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Astrofísico do ON ganha tempo de observação no Telescópio Espacial James Webb

Publicado em 07/04/2021 09h30 Atualizado em 23/04/2021 09h40
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O astrofísico Roderik Overzier, da Coordenação de Astronomia e Astrofísica do Observatório Nacional, teve seu pedido de tempo aprovado no Telescópio Espacial James Webb (JWST), que deve ser lançado em outubro deste ano. Apenas dois programas de observação liderados por pesquisadores de instituições brasileiras foram aprovados para o primeiro ano do JWST e Roderik é responsável por um deles, que foi contemplado com 24 horas de observação. 

James Webb será o maior, mais poderoso e complexo telescópio espacial já construído e lançado ao espaço e espera-se que as pesquisas baseadas em suas observações venham alterar fundamentalmente nossa compreensão do universo.

A seleção dos programas contemplados para o primeiro ano de observações com o telescópio, chamado de Ciclo 1, foi anunciada no final de março pelos canais oficiais do Telescópio Espacial James Webb. Esses programas específicos fornecerão à comunidade astronômica mundial uma das primeiras oportunidades extensas de investigar alvos científicos com JWST.

Entrevistamos o pesquisador contemplado Roderik Overzier para sabermos mais detalhes sobre o assunto. Veja abaixo a entrevista na íntegra. 

O que é o JWST? 

O Telescópio Espacial James Webb (JWST) será um novo telescópio espacial de tamanho sem precedentes e destina-se a encontrar as respostas a questões únicas sobre o universo que o telescópio Hubble - que já tem uma idade de 30 anos - não é capaz de responder. O telescópio tem um espelho de 6,5 metros de diâmetro e está otimizado para observar no infravermelho. Juntamente com um conjunto de instrumentos muito diversificado, isso torna o JWST um observatório altamente capaz de estudar as primeiras galáxias do universo e procurar pistas sobre a origem de estrelas e outros sistemas solares.

Esse telescópio espacial já foi lançado?

O telescópio ainda está no solo. Sendo o observatório mais complexo já construído, o projeto enfrentou e superou muitas dificuldades técnicas, de planejamento e orçamento durante os últimos 20 anos. E a pandemia tornou o trabalho final ainda mais difícil. O telescópio agora está totalmente montado e completou seus testes técnicos finais neste março. A data de lançamento planejada atualmente é 31 de outubro deste ano. No entanto, dada a história deste projeto complicado, devemos manter a mente aberta sobre a possibilidade de novos atrasos. Antes do lançamento, o telescópio ainda precisa viajar de barco dos Estados Unidos para a Guiana Francesa na América do Sul, onde será lançado ao espaço com um foguete Ariane 5 da ESA. Então, levará 6 meses para o telescópio desdobrar seus espelhos e enorme proteção solar e chegar ao seu destino final a 1,5 milhões de quilômetros da Terra - isto será 3.000 vezes mais longe do que o Telescópio Espacial Hubble. Somente se tudo correr bem, as observações científicas poderão começar em cerca de um ano a partir de hoje.

Por que os pesquisadores precisam pedir tempo no telescópio? Isso implica em algum pagamento?

Embora o JWST seja uma missão liderada e paga pelas agências espaciais dos EUA, Europa e Canadá (NASA, ESA, CSA), qualquer cientista da Terra pode apresentar uma proposta para usar o telescópio, no espírito de missões anteriores como o Hubble. As propostas são julgadas por uma comunidade internacional de astrofísicos experientes, sem preconceito de gênero, origem ou nacionalidade. É extremamente difícil fazer com que as propostas sejam aceitas porque o número de propostas enviadas é muito maior do que o que o observatório pode fazer em um ano e a maioria das propostas são muito boas. Mas, astrônomos do Brasil também têm uma boa chance. E valeu a pena porque, além de mim, também uma equipe liderada por pesquisadores da UFSM e da UFRGS obteve tempo no telescópio. Assim, temos dois programas de observação brasileiros durante o primeiro ano do JWST, uma conquista incrível para a nossa comunidade!

Como é o projeto dentro do qual você pediu tempo? 

Minha pesquisa se concentra em galáxias e buracos negros no universo distante. Uma classe de objetos particularmente interessantes são as galáxias com grandes buracos negros que estão crescendo rapidamente por meio do acréscimo de matéria. Durante esse processo, os buracos negros lançam poderosos feixes de fótons e partículas (“jatos”) que podem interromper o gás na galáxia circundante. Os objetos estudados pelo meu programa são os chamados rádio-galáxias, que possuem fortes jatos de plasma que emitem ondas de luz rádio. Os alvos mostraram ser uma combinação perfeita para um dos espectrógrafos do JWST de campo integral no infravermelho e nossas observações vão estudar os buracos negros, as galáxias e a interação dos jatos de rádio com o gás circundante pela primeira vez a essas distâncias. Esperamos encontrar novas pistas de como as galáxias e os buracos negros se formaram. 

O tempo solicitado é de quantos dias?

O principal projeto pelo qual fui responsável foi contemplado com 24 horas de observações. Isso é bastante longo, visto que a maioria das propostas aprovadas tem duração de cerca de 13 horas. No entanto, a quantidade de tempo não é determinada pela qualidade de uma proposta, mas pela quantidade de tempo necessária para realizar o experimento científico. Além deste programa, faço parte de outros 3 programas que são liderados por colegas internacionais. Juntos, esses 4 programas são bons para cerca de 100 horas de observações, ou cerca de 1,7% de todo o tempo disponível no JWST durante o primeiro ano.

O que você espera obter com essas observações?

O mais distante dos alvos foi descoberto por nós mesmos há alguns anos usando o nosso acesso brasileiro no Observatório Gemini. O outro alvo é um objeto que estudei por 20 anos, mas ainda tem muitas histórias para contar. Os outros 3 programas dos quais participo estudam os chamados quasares, objetos de classe intimamente relacionada às rádio-galáxias, mas na maioria dos casos sem a forte emissão de rádio. Comparar as propriedades dos primeiros jatos de rádio e quasares no universo e em quais galáxias eles ocorrem será um aspecto particularmente interessante desse conjunto de programas com o JWST.