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“País quer acesso ao mercado americano, com ou sem Alca” (“Folha de S. Paulo”, 10/1/2005)
Ministro defende “boa negociação com os EUA”, mas afirma que formação de bloco não é essencial.
O fato de ser Alca ou não ser Alca, para nós, não é essencial. Existe a proposta da Alca, e podemos trabalhar desde que se ponha ênfase em acesso a mercado
ELIANE CANTANHÊDE COLUNISTA DA FOLHA ANDRÉ SOLIANI DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Às vésperas de novas tentativas para desenterrar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, fala com desdém do projeto e avisa que o interesse maior do Brasil é pelo acesso ao mercado americano. Se for por um acordo bilateral do Mercosul com os EUA, tudo bem.
“Nosso objetivo é não enterrar a Alca, é termos uma boa negociação com os EUA. O fato de ser Alca ou não ser Alca, para nós, não é essencial”, disse ele à Folha, na sexta-feira, em seu gabinete.
Em tom irreverente, Amorim afirmou que os EUA fazem acordos bilaterais com praticamente todos os países latino-americanos, menos com os do Mercosul. Porque, como diz “intuir”, os americanos sabem que a união Brasil-Argentina não vai engolir qualquer oferta. Na sua opinião, as negociações Mercosul-União Européia estão melhores.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista, em que o chanceler avalia que, em dois anos de governo Lula, “a presença do Brasil no mundo é maior”.
Folha - Estudo do Ipea mostra que, com a Alca, os EUA vão ganhar e o Brasil vai perder comercialmente. Isso vem bem a calhar para respaldar a resistência do atual governo à Alca na retomada das negociações, agora em janeiro?
Celso Amorim - Ele ratifica a posição de cautela. Ratifica o que tenho dito: não adianta querer fazer acordos apressadamente, ainda que se possa beneficiar um setor específico. A gente tem de olhar o conjunto. É preciso ter uma Alca não como um contrato de adesão que você é obrigado a assinar embaixo, mas sim umaAlca negociada.Avançaríamos mais rapidamente se concentrássemos mais em acesso a mercado e menos nas regras gerais para o hemisfério. É difícil encontrar regras gerais com as quais todos concordem.
Folha - O estudo do Ipea não ajuda a enterrar a Alca?
Amorim - Não sei. Não é o nosso objetivo enterrar a Alca, é ter uma boa negociação com os EUA. O fato de ser Alca ou não ser Alca, para nós, não é essencial. Existe a proposta da Alca, nós também não somos contra e podemos trabalhar desde que se ponha ênfase em acesso a mercado.
Folha - O senhor trocaria, então, a Alca por uma negociação bilateral direta com os EUA?
Amorim - Não é trocar. Na prática, os EUA já fizeram isso com todos os outros. Só não querem fazer com o Mercosul, por alguma razão que eu posso intuir, mas que eles nunca explicitaram.
Folha - Qual é a sua intuição?
Amorim - Acho que eles pensam que podem obter mais concessões de outros do que do Mercosul, que tem Brasil e Argentina. Estamos unidos. Como intuição: acham que, no contexto da Alca, o que eles obtiverem dos outros vai ser uma pressão para fazermos. Com o Mercosul é mais difícil.
Folha - O que apontam os estudos sobre a UE (União Européia)?
Amorim - O Ipea fez um estudo a nosso pedido e também dava resultado negativo para o Mercosul. As outras pessoas que fizeram um cálculo muito positivo para o acordo com a UE fizeram um cálculo mecânico, que não existe.
Folha - AAlca continua na agenda do dia do Itamaraty?
Amorim - Ela está na agenda do dia, mas não pode ser a única prioridade ou obsessão do governo brasileiro. O nosso comércio com países em desenvolvimento tem aumentado de maneira extraordinária, a tal ponto que hoje eles correspondem a 49% das exportações brasileiras. Há anos atrás, eram 30%. E isso num contexto de crescimento do comércio com os EUA, a Europa. Não estamos falando de uma coisa política ou doutrinária ou ideológica. É uma coisa prática.
Folha - Em 2004 as negociações da Alca e com a União Européia recuaram. É possível avançar em 2005?
Amorim - Acho possível avançar com a UE. Eu vejo muitas pessoas, incluindo ligadas ao setor financeiro, querendo o acordo rápido. Mas eles querem que avance rapidamente fazendo concessões no setor dos outros. Acho que, com a UE, não houve recuo, houve muito avanço. Nós estávamos em terra incógnita e, que eu saiba, foi a primeira vez que a UE ofereceu cotas na agricultura.
Com a UE nós aproximamos as negociações, diminuímos o hiato. Com a Alca isso não aconteceu. Nós vamos ficar insistindo em negociar regras de propriedade intelectual, de investimentos e, ao mesmo tempo, os EUA não querem regras sobre subsídios? Vai ter um impasse permanente. Nós não vamos aceitar essas regras enquanto não houver regras sobre subsídios.
Folha - As regras do Mercosul engessam o Brasil nas suas negociações externas?
Amorim - Em todo processo associativo isso ocorre. Você tem de ver se o ganho é maior do que aquilo que você está deixando de ganhar por causa do acordo. Isso ocorre na UE também. Você não acha que a Alemanha teria feito um acordo mais rápido com o Mercosul se não fossem os agricultores franceses? Teria. Mas isso é motivo para abandonar a UE? Acho que não.
No nosso caso, nem do ponto de vista político nem do ponto de vista econômico faria sentido. O nosso comércio com o Mercosul e com a América do Sul cresceu brutalmente. Acho que esses argumentos são muito imediatistas.
Folha - E as demonstrações de ciúmes do [Néstor] Kirchner [presidente da Argentina]?
Amorim - Eu não vejo isso, não. As relações com a Argentina estão ótimas. Nós é que temos uma tendência a dramatizar.
Folha - Nós? Os portenhos não dramatizam mais?
Amorim - Nós, sul-americanos.
Folha - Dentro da política de maior inserção internacional do Brasil, há escolhas de risco. A presença no Haiti? As opções de acordos comerciais? Amorim - Guimarães Rosa termina o “Grande Sertão: Veredas” com a seguinte frase: “Viver é muito perigoso”.
Folha - E se der errado?
Amorim - O que vai dar errado? O risco muito maior é o Brasil perder a capacidade de ter uma política de medicamentos. Uma política que começou com o atual prefeito de São Paulo, José Serra [então ministro da Saúde do governo tucano], embora o PT também tivesse um projeto. Não é uma coisa ideológica. Risco é não poder ter uma política de medicamentos que atenda ao público, é você descobrir que, se fizer um código de águas para São Paulo ou Rio, não pode aplicar porque um investidor estrangeiro se sentiu lesado na sua expectativa de lucro. Risco é isso.
Folha - Qual a importância de o Brasil eleger um embaixador seu para a direção da OMC?
Amorim - O grande desequilíbrio da OMC é que é um grande pacto entre os desenvolvidos, com os demais sendo chamados a aderir. Em resumo, é isso. Aí há algumas cláusulas dando uma colher de chá, mas não passa disso. A gente viu no caso da Embraer. As regras foram escritas para resolver o problema deles e entre eles. Mesmo na agricultura, andou porque os EUA também quiseram. Nós colhemos migalhas.
Folha - Então, por que o Brasil sempre diz que a OMC é melhor do que a Alca, por exemplo?
Amorim - A melhor coisa da OMC foi ter criado um sistema de solução de controvérsia. Se você olhar para trás, os principais ganhos que nós tivemos no ano passado foram algodão e açúcar. Nunca, em tempo algum, você teria vitórias como essa, seja na Alca, seja num acordo com a UE.
Folha - Por que não o ex-comissário de Comércio da UE Pascal Lamy para a OMC?
Amorim - O Lamy é meu amigo, e tenho admiração e respeito por ele, mas é inevitável que acabe refletindo mais as concepções dos países desenvolvidos. Ele é um homem de país desenvolvido e, por mais que se esforce para superar, haverá sempre esse condicionamento. Eu prefiro um homem de país em desenvolvimento. E acho que um homem com uma posição firme, mas moderada do Brasil, e com equilíbrio pessoal é o ideal.
