Diário de Bordo - Depoimentos - Ponta de Pedras

Mulher, Viver sem Violência
Diário de Bordo – Ponte de Pedras
Agência-barco Ilha de Marajó

Arlete da Conceição – Presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Ponta de Pedras
Eu sou Ana Arlete Campos da Conceição, presidenta do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Ponta de Pedras. Moro na comunidade de Santana do Araripe, numa ilha, num assentamento na Ilha Santana. Estou no primeiro mandato do sindicato.
Eu acho que a vinda do barco é importante, primeiro porque isso aqui vai começar a despertar nas mulheres a importância de elas se libertarem dessa questão da violência e também para elas procurarem criar a sua própria independência financeira, pois é mais isso que atrapalha a mulher, porque ela fica dependendo do marido e também tem os filhos.
Eu acho que esta questão da informação que vocês estão dando é importante. E que o trabalho possa continuar, ele não pode parar só nisso.
Aqui em Ponta de Pedras existem casos de agressão contra mulher que, na verdade, não são resolvidos. A mulher vai lá, denuncia, mas não tem um seguimento, acaba naquilo lá.

Terezinha de Souza – Trabalhadora rural
Eu gostaria que esse barco trouxesse algum benefício para nós, no caso sobre o que a gente estava falando hoje, os direitos da mulher. Aqui na cidade, nós não temos delegacia da mulher. Este é um serviço muito importante se a gente conseguisse, porque sonhar não é pecado, né? Quem sabe um dia a gente não vai conseguir, porque eu posso até não precisar agora, mas já precisei e posso precisar mais tarde e muitas outras mulheres também.
Eu já fui vítima de agressão, já fui por conselho, delegacia, fórum, já andei muito por aí. E foi difícil.

Maria Berenilda Tavares Barbosa – Trabalhadora rural
Hoje moro no Baixo Arari, no rio Fábrica, estou aqui porque fui convidada pela presidente do sindicato, do qual eu faço parte como associada. Me senti honrada por estar aqui. Acho que legal porque a gente foi lembrada, nossa cidade foi lembrada.
O barco deve vir sim. Não deve ficar só em conversa. Porque eu sou feminista mesmo, onde sofre uma mulher eu estou sofrendo junto. Eu acho que todas nós, mulheres, temos que estar reunidas para sermos fortes.
Eu sou trabalhadora rural, trabalhamos com roça, com plantação de açaí, na pesca. Eu juntamente com meus maridos e meus filhos. Nós fomos para lá como morador, mas hoje nós temos o título de terra. Quando fomos para lá, nós éramos trabalhadores escravizados, hoje nós nos sentimos fortes porque hoje nós temos o documento de posse de terra.

Maria de Jesus de Souza – Coordenação dos Postos de Saúde da Família
Meu nome é Maria de Jesus Costa de Souza, eu moro em Ponta de Pedras há 20 anos, mas eu sou originária de Melgaço. Hoje eu atuo na área de coordenação dos Postos de Saúde da Família no município. A gente vem fazendo um trabalho de prevenção, de atendimento, de saúde bucal, entre outros.
A importância do barco na cidade de Ponta de Pedras é para o conhecimento das mulheres sobre os direitos, a Lei Maria da Penha – que elas não têm o conhecimento.
Aqui em Ponta de Pedras existem muitos casos de violência doméstica, mas as pessoas se retraem muito em denunciar, porque não têm o apoio da polícia, porque às vezes a polícia tem escrivão, mas não tem delegado; tem delegado e não tem escrivão; às vezes faltam os dois. Falta assim, porque o juiz, ele não é fixo no município. Ele vem por um período.
E a gente tem muita carência disso no município: o apoio do Poder Público, da polícia civil, da polícia militar, delegado. Faltam esses serviços no município para dar apoio às mulheres, para elas denunciarem. Às vezes, elas fazem o Boletim de Ocorrência, mas não levam adiante. Às vezes elas não denunciam, porque, quando chegam na delegacia, não tem delegado ou escrivão. Aí quando chega em casa o marido está mais furioso ainda. Aí fica difícil.

Socorro Silva – Secretária do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
O barco irá ajudar de muitas maneiras, principalmente pra quem mora na área ribeirinha, porque o acesso é mais difícil lá. Tendo o barco, fica mais fácil visitar, ver o que está acontecendo, para poder trazer pra cá pra cidade, para dar andamento no processo.

Dulce Ribeiro – Assistente Social da Secretaria de Assistência Social de Ponta de Pedras
Meu nome é Dulce Ribeiro, eu sou assistente social, trabalho aqui em Ponta de Pedras. Há 16 anos eu atuo na área.
Essa articulação com o governo federal, a vinda dessa equipe que veio trazer essas informações para a gente fomentar uma política para a mulher mais efetiva e eficaz deixa a gente muito esperançoso. Depois da roda de conversa que foi feita, a gente espera realmente ter discutido e ter proposto formas, alternativas, e construir realmente um trabalho que venha coibir e reduzir a violência contra a mulher, que ainda é muito grande.
Nós vivemos numa região de rio, vivemos no Marajó, numa cidade bonita, mas distante de Belém, distante da capital, de onde estão os serviços. O que a gente consegue fazer aqui é o que a gente tem a oferecer, mas as retaguardas ainda são poucas. A gente precisa da segurança para essa mulher, precisa gerar renda para essa mulher, a gente precisa realmente deixar essa mulher fortalecida para depois de uma denúncia e quando ela decide separar daquele agressor. A gente precisa dá condições para ela viver e levar a vida dela adiante, com a família, a vida dela pessoal, no trabalho.
Então só de uma forma articulada a gente vai conseguir dar segurança e dar paz para essa mulher. A gente tem outros projetos que vêm até o município, que traz um serviço, como o barco do INSS flutuante. Quando há esse deslocamento até o município e traz esses serviços, eles geram resultado.
Como técnica da assistência social, a gente espera que o barco faça essa conscientização e capacitação dos técnicos que trabalham no município, para, quando o itinerante voltar, a gente fique preparada e articulado para dar uma resposta para as mulheres.
