Havaí e estão em análise por pesquisadores do Instituto de Astronomia e Geofísica (IAG) da Universidade de São Paulo (USP). Ficamos então no aguardo dos próximos capítulos dessa jornada científica para desvendar a natureza de TriAnd.