Painel discute bioeconomia e mapeamento da biodiversidade para a proteção da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo
Tecnologia e inovação são debatidas como formas de pesquisar de forma abrangente a biodiversidade de florestas tropicais como a Amazônia.

Como é possível promover a bioeconomia na Amazônia — a maior floresta tropical do mundo — de forma sustentável, garantindo a proteção desse território e dos povos, plantas, animais e microrganismos que o compõem? A pergunta norteou o painel “Mapeamento da Biodiversidade e Arqueologia da Amazônia: promovendo a proteção dos territórios e da bioeconomia”, realizado pelo Alana, Mapbiomas e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) nesta quinta-feira (14), na programação do G20 Social.
Com a participação de Eduardo Neves, arqueólogo e coordenador do Projeto Amazônia Revelada, João Francisco Maria, coordenador geral de sociobioeconomia do MDIC, Kamila Camilo, diretora executiva do Instituto Oyá, e Peter Houlihan, EVP de biodiversidade do XPRIZE Rainforest, e mediação de Pedro Hartung, CEO da Alana Foundation, o encontro discutiu novas tecnologias para acelerar o mapeamento da biodiversidade e a arqueologia da Amazônia, região vital para a sustentabilidade global e para a promoção da sociobiodiversidade.
Sabe-se que, hoje, cerca de 1,5 milhão de espécies já foram mapeadas por cientistas. No entanto, pesquisas estimam que existem cerca de 9 milhões de tipos de fauna e flora ainda desconhecidas por nós. Ou seja, mais de 80% da biodiversidade do planeta não é conhecida e tampouco foi catalogada. Logo, de que maneira podemos acelerar a transição para uma bioeconomia que mantenha as florestas, os rios e a biodiversidade, com sustentabilidade e justiça social?
Para fazer frente à essa questão, a Alana Foundation, organização filantrópica que investe em pesquisa e tecnologia, financia o XPRIZE Rainforest | Florestas Tropicais, uma competição global que busca estimular o surgimento de tecnologias alinhadas ao conhecimento tradicional para mapear a biodiversidade das florestas tropicais. Após uma jornada de cinco anos, com a participação de mais de 300 equipes, de 70 países, os grupos premiados serão anunciados em uma cerimônia na noite desta sexta-feira (15) no Rio de Janeiro.
“Precisamos de meios mais rápidos para entender esse ecossistema e fazer a coleta de dados necessários para a proteção das florestas tropicais. Conhecer a biodiversidade a partir da tecnologia é fundamental para a sobrevivência do planeta”, defendeu Peter Houlihan, do XPRIZE Rainforest, na mesa.
O futuro da Amazônia é o passado
A inovação por meio da tecnologia também está presente no Projeto Amazônia Revelada, uma rede formada por arqueólogos e povos tradicionais para mapear e identificar as florestas tropicais. O grupo realiza consultas com populações ameaçadas de destruição, do Acre ao Pará, promovendo o diálogo entre diferentes áreas de conhecimento, como as das ciências e as das populações locais, e usando tecnologias avançadas para tornar possível a preservação dessas áreas. “Não há perspectiva de presente e de futuro sem a participação e sem o conhecimento dos povos da floresta, como os indígenas, quilombolas e ribeirinhos”, disse o arqueólogo Eduardo Neves. “Não vamos resolver tudo sozinho e a partir de uma única forma de produção de conhecimento. Temos que trabalhar em parceria.” Ou, ainda, como afirmou Camila Kamilo, “As comunidades tradicionais precisam ser donas das informações que elas geram.”
Neves trabalha em iniciativas na Amazônia há quase 40 anos, e tem acompanhado há décadas o que se transforma e o que permanece em relação à percepção de parte da sociedade sobre as florestas. “Nos anos 1980 e 1990, existia a imagem de que a Amazônia era uma região inóspita, não ocupada. Isso serviu de base para as políticas públicas que são feitas até hoje, em um entendimento de que a floresta está aberta e disponível para ser explorada”, explicou. “Mas o que a arqueologia mostra é que a Amazônia foi densamente ocupada no passado, com milhões de indígenas vivendo nesses territórios durante a chegada dos europeus.”
Se em países como o México e o Egito existem pirâmides como grandes construções humanas da história antiga, qual seria o equivalente dessas construções no Brasil? “Nossas pirâmides são as nossas florestas, grande construção histórica das comunidades tradicionais. Os modos de vida dos povos tradicionais são uma espécie de bioeconomia, uma herança sociobiocultural”, definiu Neves. Uma ocupação que trouxe como herança às gerações seguintes uma grande floresta de manejo.
No entanto, nos últimos 40 anos, o Brasil perdeu cerca de 20% da floresta amazônica, tendo a sociedade como testemunha dessa história de destruição, o que permeia a vida cotidiana dos povos da floresta. “O modo de vida das grandes cidades mudou completamente a realidade das comunidades tradicionais, com a perda da biodiversidade, secas nos rios e recordes de incêndios e desmatamento”, afirmou Kamila Camilo, do Instituto Oyá.
“Precisamos olhar para trás para andar para frente. Os povos tradicionais nos ensinam a necessidade de simbiose e de um relacionamento mais intrínseco com a natureza. São povos que nunca esqueceram sua identidade. Já nós abrimos mão da nossa essência em nome de um modo de vida pautado pelo hiperconsumo, a compra pela compra. É por isso que precisamos fazer escolhas difíceis. Não dá para resolver problemas complexos com o imediatismo de parte da sociedade que atua somente para responder às necessidades econômicas do momento. Estamos dispostos a aprender com os modos de vida dos povos tradicionais para regenerar o planeta?”, questionou.
G20 e o impulsionamento da bioeconomia
O G20 aprovou, em setembro deste ano, uma declaração que estabelece princípios para desenvolver a bioeconomia no mundo. Segundo nota divulgada pela presidência brasileira no G20, foi a primeira vez que o tema foi objeto de um documento acordado de forma multilateral, de modo que a bioeconomia passe a fazer parte das tomadas de decisão e debates macroeconômicos entre os países.
“Bioeconomia e sociobioeconomia são grandes oportunidades para o Brasil. Precisamos de uma economia da floresta, do meio ambiente, que valorize a diversidade. Garantir a escuta e a presença indígena e preta é necessário nesse processo e uma oportunidade para repensar o nosso modelo de desenvolvimento", disse João Francisco Maria do MDIC. "Qual o interesse de um modelo de vida completamente exaustivo, e muito pior para os pobres? Há outros modos de desenvolvimento, e devemos nos apegar ao nosso grande potencial.”
Para os convidados do painel, o que determina nossa sobrevivência no mundo é, portanto, a humanidade e tecnologias aliadas aos conhecimentos dos povos da floresta. “Perdemos a nossa capacidade de escutar esses povos. Para todos os problemas do mundo, a resposta é a comunidade”, afirmou Kamilo. “Nossa reação natural é ruir a abundância. Nós precisamos aprender com os indígenas, ribeirinhos e quilombolas a cultivar a diferença, e a manejar a abundância para produzir mais abundância em benefício da biodiversidade”, finalizou Neves.
Por Fernanda Peixoto Miranda - Matéria produzida pela equipe do Instituto Alana em uma parceria de conteúdos da Comunicação do G20 Brasil