Folha - E o risco de assumir a liderança das tropas de paz no Haiti?
Amorim - A missão que o Brasil aceitou foi mandar 1.200 homens, que poderia ter tirado há três meses e pode tirar daqui a quatro...
Folha - Isso é uma ameaça porque os demais países não estão dando o suporte prometido?
Amorim - Não, não é uma ameaça. Mas é claro que, ao aceitarmos a missão, nós fizemos uma avaliação sobre o papel político que ela poderia ter. Vai muito além. Nós estamos estamos trabalhando com o espírito de realmente fazer algo diferente. Ali há o lixo, mas também há a esperança. Os demais países, principalmente os do Caribe, vêem a missão do Brasil como uma coisa nova. Vamos ser bem- sucedidos? Não posso ter certeza.
Folha - Lula se reuniu com ministros e comandantes militares para discutir ajuda às vítimas do tsunami. É uma nova chance de o Brasil ocupar espaço internacional?
Amorim - Pronto, lá vêm vocês. Isso é como o título [da Folha] de hoje [sexta-feira], dizendo que o Brasil vai quitar as dívidas com os organismos internacionais por causa da campanha para ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Não é nada disso. Vai pagar porque deve, oras! É uma dívida, tem de pagar.
Folha - A concentração na Ásia desvia o foco do Haiti?
Amorim - A vida é assim, o que posso fazer? A nossa estratégia é continuar falando no Haiti. Por que eu não estou indo à reunião de Genebra [amanhã, dia 11] e sugeri o general [Armando] Félix [ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência]? Porque no dia 12 eu vou estar na reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre o Haiti.
Folha - Uma das críticas de 2004 à política externa foi por causa do encontro de Lula com o [Muammar] Gaddafi na Líbia. Como será o encontro dos países árabes com o Mercosul, no Brasil, em maio?
Amorim - A política externa foi muito criticada, mas o povo entendeu e apoiou. O Brasil foi criticado, mas os primeiros-ministros da Espanha e do Reino Unido também foram a países árabes e foram aplaudidos. Então, essas são críticas de quem quer pregar para o Brasil o que os outros não fazem. São críticas sem nenhum fundamento, não são sérias.
Em política externa, se você for se relacionar apenas com aqueles que forem virtuosos, você talvez nem possa sair de casa. A aproximação com os países árabes é um projeto que está indo bem, eu vou visitar alguns desses países nos próximos meses, vai haver uma reunião ministerial brevemente no Marrocos. Vai ser um êxito.
Folha - Qual o objetivo?
Amorim - Não é um objetivo único. É como no caso da aproximação com a China e a Índia. É comercial? É. É político? É. É cultural? É. O comércio com a Síria, por exemplo, aumentou 300%.
Folha - No início do governo, o sr. dizia que o Brasil precisava encontrar seu verdadeiro tamanho. Encontrou?
Amorim - Mal comparando, é como produto: os melhores indicadores são os seus preços internacionais. Eu vejo o mundo reconhecendo isso. Não falo de jornaizinhos, falo da BBC, do “Herald Tribune”, do “Miami Herald”, do “Le Monde”. Eles acham que o Brasil assumiu um papel compatível com seu tamanho. A presença do Brasil no mundo é maior e por uma série de fatores: o país vem de um processo de consolidação da democracia, de uma transição civilizada de poder, conquistou estabilidade econômica, está crescendo. Tudo isso pesa. O que está fazendo mais do que no passado, certamente, é garantindo uma presença mais efetiva no cenário internacional.
O que o presidente Lula quer? Uma nova geografia comercial mais equilibrada, um Mercosul mais integrado, uma América do Sul mais integrada, as Nações Unidas reformadas. O roteiro é bom, resta saber se vai haver financiamento para fazer o filme.
Folha - Tudo isso significa resistência a um mundo unipolar dominado pelos EUA?
Amorim - Isso é dedução sua.
Folha - O sr. concorda?
Amorim - Vamos colocar de uma maneira positiva: faz parte da construção de um mundo multipolar.