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Prospecção de urânio no Brasil

O geólogo Hugo Polo, da Divisão de Geologia Econômica do Serviço Geológico do Brasil (SGB), é entrevistado pelo físico Henrique Davidovich sobre prospecção de urânio no Brasil.
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Publicado em 03/06/2026 15h40
Mina de Cachoeira, de urânio, em Caetité(BA). Foto: SGB
Mina de Cachoeira, de urânio, em Caetité(BA). Foto: SGB
  1. A quanto montam as reservas brasileiras de urânio?

Brasil possui um dos maiores recursos de urânio do mundo, com cerca de 250 mil toneladas de urânio contido. e tem potencial para figurar entre os cinco maiores recursos do mundo. De acordo com as definições apresentadas nas publicações da IAEA, os recursos identificados consistem em recursos razoavelmente garantidos (RAR) mais recursos inferidos (IR) recuperáveis a um custo inferior a 260 dólares por quilo de urânio.

Para se ter ideia do que significa essa quantidade, com Angra 1 e Angra 2, hoje o Brasil precisa de 450 toneladas anuais de urânio. Quando Angra 3 estiver pronta, serão necessárias de 700 a 900 toneladas anuais. Os outros reatores têm demanda muito pequena. Com isso, nossos recursos durariam quase três séculos. Cabe aqui um destaque: enquanto recursos são o que descrevemos, são consideradas reservas o que é economicamente viável extrair no presente. As reservas são bem menores.

     2. Fale-me sobre os minérios de urânio encontrados em Caetité e Santa Quitéria.

     Em Lagoa Real/Caetité, o minério apresenta teor médio de 2000 ppm        (partes por milhão), com reservas já disponíveis de 73.851 toneladas de urânio. A mineração em Lagoa Real é operada pela INB (Indústrias Nucleares do Brasil), empresa pública vinculada ao MME (Ministério das Minas e Energia), responsável pela produção nacional de concentrado de urânio e sua integração com etapas subsequentes do ciclo do combustível, conforme o marco regulatório aplicável.

Em Santa Quitéria/Itataia (CE), o urânio está associado a rochas fosfáticas (ricas em fósforo), no mesmo ambiente geológico em que se busca fosfato para fertilizantes. Nessa situação, o urânio é um coproduto de um empreendimento cujo foco é o fosfato. As reservas desse depósito (medidas, indicadas e inferidas) montam a 120.840 toneladas de urânio, com teores médios de 500 ppm. O empreendimento é conduzido pela empresa privada Galvani em parceria com a INB, em um arranjo de joint venture no qual, em termos gerais, a Galvani lidera a cadeia do fosfato/fertilizantes, enquanto a INB participa como parceira estratégica e responsável pela parcela nuclear do projeto (incluindo o produto uranífero e as exigências específicas de controle, qualidade e conformidade regulatória associadas ao urânio).

      3. Dê-me informações sobre a extensão da prospecção de urânio em Lagoa Real.

A Província Uranífera de Lagoa Real (PULR), na Bahia, é delimitada a leste pela Chapada Diamantina e a oeste pela Serra do Espinhaço e tem extensão aproximada de 1.500 km².

  A descoberta de Lagoa Real correu em 1977, durante os levantamentos aéreos de campo magnético e radiação gama em grande área, feita pelo Convênio Geofísica Brasil-Alemanha (CGBA), iniciado em 1970, com seleção de anomalias para levantamentos de detalhe. A jazida de Itataia também foi descoberta nesse ciclo, em 1976. Em Lagoa Real, as equipes da Nuclebrás/INB identificaram ao longo das décadas de 1980 e 2000 um conjunto expressivo de alvos, 38 anomalias de urânio, dessas, 15 anomalias avançaram para o nível de depósito, com ao menos recurso inferido.

     O SGB estima que a PULR pode ter cerca de 90 mil toneladas de urânio em recursos não descobertos. Isso representaria aproximadamente 51% do total estimado da província. Em 2024, o SGB publicou o mapa de favorabilidade para depósitos de urânio na Província Lagoa Real, BA. Nesse mapa a integração de dados geoquímicos (sedimentos de correntes de rios e concentrados de bateia), de campos magnéticos e de radiação gama apontou novas áreas potenciais.

      4. Conte-me um pouco da história da pesquisa e exploração de urânio no país. Dê-me um quadro sobre o que foi a exploração de urânio em Poços de Caldas.

O Brasil tem uma longa história de exploração do urânio que remonta à década de 1940, quando o país fornecia minerais radioativos, principalmente areias monazíticas, para os Estados Unidos. Desde aquela época, o governo brasileiro manifestava interesse em dominar a tecnologia nuclear. As primeiras estruturas institucionais foram sendo criadas ao longo dos anos 1950 (principalmente CNPq).

Em 1952, iniciou-se a primeira prospecção sistemática de minerais de urânio, com estudos em Poços de Caldas. Na virada para a década de 1970, o Brasil acelerou seu programa nuclear. O Convênio Geofísica Brasil-Alemanha (CGBA), firmado em 1970, impulsionou levantamentos geofísicos, geológicos e geoquímicos em grande escala, treinando dezenas de profissionais brasileiros com apoio técnico e de equipamentos alemães. Esses esforços resultaram, entre outras conquistas, nas descobertas dos depósitos de Lagoa Real e Santa Quitéria.

     A década de 1990 também foi marcada por forte desinvestimento. A retomada institucional veio gradualmente. Mais recentemente, a Política Nuclear Brasileira de 2018 estabeleceu diretrizes para fomentar a pesquisa e prospecção de minérios nucleares, dando origem, em 2020, ao Projeto Urânio Brasil, conduzido pelo Serviço Geológico do Brasil.

     A mineração na região de Poços de Caldas, realizada pela Nuclebrás (INB) começou em 1982, com uma planta com capacidade de 466 toneladas de urânio ao ano e estimativas de metal contido de 22.726 t U, e foi encerrada em 1994, devido a inviabilidade econômica. A produção totalizou 1.124 t DUA (diuranato de amônio) com 85% U3O8, utilizado para alimentar a usina de Angra 1.

     A partir de 1995 a unidade passou a funcionar principalmente de forma administrativa e com laboratórios de análises ambientais, onde ocorre o monitoramento constante da radioatividade nas águas e do solo da região. A INB se encarrega da recuperação ambiental da área, com a remediação dos efeitos da geração de drenagens ácidas, formadas como consequência da percolação de águas de chuva ou águas subterrâneas em rochas sulfetadas expostas na cava e nas pilhas de rejeito. Estudos recentes indicam que a região possui grande reserva de Elementos de Terras Raras.

     Apesar de não ser economicamente viável, o depósito de Poços de Caldas foi explorado para desenvolver o programa nuclear brasileiro. Poços de Caldas foi um aprendizado para nós.

      5. Conte-me sobre a prospecção de urânio já realizada pelo SGB, o que vem fazendo sobre isso e o que programa para o futuro nesse sentido. Dê destaque a Rio Cristalino no Sul do Pará.

O SGB/CPRM conduziu o projeto "Avaliação do Potencial de Urânio no Brasil", cujo principal produto é um mapa de prospectividade que representa o potencial para depósitos de urânio no território nacional. O trabalho compilou e reavaliou informações geológicas já existentes, levantou um histórico da pesquisa e da lavra de urânio no país, e classificou as ocorrências conhecidas por tipo de depósito. A publicação do mapa ocorreu um 2022 e do relatório em 2023.

     A metodologia adotada foi uma que combina a abordagem de sistemas minerais com aspectos de teoria da probabilidade, avaliando três fatores fundamentais: fonte do metal, transporte e deposição. O programa está em andamento, e o informe gerado funciona como uma síntese do conhecimento atual sobre o tema, com o objetivo de subsidiar decisões do poder público sobre a Política Nuclear Brasileira. O trabalho já identificou as áreas consideradas mais favoráveis para ocorrência de depósitos de urânio em escala continental, que serão objeto de estudos mais detalhados. A região de Lagoa Real foi a primeira delas, conforme já foi falado. A área seguinte foi a região de Rio Cristalino, no sul do Pará, já investigada pela Nuclebrás; Teores locais de até 5,2% de U foram registrados em algumas anomalias. Os estudos ainda estão em andamento. Os dados obtidos até então indicam que é uma área muito promissora para abrigar um depósito de urânio de elevados teores e volume considerável. A seguir, outras áreas serão avaliadas e possivelmente devem envolver estudos nas bacias sedimentares continentais

      6. Dê-me sobre as relações do SGB com a AIEA.

     Desde 2018 a equipe do projeto urânio já participou de diversas conferências e encontros técnicos da AIEA, apresentando trabalhos e discutindo temas diversos, como os depósitos em arenito, técnicas de pesquisa e prospecção e metodologias de cálculo de recursos minerais

      7. Complemente com alguma coisa que ache ainda importante de dizer.

 O programa de prospecção iniciado pela Nuclebrás/INB na década de 1960 e retomado recentemente pelo SGB precisam ser continuadas e aprofundadas. Acreditamos que o Brasil tem potencial para figurar entre os cinco países com maiores reservas de urânio do mundo e entre os principais exportadores do metal e de insumos para a indústria termonuclear. Para isso, é necessário garantir financiamento contínuo, incentivos públicos e parcerias com o setor privado para a execução das pesquisas na exploração do metal.

Mineral denominado albitito com incrustações de uranofano(um composto de urânio), coletado na Mina do Engenho, em Caetité(BA). Foto: SGB
Mineral denominado albitito com incrustações de uranofano(um composto de urânio), coletado na Mina do Engenho, em Caetité(BA). Foto: SGB

Escrita por: Henrique Davidovich 

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