Lançada a 3ª edição do "Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça"

A publicação analisa microdados coletados pelo IBGE nos últimos 14 anos (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - Pnads de 1993 a 2007)

Publicado em 16/12/2008 18:17Modificado em 28/04/2010 18:40
Compartilhe:

A publicação analisa microdados coletados pelo IBGE nos últimos 14 anos (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - Pnads de 1993 a 2007)

A 3ª edição do "Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça" lançada hoje pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) mostrou que há uma queda nas diferenças nos últimos 14 anos, mas há muito ainda por fazer. Desde 1993, as mulheres já superaram os homens em anos de estudo. No entanto, ainda sofrem mais com o desemprego, e as que estão empregadas ganham menos que eles. A publicação analisa microdados coletados pelo IBGE nos últimos 14 anos (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - Pnads de 1993 a 2007).

Apesar da lenta mudança de mentalidades, afazeres domésticos, segundo números da pesquisa, ainda são tidos como obrigações femininas. Entre a população de 16 anos ou mais, as mulheres dedicam 27 horas semanais nessas tarefas; os homens apenas 10 horas.

Levando-se em consideração o recorte de raça, o quadro de desigualdade se agrava. As mulheres negras são as que ganham menos, registram as maiores taxas de desemprego, as menores de emprego formal (com carteira) e formam o maior contingente de domésticas. Ser empregada doméstica ainda é no Brasil do século 21 o emprego mais comum para a mulher negra. A cada cinco negras, uma é doméstica. Para a mulher branca, essa proporção diminui para uma doméstica em cada oito com trabalho remunerado.

Também a pobreza é um flagelo maior para os domicílios de famílias negras. Entre os beneficiados do Programa Bolsa Família, 69% dos domicílios têm chefe de família negro e 31%, branco.

Um livro, um CD estatístico (com a série histórica nacional e por região) e um cartaz resumo compõem esta terceira edição da pesquisa, que mostra os números mais completos e mais recentes sobre o perfil da população brasileira a partir de recortes de gênero e raça/cor.

Onze blocos compõem o trabalho: População; Chefia de família; Educação; Saúde; Previdência e assistência social; Mercado de trabalho; Trabalho doméstico remunerado; Habitação e saneamento; Acesso a bens duráveis e exclusão digital; Pobreza, distribuição e desigualdade de renda; e Uso do tempo.

Participaram do lançamento a ministra Nilcéa Freire, da SPM, o presidente Marcio Pochmann, do Ipea, a vice-diretora Junia Puglia, do Unifem, a diretora Zélia Bianchini (IBGE) e os autores da pesquisa Luana Pinheiro, Natália de Oliveira Fontoura e Ana Carolina Querino.

Redução das desigualdades
A ministra Nilcéa Freire, da SPM, comemorou a redução das desigualdades entre homens e mulheres, mas reconheceu que é preciso acelerar o ritmo de implementação das políticas.“Desde as últimas Pnads temos tido notícias boas e más em relação às desigualdades das mulheres. A boa é que existe redução das desigualdades no Brasil. A mais importante seria que diminuiu a diferença salarial entre homens e mulheres, disse a ministra. “A má é que a velocidade não é a que queremos. Se fizermos uma regra de três simples, projetando os dados da Pnad para o futuro, levaríamos 87 anos para superar a diferença salarial entre homens e mulheres, lamentou.

Na avaliação do presidente do Ipea, Marcio Pochmann, as desigualdades de gênero estão diminuindo no país, mas ainda são “acentuadas. Segundo ele, as diferenças entre homens e mulheres no mercado de trabalho são conseqüência dos modelos agrícola e pecuário que o país viveu no passado. Para acabar com as desigualdades, disse Pochmann, é preciso que as políticas afirmativas sejam de Estado, portanto, contínuas, e não apenas de governos.

Trabalho doméstico
Segundo a pesquisa, mulheres têm altas proporções no trabalho doméstico (21,4%) e na posição de produção para próprio consumo e trabalho não remunerado (15,4%). Por outro, as mulheres têm as menores proporções de trabalho com carteira assinada (23,3%) e de empregador (1,2%).

Em 2007, do total de ocupados, somente 0,8% dos homens se dedicavam ao
trabalho doméstico remunerado. Em contrapartida, do total de mulheres ocupadas, 16,4% desenvolviam esse tipo de trabalho - queda de 1 ponto percentual em relação a 1996.

Segundo a pesquisa, o total de mulheres brancas ocupadas em trabalho doméstico remunerado caiu de 13,4% (1996) para 12,1% (2007), enquanto o de mulheres negras que desempenhavam essa mesma atividade passou de 23% (1996) para 21,4% (2007). Um efeito, segundo os pesquisadores do aumento da presença da mulher no mercado de trabalho.

O estudo destaca ainda que a proporção de trabalhadoras domésticas com carteira de trabalho assinada apresentou um relativo aumento entre 1996 e 2007, passando de 18,7% para 25,2% entre as negras e de 23,6% para 30,5%, entre as brancas. De acordo com o levantamento, mesmo com o aumento positivo observado em ambos os universos, a disparidade entre as mulheres negras e brancas com carteira assinada permanece, o que reforça o aspecto da discriminação racial.

Bens duráveis
Dentre os bens duráveis, o mais disseminado é o fogão, presente em 99% dos domicílios brasileiros. Mas, segundo a pesquisa, enquanto 0,6% dos domicílios chefiados por brancos não possuíam fogão em 2007, esse percentual era mais de 1,4% entre os negros.

O Ipea enfatiza ainda que é alta a proporção de domicílios que não possuem geladeira - são 9,2% na média nacional -, sendo que entre os domicílios chefiados por negros na zona rural esse percentual chega a 38%. No caso dos domicílios chefiados por brancos na zona rural, o índice cai para menos da metade: 16%.

No entanto, segundo o instituto, o acesso da população brasileira a esse tipo de bem se ampliou. Em 1993, mais de 28% dos domicílios brasileiros e 79% dos domicílios chefiados por negros na zona rural não tinham condições de adquirir uma geladeira.
De acordo com o estudo, o acesso a microcomputador e internet nos domicílios, ainda é exclusivo de uma parcela muito pequena da população e teve um crescimento mais limitado, quando comparado ao do telefone celular, conforme o estudo. Entre 2001 e 2007, a proporção de domicílios com microcomputador e internet cresceu, respectivamente 14 e 13 pontos percentuais. No caso dos domicílios com telefone móvel, o crescimento foi de 37 pontos.

Segundo o Ipea, em decorrência da ausência de microcomputadores, a proporção de domicílios que não possuíam acesso à internet é bastante elevada. Em 2007, o total de domicílios em área urbana sem acesso à internet foi de 76,7%, sendo que nas áreas rurais esse percentual chegou a 97,8%.

Afazeres domésticos
Em 2007, 89,9% das mulheres com 16 anos ou mais anos de idade afirmavam cuidar de afazeres domésticos, contra 50,7% dos homens. As mulheres dedicavam, em média, 27,2 horas por semana a essas atividades, contra 10,6 horas dos homens. Segundo o Ipea, o número de horas dedicadas aos afazeres domésticos pouco se alterou entre 2001 e 2007. Na primeira vez em que o dado foi levantado, a média de horas era de 30,9 para as mulheres e 11,2 para os homens.

Veja o resumo da pesquisa

Categorias
Compartilhe: