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Palavras do Vice-Presidente em cerimônia do Dia do Diplomata no Palácio Itamaraty – 29 de abril de 2026
O Presidente Lula, infelizmente, não pôde comparecer à cerimônia de hoje e me incumbiu de falar aos jovens diplomatas, em seu dia de formatura do Instituto Rio Branco, sobre a Política Externa Brasileira e o Cenário Internacional.
Temos tido, nos últimos anos, desafios internos e internacionais, que geram instabilidade e ameaçam interesses e valores de nossa sociedade. Assim, mais que nunca, quero dirigir-me a vocês, que irão defender os interesses brasileiros aqui e no exterior, para que sempre busquem reafirmar o compromisso brasileiro com o multilateralismo, com o diálogo e com a paz.
Desde 2023, temos nos esforçado, sob a orientação do Presidente Lula, para promover um governo de União e Reconstrução. União do Brasil em defesa da democracia, em defesa da ciência e da vida, em defesa da soberania, em defesa da paz e do desenvolvimento inclusivo.
Reconstrução de um País próspero e justo. Neste governo, reduzimos consideravelmente o desmatamento na Amazônia e em outros biomas brasileiros. Colocamos em marcha um robusto programa de neoindustrialização, tendo como motores a economia verde e a indústria 4.0. E nossa economia vem crescendo. 26,5 milhões de pessoas foram retiradas da fome. O desemprego e a desigualdade estão nos níveis mais baixos da série histórica. Aprovamos uma histórica reforma tributária do consumo, cinco tributos reduzidos para um só. Com a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais, estamos promovendo a justiça tributária. E, agora, os mais ricos terão que pagar uma taxa mínima de 10%. Temos a menor inflação média por mandato presidencial. E apesar do tarifaço, batemos recordes em nosso comércio exterior e abrimos novos mercados para os produtos e serviços brasileiros.
Quero trazer a mensagem de que o Brasil também deve promover a União e a Reconstrução no cenário internacional. Em um mundo fragmentado, com conflitos armados em vários continentes, aumento do protecionismo e crise das instituições multilaterais, devemos mostrar União entre os países, reforçar a cooperação e reafirmar nossos valores em defesa do multilateralismo.
Trabalhamos para reconstruir a imagem do Brasil no mundo. Um Brasil que o mundo voltou a admirar e respeitar. O povo brasileiro tornou-se novamente protagonista do seu destino e dos rumos do país. Um país que sediou o G20, o BRICS e a COP 30, com o trabalho dedicado de muitos de vocês aqui. Que lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre.
Caras formandas, caros formandos,
O Governo do Brasil está do lado do povo brasileiro. Vocês, como diplomatas, representando o País, onde quer que estejam, devem sempre se lembrar de que trabalham para defender os interesses brasileiros e os interesses dos brasileiros. Defender a soberania, de forma lúcida e altiva, é dever de todo diplomata. Como dizia o lema do Barão do Rio Branco – ubique patriae memor. Lembro-me da pátria em todo lugar.
E assim, apesar das dificuldades e desafios, devemos redobrar nossos esforços na reconstrução da ordem internacional, fundadas no multilateralismo e no desenvolvimento conjunto dos povos.
No panorama das relações internacionais, o Brasil desponta como ator central nas três grandes agendas de nossa época: no combate às mudanças climáticas, na segurança alimentar e na produção de energia renovável.
Estamos entrando no segundo quarto do século XXI, e novos desafios se apresentam. Precisamos de clarividência, de capacidade de análise para enxergar as causas e consequências do estado do mundo. Como dizia Dag Hammerskjöld – o grande Secretário-Geral das Nações Unidas – “a característica do estadista é a de antecipar a necessidade de mudança, e ao antecipá-la, influenciar a direção que queremos dar à nossa civilização”.
Diesel e Fertilizantes
A atual crise no Oriente Médio confirma o acerto de nossa estratégia de apostar na transição energética. Utilizamos o etanol como combustível há meio século. Possuímos uma das matrizes mais limpas do mundo. Desenvolvemos a tecnologia dos motores flex, que podem usar qualquer proporção de gasolina ou etanol. Já adotamos mistura de 30% de etanol na gasolina e de 15% de bio no diesel. Produzimos biocombustíveis de forma sustentável, sem comprometer o cultivo de alimentos ou derrubar florestas.
Com os investimentos no pré-sal, nos tornamos autossuficientes na produção de petróleo. Mas ainda dependemos de refino em outros países, sobretudo de diesel, GNL e querosene de aviação. No caso dos fertilizantes, a situação é mais crítica. Importamos 85% do que consumimos. Isso tem que mudar. A Petrobras retomou investimentos em fertilizantes nitrogenados, reabriu fábricas de ureia e amônia e voltou a investir forte em pesquisa. Iremos reduzir nossa dependência externa e ampliar a produção nacional.
Defesa
A área de defesa vai exigir decisões estratégicas. Não é possível investir em segurança só quando se está sob ameaça. Parafraseando Rui Barbosa, as Forças Armadas podem passar cem anos sem ser usadas, mas não podem passar um minuto sem estar preparadas.
A guerra contra o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz demonstram como as rotas marítimas permanecem vitais para as cadeias globais de abastecimento.
Quem tem a maior costa atlântica do mundo precisa de navios de superfície e submarinos com capacidade de vigilância robusta. Quem tem a maior floresta tropical do mundo precisa saber preservá-la e aproveitar seus recursos de maneira inteligente e responsável.
Nossos estaleiros voltaram a produzir embarcações de defesa modernas. São prova disso o Programa Fragatas Classe Tamandaré, que mantemos com a Alemanha e o qual foi reforçado na última viagem do Presidente Lula a Hannover, e o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, em parceria com a França.
Temos a única fábrica de helicópteros do hemisfério Sul. Apresentamos no mês passado o F39E Gripen, o primeiro caça supersônico produzido no Brasil, em parceria com a Suécia. O avião de transporte militar KC-390, desenvolvido pela Embraer, é um sucesso tecnológico.
Minerais críticos
Com nossas reservas de minerais críticos, temos a oportunidade de reescrever a nossa história. Dessa vez, mais do que extrair os minérios, precisamos criar as condições para agregar valor no Brasil. Quem controla essas reservas ditará o futuro industrial, tecnológico e militar. Para o Brasil, desenvolver essa cadeia é reduzir vulnerabilidades, atrair investimentos, estimular inovação, formar engenheiros e técnicos e transformar sua riqueza mineral em capacidade industrial.
IA e Big Techs
A Revolução Digital e a Inteligência Artificial impactam positivamente a indústria, os serviços públicos, a medicina, a segurança alimentar e energética. Mas trazem desafios que exigem atenção, como a elevada concentração de capacidades tecnológicas e o uso de dados sem adequada contrapartida. É preciso continuar a fortalecer a formação de profissionais especializados, estimular o desenvolvimento de empresas nacionais (start-ups) e criar condições favoráveis à inovação.
Crime Organizado
A criminalidade transnacional é outra ameaça à sociedade brasileira que precisamos enfrentar. Esse problema não é só do Brasil, é global. Exige respostas coordenadas e eficazes. É fundamental ampliar o intercâmbio de dados e inteligência e consolidar mecanismos de prevenção e repressão. Precisamos conter o contrabando de armas e combater a lavagem de dinheiro realizada em paraísos fiscais. Essas temas foram, inclusive, mencionados pelo Presidente Lula à sua contraparte norte-americana.
O tráfico de drogas e pessoas se aproveita de vazios de fiscalização. Com a Lei Antifacção, instituímos o marco legal do combate ao crime organizado no Brasil. Agora temos instrumentos para chegar aos magnatas do crime, que moram em condomínios de luxo. Mas podemos ir mais longe. Com a PEC da Segurança Pública, vamos fortalecer o pacto federativo no combate ao crime organizado, integrando políticas de segurança pública em todo o país.
Formandas e formandos,
O Brasil é um grande país. O Brasil é maior que todos esses desafios. Vocês diplomatas podem andar pelo mundo de cabeça erguida por representar um país que se respeita.
Apostamos no BRICS como espaço de articulação dos países emergentes e dos interesses do mundo em desenvolvimento. Nossa política externa – e parabéns Ministro Mauro Vieira - jamais deixará de investir na integração econômica, política, social e cultural da América Latina e Caribe. Continuaremos a ser parceiro da África em seu desenvolvimento, uma das regiões que mais cresce no mundo. Com a Ásia, polo vibrante do comércio mundial, multiplicaremos ainda mais nossas trocas e aproximaremos nossos países.
O governo seguirá apostando no comércio internacional baseado em regras e na integração com parceiros estratégicos e históricos. Ontem mesmo, o Presidente Lula promulgou o Acordo Mercosul-União Europeia. Ao entrar em vigor no próximo dia 1º de maio, trata-se do maior acordo já assinado na história do Mercosul, com um mercado de 718 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22 trilhões. Ontem, também, foram encaminhados ao Congresso dois novos acordos comerciais: Mercosul-Singapura e Mercosul-EFTA.
Nesse mesmo prédio em que estamos, caros formandos, colegas seus estão negociando esses dias o que pode vir a se tornar o novo acordo Mercosul-Canadá. Isso sinaliza ao mundo, num contexto conturbado e volátil, que há uma terceira margem, que sim é possível chegar a consensos com base em regras e respeito mútuo. Significa também uma busca de diversificação, de integração tecnológica, de transformação de ambição em realidade: o multilateralismo na prática.
Personalidade homenageada
Não posso deixar de felicitá-los pela escolha de Esmeraldina Carvalho Cunha para dar nome a esta turma do Instituto Rio Branco. Esmeraldina era uma mulher simples, baiana de Araci. Seu nome não figura nos livros de história. Percorreu quartéis, tribunais e hospitais em busca de respostas ao desaparecimento da filha (Nilda) em 1971, torturada e morta pela ditadura militar. Não era militante. Era apenas uma mãe exigindo justiça.
Esta é uma justa homenagem a uma mulher que encarna as melhores qualidades do nosso povo. Coragem, dignidade, honestidade, perseverança. Um povo que nunca desiste e que constrói quotidianamente este país. Um povo consciente da necessidade de defender a sua soberania. Um povo que tem ideais e uma política externa guiada por princípios.
Formandos, formandas,
Não percam seus ideais. Como dizia o mesmo Hammarskjöld, os ideais mantêm a tenda de pé, sob a qual se pode então trabalhar. E quando os dilemas e desânimo aparecerem, não se tornem cínicos, mas ainda mais sérios e determinados.
Ideais de paz, cooperação, entendimento, respeito às regras acordadas, defesa legítima dos interesses, criatividade, trabalho árduo. Num mundo onde a paz é ameaçada, temos que estar conscientes de que a paz não é um presente que recebemos sem esforço, ela somente é obtida à custa de um trabalho incessante, por aqueles que estão dispostos aos sacrifícios que ela exige. Num mundo de desrespeito às regras, saber que sua ausência leva ao predomínio da lei do mais forte e, muitas vezes, ao caos. Num mundo desigual, saber almejar um desenvolvimento mais justo e sustentável.
Ao finalizar, quero felicitar os novos diplomatas que iniciam sua trajetória. Vocês ingressam em uma carreira estratégica, que exige conhecimento amplo, variado e técnico, e acima de tudo, compromisso com a construção de pontes entre nações.
Muito obrigado.