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Nova espécie de perereca homenageia Pixinguinha

A nova espécie foi batizada como perereca-pixinguinha em homenagem ao músico brasileiro e, por ora, é conhecida apenas para a cidade de Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo
Publicado em 30/06/2021 13h40 Atualizado em 30/06/2021 14h59
PererecaPixinguinha.JPG

Foto: JVALacerda

Conhecida pelas estonteantes paisagens naturais, as florestas de Santa Teresa/ES reservam grandes surpresas! A cidade é destaque mundial pela grande diversidade de plantas e animais, como bromélias, orquídeas, borboletas, macacos e aves. Mas quando se trata de sapos, rãs e pererecas, Santa Teresa é um dos municípios com maior diversidade de espécies do planeta! E o mais surpreendente é que, apesar das mais de 100 espécies desse grupo já catalogadas na região, essa lista ainda parece estar longe de chegar ao fim. No início de 2020, pesquisadores do Projeto Bromeligenous - IMD e do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) se depararam com uma perereca diferente de todas já registradas na região. Inicialmente, os biólogos pensaram estar diante de uma espécie que ocorria em outras áreas da Mata Atlântica, mas que nunca havia sido reportada para Santa Teresa. Mas, para surpresa dos pesquisadores, eles não estavam diante apenas de um novo registro para Santa Teresa, mas sim de um achado inédito para todo o planeta. Isso mesmo, estavam diante de uma espécie ainda não conhecida pela ciência. Depois de um ano de muita investigação, essa descoberta foi coroada com a publicação da descrição da nova espécie no periódico científico internacional Ichthyology & Herpetology, hoje, dia 29 de junho, passando então a ser oficialmente batizada como Scinax pixinguinha (perereca-pixinguinha). 

 

Mas afinal, por que homenagear Pixinguinha ao batizar a nova espécie?

O nome de uma nova espécie é escolhido pelo grupo de pesquisadores que a descreve. O biólogo João Victor A. Lacerda, pesquisador do INMA e do Projeto Bromeligenous, e um dos autores do estudo, explica que, apesar de inusitado, combinar Pixinguinha, perereca e conservação numa mesma roda de choro é uma mistura que não desafina. “Vivemos diante de um eterno conflito de emoções. Por um lado, é estarrecedor e muito nos entristece constatar que a Mata Atlântica já foi praticamente toda devastada ao longo dos últimos 500 anos e, com isso, muitas espécies de plantas e animais foram extintas antes mesmo de serem descobertas. Por outro lado, é um grande alento e motivação saber que esse pouquinho que resta de mata ainda nos reserva grandes descobertas. Assim, encontrar uma nova espécie em meio a esse cenário tem o poder de, momentaneamente, transformar nosso lamento em felicidade. Essa mistura de sentimentos nos lembrou bastante do saudoso e talentoso músico Pixinguinha que, feito mágico, transformava notas de choro, o ritmo, em lágrimas de alegria. Diante disso, achamos uma justa homenagem batizar a nova espécie de Scinax pixinguinha.”

 

 

Qual a importância de se batizar uma nova espécie?

João Victor explica que descrever e batizar uma nova espécie é o primeiro passo para que ela possa ser avaliada em relação ao seu status de conservação. “Até ser formalmente descrita, ela não será relacionada em avaliações e listas de espécies ameaçadas, ficando totalmente desprotegida em relação a políticas e medidas públicas de conservação. Descobertas de novas espécies são fundamentais para entendermos os impactos da ação humana no planeta. Se, por exemplo, uma espécie for extinta antes de ser descoberta, essa perda jamais será contabilizada e, por isso, não entenderemos e não poderemos remediar os impactos causadores desse processo de extinção.”  

 

O equilíbrio da natureza

João Victor salienta que sapos, rãs e pererecas têm uma enorme variedade de cores, tamanhos e comportamentos, e isso por si só já deveria justificar o zelo e apreço por essas espécies. Além disso, são fundamentais para a manutenção do equilíbrio da natureza, servindo de predadores e presas para diversas outras espécies de animais. Por se alimentarem de pequenos invertebrados como mosquitos, aranhas e besouros, também atuam como controladores de pragas e vetores de doenças que afetam diretamente a vida das pessoas. Além disso, é interessante ressaltar que parte da respiração desses animais é realizada através da pele e, para mantê-la úmida e protegida, secretam uma enorme diversidade de compostos bioativos que tem sido alvo de interesse farmacológico pois possuem potencial de auxiliar, por exemplo, no combate ou controle da diabetes, leishmaniose e doença de chagas. Assim, o descobrimento de novas espécies, como a perereca-pixinguinha, representa também um novo potencial para descobertas pela indústria farmacêutica.

 

A espécie recém-descoberta Scinax pixinguinha exibindo sua coloração noturna (à esquerda) e diurna (à direita). Abaixo, ambiente em que a nova espécie foi encontrada no município de Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo (Fotos: JVALacerda)

 Acima, a espécie recém-descoberta Scinax pixinguinha exibindo sua coloração noturna (à esquerda) e diurna (à direita).
Abaixo, ambiente em que a nova espécie foi encontrada no município de Santa Teresa,
na região serrana do Espírito Santo (Fotos: JVALacerda)

 

Sobre a nova espécie:

  • Nome científico: Scinax pixinguinha

  • Nome popular: perereca-pixinguinha.

  • Categoria de ameaça: como foi recentemente descrita, pouco se sabe sobre a nova espécie e, por isso, os autores sugeriram seu enquadramento na categoria DD (deficiente em dados).

  • Tamanho: 2,4 - 2,8 cm (machos) e 3,1 - 3,8 cm (fêmeas). 

  • Coloração: durante a noite, os machos possuem coloração amarelo vivo por estarem em atividade reprodutiva. Durante o dia, machos e fêmeas variam entre diferentes tons de cinza, bege e marrom. Além disso, possuem uma mancha mais escurecida entre os olhos e coloração branca-esverdeada em fundo preto na região das virilhas e áreas ocultas das pernas.

  • Reprodução: foram observados machos em atividade de vocalização (indício de atividade reprodutiva) no mês de abril, em um riacho em interior de mata.

  • Onde ocorre: por ora, a nova espécie foi encontrada apenas em quatro localidades no interior ou nos limites do perímetro urbano de Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo.

  • Principais possíveis ameaças: uso de agrotóxicos e degradação das nascentes, córregos e matas ciliares.